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Comida é pasto? A polêmica sobre o alimento granulado de Doria

Política

Sabe-se pouco sobre os possíveis benefícios ou efeitos colaterais do alimento granulado produzido pela empresa Plataforma Sinergia, feito à base de alimentos que estão perto da data de vencimento ou aquém dos padrões exigidos nas prateleiras dos supermercados.

Conhece-se mais o argumento utilizado por João Doria, prefeito de São Paulo, para defender sua distribuição às famílias carentes da cidade: há proteínas, vitaminas e minerais no composto, como se comer fosse uma simples ingestão de substâncias necessárias à vida, e não o mais básico dos rituais sociais e culturais, essencial à cidadania.

Parceira de uma iniciativa da ONU para evitar o desperdício de alimentos, a empresa que produz a chamada “farinata”, sintetizada a partir de feijão, arroz, batata e tomate próximos do seu vencimento, pode até ter encontrado um bom produto para situações de crise humanitária, como desastres naturais, secas prolongadas e guerras civis.

Antes de demonizar o que veio a ser chamado de “ração humana” por alguns, vale a pergunta: seria São Paulo o local ideal para iniciar a disseminação de um produto voltado para graves casos de desnutrição?

Em outubro de 2016, o Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário divulgou um estudo com dados de 2014 sobre insegurança alimentar nos municípios brasileiros. Na pesquisa, 159 cidades foram identificadas com vulnerabilidade muito alta, sendo mais de 70% nas regiões Norte e Nordeste.

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Cidade mais populosa do País, São Paulo não figura, em termos proporcionais, entre os casos mais críticos de desnutrição. Segundo o estudo, possui vulnerabilidade média. Entre os 2,7 milhões de paulistanos cadastrados em programas sociais do governo federal, 5% estão em situação alimentar vulnerável. No grupo dos municípios na categoria “muito alta”, a cidade de Jordão, no Acre, tem ao menos 20% de sua população em situação de desnutrição, por exemplo.

A Plataforma Sinergia afirma não ter capacidade de produzir o granulado em escala. No entanto, a equipe de Doria esforça-se para defender sua distribuição. A secretária de Direitos Humanos da prefeitura, Eloísa Arruda, argumentou que se trata de um “suplemento alimentar” semelhante ao whey, utilizado com frequência por praticantes de atividades esportivas.

Embora aparentemente abalada pelas críticas de nutricionistas e da população, a obsessão de Doria e sua equipe em levar a distribuição do produto à frente impressiona por sua condução açodada, sem que a prefeitura apresente exemplos de situações nas quais o alimento produziu efeitos positivos no combate à fome em municípios mais vulneráveis.

Doria parece querer reduzir a fome a um problema fisiológico, ao ignorar a dimensão comunitária e cultural da comida, capaz de agregar cidadãos em torno de uma mesa e estimular o convívio social. O ato de partilhar o pão, só para ficar no exemplo mais óbvio, está presente em diversas religiões.

A fase jacobina da Revolução Francesa e a Revolução Russa de cem anos atrás não chegavam, talvez por limitações tecnológicas, a propor entregar estranhos compostos industriais à população faminta. Longe de ser um jacobino ou um leninista, Doria tem algo em comum com lideranças que, caso fossem seus contemporâneos, certamente seriam alvo de suas críticas nas redes sociais.

Ao reduzir a alimentação a uma simples questão nutricional, o discurso do tucano rende-se a limitar os pobres ao império absoluto dos corpos, como se fosse possível separar a necessidade fisiológica da liberdade dos cidadãos, uma convicção alimentada por Robespierre, como demonstra a filósofa Hannah Arendt em sua obra Da Revolução.

Arendt analisa no capítulo “A Questão Social” a miséria como “força desumanizadora”. “A pobreza é abjeta, porque submete os homens ao império absoluto de seus corpos, isto é, ao império absoluto da necessidade”, aponta a filósofa. Ela entende que as revoluções francesa e russa acabaram por reforçar a conexão entre política e necessidade, ao considerar prioritária a questão social em detrimento dos direitos individuais.

Principal liderança jacobina, Robespierre assim resumiu os objetivos da segunda fase da Revolução Francesa: “Tudo que é necessário à manutenção da vida deve ser bem comum, e apenas o excedente pode ser considerado propriedade privada”.

Vestuário, reprodução em espécie e alimentação, os chamados direitos dos sans-culottes, antecipavam-se a questões como educação e direito ao voto. Ao eleger a necessidade como principal bandeira política, analisa a filósofa, Robespierre convenceu-se também da irresistibilidade da violência, ao justificar o terror jacobino como necessário para a implantação de uma sociedade materialmente mais justa. Reflexão semelhante pode ser feita sobre os diversos processos revolucionários influenciados por Karl Marx no século XX.

Cuidar da necessidade fisiológica dos cidadãos como prioridade não é uma exclusividade de governos totalitários, e é possível abraçar a bandeira sem incorrer em excessos. Na década passada, o Brasil notabilizou-se por uma política de combate à fome que não violou liberdades e direitos dos cidadãos previstos na Constituição, entre eles, a própria alimentação como dever do Estado.

Há enorme diferença entre o Bolsa Família, que garante recursos mínimos aos mais pobres a serem gastos conforme sua vontade e liberdade, e a distribuição do alimento granulado pelo prefeito João Doria sem maiores pesquisas ou diálogo com a população. Mesmo que ajude a combater a fome, o composto usado de forma indiscriminada pode se tornar uma imposição violenta do Estado ao direito do cidadão de escolher seu alimento.

Robespierre não foi, certamente, para a guilhotina por sua obsessão em atender à necessidade fisiológica dos cidadãos, até porque sua política consistia em tentar controlar o preço de gêneros de primeira necessidade, entre eles, alimentos consagrados no cardápio da população francesa. Por outro lado, a principal liderança jacobina tentou impor à população um culto racionalista estranho à tradição religiosa do povo francês pouco antes de ser condenado à morte.

Embora a pobreza muitas vezes reduza os indivíduos ao império absoluto de seus corpos, um governante que tenta interferir na cultura da população, seja ela alimentar, seja religiosa, dificilmente o fará sem resistência. Nos anos 1980, quando um número muito maior de brasileiros vivia em condições de desnutrição, a banda Titãs já cantava ironicamente: Comida é pasto. Mas ninguém quer só comida.

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