Política
Coincidência ou vingança?
Como um assassinato brutal se conecta a outra morte escabrosa de 50 anos antes
Há quem acredite em justiça tardia. Há quem enxergue uma coincidência macabra de uma tragédia sem fim. Na terça-feira 3, a polícia identificou o corpo decapitado e carbonizado em um sítio em Meaípe, litoral do Espírito Santo. Trata-se de Dante Brito Michelini, personagem de um crime nunca esclarecido que chocou o Brasil há cerca de 50 anos. “Dantinho”, herdeiro de uma família abastada e tradicional do estado, foi a julgamento e acabou absolvido pelo assassinato brutal de Araceli Cabrera Crespo, de apenas 8 anos, em 18 de maio de 1973. O corpo da menina foi encontrado seis dias depois do sequestro, desfigurado por ácido e com sinais de tortura e abuso sexual. Ninguém foi punido e, ao longo das décadas, a história, encorpada pelo desaparecimento de provas e testemunhas e pela influência econômica e política dos supostos autores, inspirou uma série sem fim de hipóteses pouco plausíveis e lendas urbanas.
Michelini estava com 75 anos. Na quarta-feira 11, um suspeito foi preso. Sua identidade permanecia em segredo até o fechamento desta edição. O delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, não descarta a ligação entre a decapitação e o caso Araceli. Sabe-se que o assassinato teria ocorrido entre 13 e 20 de janeiro. A cabeça, decepada, ainda não foi encontrada. Segundo o laudo policial, “Dantinho” foi esfaqueado duas vezes no tórax. O corte fino ao redor do pescoço destoa das marcas desse tipo de delito, normalmente grosseiras.
Impunidade. Araceli se tornou um símbolo da violência contra crianças – Imagem: Redes Sociais
Araceli desapareceu em Vitória, capital do estado, após sair mais cedo da escola, na região da Praia do Suá. A menina foi vista pela última vez nas proximidades de um bar, em uma área de intensa circulação. O desaparecimento mobilizou familiares e moradores. Dias depois, o corpo acabaria localizado em uma área de mata próxima ao Hospital Infantil da cidade. Segundo a perícia, a menina foi drogada, estuprada, assassinada e, por fim, carbonizada. O uso de ácido teve o intuito de dificultar a identificação e encobrir os rastros de autoria. A investigação policial levou à acusação formal de três suspeitos: “Dantinho”, o pai, Dante de Brito Michelini, e Paulo Constantino Helal, outro integrante de uma família capixaba influente. Os policiais tiveram acesso a veículos e às áreas centrais na dinâmica do crime e os acusados apresentaram versões consideradas contraditórias ao longo do inquérito. Apesar da condenação inicial, o processo foi deliberadamente esvaziado. Ao longo das décadas, testemunhas foram assassinadas e indícios sumiram dos autos até que o trio foi absolvido por falta de provas. Até hoje pairam suspeitas de interferência política no processo. Em entrevista publicada pelo G1, Carlos Cabrera Crespo, irmão de Araceli, afirmou que o caso desestruturou a família e resultou na separação dos pais, que, em um dado momento da investigação, foram apontados como responsáveis pelo assassinato. “O que dizer? Um crime mal investigado onde não fizeram sequer, ao que me consta, perícia em vários locais. No carro dos suspeitos, onde supostamente minha irmã foi levada e dopada”, lamentou. “A justiça dos homens falhou. Só queria que meus pais estivessem vivos para ver. Deus deixou esta pessoa viver bastante tempo para ele sofrer na consciência dele o mal que fez. Se é que tinha consciência.”
Dantinho Michelini, decapitado, foi acusado de violentar e matar Araceli Crespo em 1973
O assassinato da menina ainda mobiliza o estado. Em 2023, o Movimento Nacional de Direitos Humanos e o Centro de Defesa dos Direitos Humanos da Serra ingressaram com uma ação na Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos, na qual pedem a condenação do Brasil por omissão, interferências e violações continuadas no curso da investigação. As entidades cobram ainda uma “reparação histórica” e exigem a reabertura efetiva da investigação, a responsabilização administrativa, disciplinar e penal de agentes públicos que atuaram para esvaziar o processo e a adoção de políticas concretas de enfrentamento à violência sexual contra crianças e adolescentes.
O prestígio dos Michelini manteve-se inabalado neste meio século. O patriarca Dante Michelini, comerciante, pai e avô dos acusados, doou o terreno por onde passa a avenida que leva seu nome, uma via à margem da Praia de Camburi, cartão-postal da capital capixaba. Morreu em 1965, antes do crime que mancharia o sobrenome da família. A morte violenta de “Dantinho” reavivou, no entanto, as exigências de movimentos populares da cidade de troca do nome da avenida.
Incapaz de punir os assassinos, restou ao Estado uma homenagem simbólica à vítima. Em 2000, uma lei federal instituiu o 18 de maio como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Em Vitória, o Memorial Araceli, instalado em um viaduto no fim da Praia de Camburi, busca manter viva a memória do caso. O espaço, que abriga o maior mural do Espírito Santo, tornou-se um marco da luta contra a exploração sexual de menores e funciona como símbolo permanente de denúncia, resistência e recusa ao esquecimento. Mais de 50 anos depois do assassinato, os números mostram que a violência contra crianças e adolescentes continua a ser uma tragédia cotidiana. No ano passado, 64% das denúncias recebidas pela SaferNet Brasil foram relacionadas a abuso e exploração sexual infantil. Ao mesmo tempo, o Atlas da Violência revelou que o País registrou no mesmo período, em média, 13 casos por hora de violência física contra crianças e adolescentes. •
Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Coincidência ou vingança?’
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