Política

Operação Carne Fraca

Carne Fraca: governistas tentam proteger Osmar Serraglio

por Ingrid Matuoka — publicado 22/03/2017 09h53
Apontado como protetor de chefe de quadrilha, ministro da Justiça é convidado a depor no Senado. Base de Temer atua para evitar CPI sobre o caso
Fabio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil
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Serraglio durante sua posse, no início de março: governo tenta protegê-lo

A delicada situação do ministro da Justiça, Osmar Serraglio, ficou evidente na terça-feira 21, durante um debate na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) no Senado a respeito da Operação Carne Fraca. Governistas de todos os matizes se uniram para tentar impedir um convite para Serraglio, que foi flagrado nas investigações chamando de "grande chefe" o homem apontado pela Polícia Federal como líder da organização criminosa que permitia a adulteração de alimentos.

Muitos senadores governistas concordaram de imediato com o convite aos ministros da Agricultura, Blairo Maggi, e da Indústria e Comércio Exterior, Marcos Pereira, para tratar da Carne Fraca, mas tentaram resistir à aprovação do requerimento para que Serraglio fosse à comissão.

O pedido citando Serraglio, assim como os dos outros ministros, era de autoria da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) e foi taxado de tentativa de "politizar" a CAE. "Não podemos transformar este momento preocupante em que vivemos numa questão política", disse Cidinho Santos (PR-MT).

Segundo diversos senadores, a CAE deveria tratar apenas dos fatos econômicos associados à operação. Ataídes Oliveira (PSDB-TO) tentou argumentar que o assunto não tinha relação com a CAE, mas, sim, com a Comissão de Meio Ambiente, Defesa do Consumidor e Fiscalização e Controle, e por isso não deveria ser debatida. Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE), více-líder do governo, chegou a alegar que estavam "todos com a agenda muito cheia" e não poderiam comparecer.

Após a insistência de Gleisi, com o apoio de Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Otto Alencar (PSD-BA) e Roberto Requião (PMDB-PR), o comando da CAE concordou em colocar em votação o convite aos ministros, que acabou aprovado. 

Medo de CPI

Ao convidar os ministros para audiência, os aliados do governo conseguiram impedir a instauração de uma CPI da Carne Fraca, como proposto por Otto Alencar. “[Esse assunto] deveria sair daqui, que é Comissão de Assuntos Econômicos, sabem para o quê? Para uma CPI, para apurar a responsabilidade, para deixar o exemplo de que quem senta na cadeira de qualquer direção, ordenador de despesa ou não, tem que ter ética”, afirmou.

Outro vice-líder do governo no Senado, José Medeiros (PSD-MT) deixou claro que o governo não deseja uma CPI. Em entrevista à Rádio Senado, Medeiros disse considerar desnecessário o Congresso Nacional criar uma CPI para investigar as denúncias de irregularidades em frigoríficos e pagamento de propina a fiscais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Otto Alencar
"Deveria sair daqui, que é Comissão de Assuntos Econômicos, sabem para o quê? Para uma CPI"

Medeiros argumentou que as investigações já estão sendo conduzidas pela PF, e que a CPI poderia servir como "palanque" e causar mais prejuízos à imagem do setor de produção de carnes no Brasil, sem resolver os problemas. 

Katia Abreu acusa Serraglio

A tese de que os holofotes sobre a Carne Fraca prejudicariam ainda mais a economia ajuda a construir a proteção a Osmar Serraglio. No inquérito da Polícia Federal, ele foi flagrado chamando de "grande chefe" o homem apontado como líder da organização criminosa investigada na Carne Fraca, o ex-superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná Daniel Gonçalves Filho.

Segundo os investigadores, Gonçalves Filho comandava ao menos oito fiscais e outros subordinados que facilitavam a produção de alimentos adulterados por parte de frigoríficos e emitiam certificados sanitários sem realizar a fiscalização de fato.

A atuação de Gonçalves Filho "no sentido de evitar qualquer problema com a fiscalização" fica clara, diz a PF, em sua relação com o Frigorífico Larissa Ltda., sediado em Iporã, interior do Paraná. Gravação interceptada pela PF mostra o então deputado federal Osmar Serraglio, eleito pelo PMDB do Paraná, avisando o fiscal a respeito de uma inspeção do Ministério da Agricultura justamente em Iporã.

Nesta semana, a senadora e ex-ministra da Agricultura no governo Dilma Rousseff Katia Abreu (PMDB-TO) denunciou Serraglio como protetor de Daniel Gonçalves Filho. Na tarde de segunda-feira 20, ela confirmou pelo Twitter o conteúdo de uma reportagem publicada pelo Blog do Josias, do jornalista Josias de Souza. "Infelizmente esta matéria está correta", disse Katia Abreu.

De acordo com a reportagem, Serraglio procurou Katia Abreu em dezembro de 2015 para tentar impedir o afastamento de Daniel Gonçalves Filho da superintendência do Ministério da Agricultura no Paraná. Nesta terça-feira 21, Katia Abreu foi ao Plenário do Senado e reafirmou as acusações. Sem citar Serraglio, denunciou a atuação dos deputados do PMDB-PR que "insistiram para que a lei não fosse cumprida". "Nunca tive notícias de uma pressão tão forte", afirmou.

Chefe da PF também é convidado

Gleisi Hoffmann também apresentou, e conseguiu, a aprovação de um convite para que o diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello, comparecesse à comissão.  

Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE) também se opôs ao convite ao diretor da PF para as audiências. "A liderança do governo apoiará os ministros da área técnica pertinente, para termos uma discussão aqui sobre o tema e não constranger as investigações", afirmou. "As investigações têm de continuar e elas vão prosseguir. Em determinado momento, poderá ser necessário ou não chamar as autoridades responsáveis pelas investigações: o ministro da Justiça e o diretor da Polícia Federal. Mas não agora", disse.

Roberto Requião defendeu a participação do diretor-geral da PF. “É muito importante a participação do delegado da Polícia Federal e de Osmar Serraglio. Ele continua ministro da Justiça e está sendo investigado, agora, pela Polícia Federal, que é sua subordinada”. O senador lembra ainda que já foram nove ministros exonerados durante o governo Temer, e que a CPI serviria para “dar uma estancada nisso”.

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