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Com Lula no poder e Bolsonaro afastado de sua base, o campo progressista tem condições reais de ‘desbolsonarizar’ a política, defende Esther Solano

O escândalo das joias sauditas caiu como uma bomba na base do ex-capitão – Imagem: Partido Liberal/AFP
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A chegada de Lula à Presidência e a pouca habilidade de Jair Bolsonaro de se manter conectado à sua base abrem caminho para o campo progressista reconquistar os eleitores que se deixaram iludir pelo bolsonarismo, defende Esther Solano, doutora em Ciências Sociais pela Universidade ­Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Unifesp. No marco dos cem dias do governo Lula, a socióloga explica como os bolsonaristas se organizam para continuar emplacando um discurso intolerante, capaz de mobilizar uma massa insatisfeita com a política.

Na avaliação da especialista, há uma crise de representatividade no campo conservador. Este seria, portanto, o momento ideal para o campo progressista tomar as rédeas da narrativa. “Agora Lula deveria, de fato, se posicionar de acordo com o slogan do seu governo: união e reconstrução, há um anseio legítimo pelo retorno da ordem”, aconselha. Nesta entrevista, Solano esmiúça temas como família, fundamentalismo religioso e os possíveis caminhos de diálogo que o campo progressista pode aproveitar. A íntegra em vídeo está disponível no canal de CartaCapital no YouTube.

Há anos, a socióloga faz entrevistas com bolsonaristas “radicais” e “moderados” – Imagem: TV Gazeta

CartaCapital: O escândalo das joias sauditas produziu algum efeito entre os apoiadores de Jair Bolsonaro? Ou a turma é imune a qualquer denúncia?

Esther Solano: Teve efeito, sim. Este escândalo teve um impacto negativo, sobretudo naquela base bolsonarista chamada de “moderada”. Ou seja, os apoiadores que não estão hiper-radicalizados. O que conseguimos capturar nas entrevistas com esses eleitores? Basicamente, a ideia de que Bolsonaro errou. E, se errou, deve pagar. Existe um caminho possível de desconstrução da imagem do ex-capitão. Por outro lado, houve muita confusão sobre a volta de Bolsonaro ao Brasil, não há uma narrativa clara sobre os motivos que o levaram a retornar ao País. Ele não está aqui para liderar oposição alguma. Precisou se apresentar para a Justiça, para responder aos numerosos processos nos quais é alvo. É preciso explicar isso melhor aos devotos do capitão, porque eles estão desorientados, não sabem por que Bolsonaro deixou o País nem a razão de estar voltando somente agora. Essa confusão dá a oportunidade de o campo progressista assumir as rédeas da narrativa.

CC: Os bolsonaristas não estão mais sendo municiados de narrativas distorcidas e informações falsas nos grupos de Telegram e WhatsApp?

ES: Em nossos estudos, dividimos metodológica e politicamente os bolsonaristas entre os radicalizados, que são quantitativamente minoritários, mas mobilizam os outros, contaminando, digamos assim, a ala moderada, mais numerosa. Mas parte expressiva dessa base radical se desmobilizou quando Bolsonaro deixou o Brasil e, sobretudo, após a fracassada tentativa de golpe em 8 de janeiro, que resultou na prisão de mais de 2 mil pessoas. São os radicais que estão atuantes no Telegram e em outras redes sociais, arquitetando toda a campanha de desinformação e de ódio. Só o nível de engajamento caiu muito. O bolsonarismo sofre com uma espécie de efeito sanfona. Em momentos decisivos, como as eleições, os moderados colaram nos radicais. Após a derrota nas urnas, eles se afastaram, com um discurso que faz todo sentido: “Olha, o Lula ganhou, bola pra frente… Quero que o País dê certo, quero estabilidade, não posso me dedicar só a temas políticos”.

“Os devotos do capitão estão desorientados, não sabem por que ele deixou o País nem a razão de estar voltando somente agora”

CC: Esta seria a brecha para virar o jogo?

ES: Sim, é um momento muito interessante. Existe, de fato, um descolamento da base radical com os moderados, que votaram no ex-capitão nas últimas eleições, mas não estão absolutamente identificados com o bolsonarismo. Muitos desses bolsonaristas moderados votaram em Lula no passado. Podem, portanto, voltar a se identificar com projetos democráticos.

CC: Qual foi o impacto do 8 de janeiro entre os bolsonaristas moderados?

ES: Muito negativo. O bolsonarismo radical é caracterizado pela violência, pela intolerância, pela baderna. Espontaneamente, os moderados começaram a dizer: “Eu não me identifico com isso”. O repúdio é muito grande, e aí houve uma grave falha do campo progressista. Com o bolsonarismo radical nesse lugar de rejeição, poderíamos reforçar o papel de Lula como pacificador, um estadista que consegue deixar as diferenças de lado para unir o povo novamente. Nas entrevistas que faço, os moderados dizem esperar que Lula assuma esse papel. Não faz mais sentido instigar a polarização.

CC: Bolsonaro estendeu as férias na Flórida, passou 89 dias fora do País, e retornou dois dias antes do aniversário do golpe de 1964. Como os bolsonaristas radicais lidaram com a ausência de seu líder por tanto tempo?

ES: Ficaram desmotivados. Um movimento tão psíquico, afetivo e libidinal, como é o bolsonarismo, não consegue lidar bem com a ausência do líder. A carência afetiva é notória, assim como a falta de rumo. Existe uma grande incerteza sobre quem vai, de fato, herdar o espólio político desse grupo. Por isso, tenho insistido que o campo progressista está diante de uma oportunidade única, de isolar os radicais e descontaminar os moderados.

O fracasso de 8 de janeiro desanimou os “patriotas”. Já a esquerda não sabe como lidar com os evangélicos – Imagem: Ton Molina/AFP e iStockphoto

CC: Em um artigo recente, a senhora observa que o bolsonarismo veio para ficar. Essa crise de representatividade não pode ferir de morte o movimento?

ES: Quando escrevo que o bolsonarismo veio para ficar, quero dizer que esse movimento foi magistral ao radiografar uma série de valores estruturantes da sociedade brasileira. Quando a gente fala, por exemplo, de fundamentalismo religioso, ele está lá. Quando se fala de radicalização dos estamentos de segurança pública ou do arquétipo de autoridade no Brasil, ele também se mostra presente. Há, ainda, um profundo mal-estar de setores da sociedade contra os avanços das pautas identitárias. Há tempos isso vem crescendo na esteira do antipetismo, mas foram os bolsonaristas que conseguiram aglutinar todas essas manifestações. O que está em disputa, agora, é o futuro do bolsonarismo. Ele vai manter a aposta no radicalismo, talvez em torno de uma figura como Michelle Bolsonaro, ou tende a assumir uma feição mais moderada, como representada pelo governador paulista, Tarcísio de Freitas?

CC: Em meio a esta disputa, como fica o público movido pelo pânico moral?

ES: Temos a tarefa urgente de entender como funciona esse pânico moral, como ele consegue mobilizar tanta gente pelo medo. Hoje, esse público se sente órfão, mas ele continua a existir. Estamos falando de brasileiros das classes C e D, muitas vezes ligados às religiões neopentecostais, ao fundamentalismo religioso. Esse bolsonarismo religioso está presente nas periferias e tem muita força. Precisamos ser cuidadosos no trato com esse grupo, composto também de muitas mulheres. Se a gente não entender esse fenômeno, estamos perdendo potencial de comunicação com pessoas que naturalmente poderiam estar no nosso campo, por estarem em condição de vulnerabilidade social, racial ou de gênero. Por que uma mulher negra e periférica se sente ameaçada pela esquerda? Precisamos decifrar isso.

“Por que uma mulher negra e periférica se sente ameaçada pela esquerda? Precisamos decifrar isso”

CC: Como os bolsonaristas enxergam a possibilidade de o ex-presidente tornar-se inelegível e sofrer condenações criminais?

ES: Os radicais não têm dúvida de que Bolsonaro ficará inelegível. Na verdade, eles dão como certa a prisão do ex-capitão, vivem um momento de apocalipse. E por quê? Eles acreditam que o Supremo Tribunal Federal é o grande vilão da história. Até o fim, vão apresentar o ex-presidente como vítima de uma grande conspiração judicial. Por isso, a esquerda não pode descuidar da disputa de narrativas. Há o risco de eles criarem um falso mártir.

CC: Há algum tempo, a senhora observou que Bolsonaro não representa só os interesses da elite, que ele conseguiu aglutinar os anseios legítimos da população mais pobre. Como mostrar aos menos favorecidos que a solução de seus problemas não está na agenda neoliberal de Bolsonaro e Paulo Guedes?

ES: Na verdade, Bolsonaro representa dois tipos de anseios: os de natureza fascista e o desejo da ordem. O fascismo é inaceitável, mas o segundo anseio é legítimo. Muitas pessoas estão incomodadas com a insegurança pública, com a corrupção endêmica. Essas pautas precisam ser “desbolsonarizadas”. É muito legítimo a população desejar uma política mais honesta, e cabe ao campo progressista mostrar que o lavajatismo nunca contribuiu, de fato, para isso. Da mesma forma, a ideia da ordem é uma pauta legítima, mas, se for tomada pelo ponto de vista da lógica bolsonarista, torna-se excludente, pois acaba imposta por um patriarcado branco e heteronormativo. Todos anseiam o mínimo convívio ordeiro, mas é preciso requalificar esse debate. •

Publicado na edição n° 1254 de CartaCapital, em 12 de abril de 2023.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Chance única’

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