Política

Candidato do PL ao Senado em Sergipe distorce dados sobre feminicídio e é desmentido

Coronel Rocha disse que mulheres matam mais homens do que são vítimas de feminicídio. Os dados, entretanto, não sustentam a afirmação

Candidato do PL ao Senado em Sergipe distorce dados sobre feminicídio e é desmentido
Candidato do PL ao Senado em Sergipe distorce dados sobre feminicídio e é desmentido
O candidato ao Senado por Sergipe, Coronel Rocha (PL) - Reprodução/Instagram
Apoie Siga-nos no
Eleições 2026

Candidato a uma vaga no Senado por Sergipe, o coronel da reserva da Polícia Militar Coronel Rocha (PL) afirmou nesta semana que mulheres matam mais homens do que são vítimas de feminicídio, atribuindo a conclusão a um levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os dados da entidade, porém, não sustentam a afirmação.

A declaração ocorreu em entrevista ao programa 103 Notícias, na segunda-feira 10. “Pelo último levantamento do Fórum Nacional de Segurança Pública [sic], mais mulheres mataram seus companheiros do que os homens”, afirmou o bolsonarista. “O número de mulheres que mataram os seus companheiros é maior do que o número de homens que mataram as mulheres”.

Os apresentadores desmentiram, a afirmação, mas ele prosseguiu. Segundo o bolsonarista, a diferença estaria relacionada ao modo como os crimes contra mulheres são classificados. “A morte de uma mulher causada por um homem, ela se torna vil porque o homem é mais forte. Pode pesquisar aí, os dados são públicos e, infelizmente, essa realidade”.

Rocha foi novamente questionado sobre a fonte da sua afirmação. “As mulheres cometem uma porcentagem muito pequena, cerca de 5% de todas as mortes violentas no País, geralmente em contextos de legítima defesa contra violência doméstica extrema. A esmagadora maioria das mulheres assassinadas no Brasil morre dentro de casa e é vítima de seus parceiros ou ex-parceiros por razões de gênero: feminicídio”, rebateu o apresentador.

O candidato, entretanto, manteve as declarações. “Não são dados reais, não”, respondeu. “Você quer que eu traga [os dados a que ele se referia]? (…) Eu vou trazer os dados depois, com certeza, eu mando para você. Aqui agora, no momento, eu não consegui encontrar nos meus núcleos de pesquisa (…) Nem toda morte de mulher é feminicídio”. Assista:

A edição de 2025 do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mencionada por Rocha, traz dados referentes a 2024 e não informa que mulheres tenham matado mais homens do que homens mataram mulheres. Ao contrário: nos casos de mortes violentas intencionais em que foi possível identificar o sexo do autor, os homens são maioria entre os responsáveis pelas mortes de vítimas dos dois sexos.

CartaCapital pediu a Rocha que informasse à reportagem qual a fonte dos dados que embasaram sua afirmação e dissesse se mantém a tese apresentada na entrevista. Não houve resposta até o momento. O espaço segue aberto para manifestação.

O coronel da reserva tem 58 anos e entrou na política em 2018, quando disputou uma vaga de deputado federal, sem ser eleito. Em 2020, concorreu à prefeitura de São Cristóvão (SE) e terminou em quinto lugar.

Na polícia, Rocha passou por diferentes batalhões e chegou a chefiar o setor de inteligência da corporação. Também foi diretor da Guarda Municipal de Aracaju e secretário-adjunto de Justiça e Cidadania. Ele integra a chapa encabeçada pelo jornalista Ricardo Marques e tem ao seu lado na disputa por uma vaga na Casa Alta o deputado bolsonarista Rodrigo Valadares.

Segundo uma pesquisa do instituto Real Time Big Data divulgada no começo de agosto, Coronel Rocha está em 8º lugar na disputa pelas duas vagas de Sergipe ao Senado, com 6% das intenções de voto.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo