Com ajuda de Eduardo Bolsonaro, Luciano Hang financiou blogueiro acusado de fake news, diz TV

'Hang tá dentro. Patrocínio para o programa', escreveu Allan dos Santos ao filho do presidente, conforme documentos em posse da CPI da Covid

Allan dos Santos e Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Allan dos Santos e Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução/Redes Sociais

Política

Documentos em posse da CPI da Covid e divulgados pela TV Globo sugerem que o blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, investigado por disseminar fake news, obteve financiamento do empresário bolsonarista Luciano Hang, dono das lojas Havan, com o auxílio do deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).

 

 

A CPI, a partir dos documentos revelados nesta sexta-feira 24 pela emissora, apurou que políticos e empresários utilizaram o Gabinete do Ódio. Eduardo teria atuado para conseguir financiadores para o grupo.

Um dos elementos é uma suposta troca de mensagens entre o filho Zero Três do presidente Jair Bolsonaro e Allan dos Santos em janeiro de 2019. No diálogo, o blogueiro teria pedido que o deputado o colocasse em contato com Hang.

“Mandei mensagem para o Hang; Assim que ele me responder te passo”, teria escrito Eduardo na sequência do diálogo. Mais tarde, o filho do presidente teria emendado: “Ele disse que você pode entrar em contato com ele. Falei que você é o nosso cara da imprensa para um projeto que desenvolvemos aqui nesta semana de aulas com o Olavo”. A referência é ao astrólogo Olavo de Carvalho, guru bolsonarista.

Um dia depois, conforme o material da CPI, Allan disse que falaria com Hang “quando ele voltar da Europa”. Quatro meses mais tarde, o blogueiro teria escrito: “Luciano Hang tá dentro. Patrocínio para o programa”.

Em nota à TV Globo, Luciano Hang disse que as afirmações são uma “narrativa absurda”, que não faz parte de qualquer gabinete e que não patrocinou veículos de internet que disseminaram desinformação.

Outras mensagens em poder da CPI mostram detalhes de como funcionavam os ataques aos opositores de Jair Bolsonaro coordenados pelo Gabinete do Ódio. As conversas indicam que ordens chegavam a blogueiros via WhatsApp e eram espalhadas aos pares via grupos. Ações seriam coordenadas diretamente por assessores do presidente, como Filipe G. Martins e Tércio Arnaud.

“Recebi ordens do GDO [sigla para Gabinete do Ódio] para levantar forte a tag #DoriaPiorQueLula. Bora lá no Twitter”, escreveu em um grupo de WhatsApp o blogueiro bolsonarista Bernardo Küster em abril de 2020. A ação de ataque ao governador João Doria (PSDB-SP) foi então apoiada pelos integrantes do grupo. As conversas foram divulgadas pelo jornal O Globo.

A menção ao grupo nas conversas não é a única. Em outras conversas, Küster questiona o assessor do presidente para assuntos internacionais, Filipe G. Martins, sobre a presença de um ‘gordinho de óculos’ em uma entrevista gravada por ele com Jair Bolsonaro em dezembro de 2019. A resposta de Martins menciona nominalmente o grupo, ainda que de forma irônica.

“O Tércio. Membro original do gabinete do ódio”, responde Martins se referindo a Tércio Arnaud, assessor especial da Presidência.

As mensagens indicam ainda que Jair Bolsonaro era de fato aconselhado pelo grupo a tomar determinadas ações. A atuação fica evidente em um diálogo entre Küster e outro assessor diretor do ex-capitão, Mateus Diniz.

Na conversa, também de dezembro de 2019, o blogueiro sugere que Bolsonaro grave um vídeo com uma mensagem natalina de ‘esperança’ aos brasileiros. A resposta recebida novamente demonstra a participação do grupo na comunicação do presidente.

“O Gabinete do Ódio Ltda. Já pensou nisso hahaha”, escreve Diniz.

Em outro diálogo, o blogueiro pede orientações ao assessor parlamentar da deputada bolsonarista Caroline de Toni (PSL-SC) sobre um ataque que planejam realizar contra a deputada Joice Hasselmann (PSL-SP), ex-aliada.

Ele questiona se o assessor poderia ‘vazar’ uma informação que obtiveram contra a parlamentar. A informação seria parte dos documentos sigilosos em posse da CPMI das Fake News.

“Falei com o adv [advogado] do gabinete do Edu, e ele disse que vai tentar outro caminho […] Se isso vier a público agora, a Joice vai solicitar ao pessoal lá quem acessou [o sistema]. Vai foder o cara lá e a mim tbm [sic], que contei”, orienta o assessor.

Segundo a reportagem, o ‘Edu’ a quem o assessor faz menção na mensagem seria Eduardo Bolsonaro. Na ocasião, Joice e Eduardo haviam rompido a aliança e a parlamentar acabou por virar alvo dos bolsonaristas.

O mesmo assessor confirma a existência do Gabinete do Ódio e a participação dos assessores do presidente no grupo responsável pelos ataques. No diálogo em que as confirmações ocorrem, o blogueiro bolsonarista é avisado de que será convocado pela CPMI para depor após a divulgação de uma reportagem que relata sua participação no GDO.

“Absurdo mesmo. O pessoal do Gabinete do Ódio tbm [sic] foi assim. Filipe G. Martins também foi convocado com base nessa reportagem lixo”, declara o funcionário da deputada a Küster.

Questionado pelo jornal carioca a respeito do conteúdo das conversas, o blogueiro nega a existência do grupo, afirma que nunca recebeu ordens de ninguém para atacar opositores e alega que as menções ao Gabinete do Ódio eram ‘uma brincadeira’. Martins preferiu não se pronunciar e Arnaud não foi encontrado.

“Eu digo isso, ‘ordens do GDO’, mas na verdade não tem ordem de ninguém. Nunca recebi ordem do Carluxo [referência ao vereador Carlos Bolsonaro, apontando como chefe do grupo] nem de ninguém. É uma coisa espontânea, uma brincadeira. Se o GDO de fato existisse, ninguém saberia”, justificou o blogueiro, que não revelou quais eram as informações que pretendia ‘vazar’ sobre Joice Hasselmann.

 

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