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Como Doria, Meirelles financiou a própria campanha em 2002

Política

Com o campo progressista desarticulado e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na mira da Justiça, figuras da direita brasileira que almejam a Presidência da República em 2018 começaram a se estranhar. É o caso do prefeito de São Paulo, João Doria Jr (PSDB), que vem enfrentando seu padrinho político, Geraldo Alckmin, pela vaga tucana, e do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), que segundo relatos de bastidores tem pretensões políticas maiores.

Na quarta-feira 13, Meirelles foi alçado à condição de possível pré-candidato pelo PSD, seu partido, após um almoço com 20 deputados da sigla. “Ele começa a se descolar como um candidato que tem afinidade com o mercado e com a sociedade”, disse o deputado Marcos Montes (MG). “Ele recebeu [o pedido de candidatura] com entusiasmo. Se vier a ser chamado, ele não disse isso, mas o partido tem certeza de que ele atenderá ao chamado da sociedade”, afirmou.

Poucas horas depois, Doria, que se vende como o líder do campo anti-Lula, reagiu. Disse esperar que Meirelles siga o “bom trabalho” na Fazenda, permaneça “focado na economia” e que o PSD só tome sua decisão no fim de 2017. “Não é hora, tem tempo para isso”, disse Doria. “É cedo ainda para colar essa imagem no ministro Meirelles, acho que isso pode até prejudicar um pouco sua conduta à frente da política econômica do país”, afirmou.

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Nesta quinta-feira 14, foi a vez de Meirelles rebater. “Fico muito feliz quando as pessoas recomendam que eu faça algo que eu já estou fazendo”, disse o ministro, acrescentando estar “100% concentrado” no ministério.

Doria, Meirelles e os empresários

A reação de Doria se dá contra um possível candidato que está em seu campo político, e com o qual disputaria votos, e que tem trajetória semelhante à sua. Assim como Doria, Meirelles saiu do campo empresarial para a vida política, mas em 2002, quando se candidatou a deputado federal pelo PSDB em Goiás.

Também como Doria, Meirelles financiou de forma decisiva sua própria campanha. Segundo reportagem da Folha de S.Paulo de 15 de dezembro de 2002, Meirelles recebeu apenas duas doações (de 15 mil reais cada uma) e tirou 887 mil reais do bolso para bancar sua candidatura. Fez uma divulgação custosa, com equipe de televisão própria, viagens pelo estado e “showmício” com a dupla sertaneja Rick e Renner. 

Ex-presidente mundial do BankBoston, Meirelles prometia, como Doria, trabalhar em conjunto com a iniciativa privada. “Eu quero usar tudo o que eu aprendi, quero contar com todos os empresários que trabalharam comigo, que sempre foram meus parceiros, para trazer novas indústrias e novas empresas para o nosso estado”, dizia Meirelles em vídeo de campanha, com uma música sertaneja ao fundo.

Adepto das políticas econômicas de austeridade, Meirelles prometia reduzir o desemprego em Goiás. Ele conseguiu convencer os eleitores. Foi o mais votado em Goiás em 2002, com 183 mil votos.

Meirelles não chegou a atuar como deputado, no entanto. Foi convidado por Lula para assumir o Banco Central, cargo em que esteve até o fim do segundo mandato do petista, em 2010. 

Entre 2012 e 2016, Meirelles foi o presidente da J&F, a holding dos irmãos Wesley e Joesley Batista, ambos atualmente presos. Com a derrubada de Dilma Rousseff, assumiu o Ministério da Fazenda a convite de Temer.

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Se entrar na disputa, Meirelles deve entrar confiante. Em março, em evento em Frankfurt, na Alemanha, ele previu a vitória de um candidato de direita em 2018. “Haverá um ponto de decisão em que vários candidatos do centro e centro-­direita, os moderados, serão favoráveis à reforma”, disse. “Acho que no fim do dia, as chances são de que esses candidatos [pró-­reformas] prevaleçam”, afirmou.

Só vai faltar combinar com o eleitor. Pesquisa Datafolha de maio mostrou que 71% dos brasileiros são contrários à reforma da Previdência e que 64% e 63%, respectivamente, achavam que a reforma trabalhista e a terceirização privilegiam mais os empresários do que os trabalhadores.

Se quiser autofinanciar sua campanha – e puder, uma vez que a reforma política pode alterar as regras atuais – Meirelles não deve ter problemas. Reportagem publicada em julho pelo site Buzzfeed mostrou que três meses antes de assumir o Ministério da Fazenda, Meirelles recebeu 167 milhões de reais em contas que mantinha no exterior e que foram usadas para pagamentos por serviços prestados por sua empresa de consultoria, a HM&A, inclusive para a J&F dos irmãos presos. Hoje o dinheiro está aplicado em um fundo de investimentos no Brasil.

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