Política
Cidade à venda
Depois da fracassada concessão do Anhangabaú, a prefeitura pretende privatizar a Praça Roosevelt
Após a fracassada concessão do Vale do Anhangabaú para a iniciativa privada, o prefeito Ricardo Nunes, do MDB, abriu consulta pública para fazer o mesmo com a Praça Roosevelt. Polo cultural de São Paulo, a área corre até o risco de perder o nome, porque o edital dá direito à concessionária vencedora de explorar naming rights. A administração do Anhangabaú, pela empresa VivaVale, é tão caótica que a prefeitura pediu encerramento do contrato cinco anos antes.
Apesar da malfadada experiência, o prefeito insiste na ideia de entregar a uma empresa a gestão do “Complexo Roosevelt”, com o alegado objetivo de fazer reformas nas calçadas e jardins, em troca da exploração comercial de quiosques e de um estacionamento que fica no subterrâneo. O dramaturgo Rodolfo García Vázquez, um dos fundadores do Grupo Satyros, que teve um papel decisivo na conversão do espaço em um polo cultural da capital paulista, acha absurda a ideia de rebatizar a praça. “É como colocar à venda um bem público”, avalia. Vásquez recorda que a Praça Roosevelt era um espaço abandonado até a instalação de teatros e bares no local. “Era uma das regiões mais perigosas do Centro. Só havia prostituição e tráfico de drogas. Quando chegamos, recebíamos ameaças constantemente”, recorda. Foi a atriz cubana Phedra Córdoba quem ajudou o teatro a se consolidar. “Nós a convidamos para trabalhar com a gente e ela nos apresentou à comunidade trans, que nos acolheu.” A partir de então, novas companhias se instalaram na praça. “Foram os teatros que levantaram esse lugar, sem nenhum apoio do Poder Público. E, agora, querem entregar para o mercado?”
Enquanto lava a louça atrás do balcão do bar, o ator Samuel Leon Freire de Lima conta que há dois anos saiu de Natal, no Rio Grande Norte, para tentar a carreira em São Paulo. Atualmente, ele se divide entre o trabalho artístico e bicos nos bares locais. “Quem trabalha aqui costuma chegar mais cedo para fazer exercício, andar de skate, virou um lugar de encontros.” Para ele, a privatização pode mudar essa dinâmica. “Acredito que vai selecionar quem frequenta e, consequentemente, reforçar preconceitos.” O diretor musical Beto Capeta teme que o projeto sirva ao propósito de “controle social”.
A Roosevelt é realmente singular em relação às demais praças da cidade. A concentração de bares, teatros e até um pequeno cinema de rua, com ingressos a 20 reais, torna o local único. É também um ponto de dispersão de manifestações e blocos do carnaval. Neste ano, contudo, a prefeitura cercou a área com tapumes para barrar a entrada de foliões. A ação é uma prévia do que se pretende fazer no espaço, acredita o poeta e advogado Benedito Bergamo, morador da região desde 2008. Representante jurídico da Associação A Praça, ele revela que as irregularidades começaram há alguns anos, com a presença ostensiva da Polícia Militar e da Guarda Municipal, que ocupam boa parte do espaço com motos e viaturas. A concessionária que vencer o edital terá direito a alugar o estacionamento subterrâneo, monetizar os quiosques e realizar eventos. “As atividades que já acontecem aqui serão realizadas onde?”, pergunta.
Segundo Bergamo, a proposta não faz sentido nem sequer do ponto de vista econômico. Segundo o edital, a empresa vencedora do certame pagará 2,9 milhões de reais para explorar o espaço por 20 anos. “Isso significa cerca de 12 mil reais por mês. Qual o impacto orçamentário? Nós mesmos poderíamos nos reunir e pagar essa quantia à prefeitura”, ironiza.
Para a urbanista Raquel Rolnik, professora da USP e coordenadora do LabCidade, “São Paulo está perdendo seus espaços de uso comum, necessários para a vida na cidade”. A especialista relata que o Parque Villa-Lobos, hoje privatizado, está totalmente poluído por propagandas. “Essa é a lógica do mercado, que precisa monetizar esses espaços para obter lucro. Mas não pode ser a lógica da administração pública.”
A empresa vencedora do certame pagará a bagatela de 2,9 milhões por 20 anos, cerca de 12 mil reais por mês
O maior parque de São Paulo, o Ibirapuera, também está nas mãos da iniciativa privada. O que antes era um lugar de contato com a natureza, acrescenta a urbanista, hoje é uma experiência parecida com acessar um serviço de streaming que bombardeia o espectador com propagandas antes de liberar o conteúdo. Essa dinâmica afasta quem não pode pagar, avalia. “Não é problema de um concessionário ou outro, o problema é a lógica de concessão.” A gestão Ricardo Nunes está “reduzindo a experiência de vida a uma experiência de consumo”, lamenta Rolnik.
Diretor-executivo do Instituto Pólis, o urbanista Rodrigo Iacovini acredita que a prefeitura “dá um tiro no pé” ao lotear a cidade dessa forma. “No longo prazo, essas privatizações têm o poder nefasto de destruir os laços sociais, porque a cidadania passa a ser condicionada ao consumo. Só é cidadão quem tem poder de compra.”
Durante uma audiência pública online, promovida pela prefeitura na quarta-feira 17, diversos ativistas e moradores criticaram a proposta. Representante do Coletivo Ocupa Roosevelt, Juliana Heredia citou diversas cláusulas do edital que dão brecha para fechar a praça, realizar eventos pagos e exercer controle sobre o público, tudo o que a prefeitura garante que não vai acontecer. A atividade foi conduzida por Kim Ferreira de Souza, representante da SP Parcerias, estatal responsável por gerir concessões da administração municipal. Após ouvir as reclamações, ele disse que poderia “aprimorar o edital”.
Celso Giannazi, vereador do PSOL, diz receber queixas semanais dos moradores do Vale do Anhangabaú. Desde 2021, a concessionária VivaVale recebeu 32 multas por promover barulhentas festas privadas, que por vezes se estendem até o raiar do dia, além de cercar a área com tapumes e impedir a circulação de pedestres. Não bastasse, instalou um estacionamento irregular no espaço. Foi a gota d’água para a prefeitura anunciar a intenção de encerrar a concessão antes do término do prazo contratual.
Segundo o vereador Nabil Bonduki, do PT, o prefeito busca brechas na legislação para tocar esses projetos, “sem passar pela Câmara Municipal e sem debate com a sociedade”. A colega Renata Falzoni, do PSB, explica que, de acordo com a documentação disponibilizada pela prefeitura até o momento, não ficou claro por que a concessão da Roosevelt é necessária.
Em nota, a administração Nunes afirma que a “a Praça Roosevelt passará por adequações estruturais e de drenagem, com destaque especial para a reforma do pergolado, a recuperação de dois quiosques e a ampliação do cachorródromo”. Além disso, o texto diz estar prevista “uma conexão direta com o Parque Augusta por meio da Rua Gravataí”. •
Publicado na edição n° 1418 de CartaCapital, em 24 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Cidade à venda’
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