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Camisa e bandeira do Brasil, contra a corrupção... e contra a reforma da Previdência

por José Antonio Lima publicado 16/03/2017 11h04, última modificação 16/03/2017 11h22
Símbolos dos atos contra Dilma Rousseff foram vistos no ato de quarta-feira 15 contra as mudanças na aposentadoria, em São Paulo
José Antonio Lima
Nanci Silveira

Nanci Silveira: bandeira simboliza todos brasileiros

Os protestos contra o governo Dilma Rousseff em 2015 e 2016 foram simbolizados pelo uso ostensivo do verde e amarelo. Camisas da seleção de futebol, a bandeira brasileira, adereços nas cores dela e gritos como "a nossa bandeira jamais será vermelha" se tornaram marcas registradas.

Pessoas do campo da esquerda denunciaram ali uma espécie de pseudonacionalismo e avaliaram como contraditório protestar contra a corrupção usando uma camisa da Confederação Brasileira de Futebol, conhecida pelos casos de corrupção. A realidade é mais complexa que a polarização.

Na noite de quarta-feira 15, no ato contra a reforma da Previdência do governo Michel Temer, na Avenida Paulista, em São Paulo, algumas pessoas optaram por protestar com as camisas da seleção brasileira e a bandeira nacional.

Era o caso de Claudio Bessa, advogado e professor. Bessa não esteve nos atos contra Dilma ("aquilo foi um golpe") e diz não ser contra o governo Temer. Seu alvo na quarta-feira eram as propostas para alterar o regime de aposentadoria. "A reforma da Previdência é necessária, mas não do jeito como ele quer fazer", diz. "Não fez consulta popular e quer colocar uma reforma goela abaixo, e de uma maneira muito prejudicial para a população, principalmente para os jovens", disse.

Claudio Bessa
Claudio Bessa: reforma prejudica os mais jovens
Bessa conta que ouviu algumas piadas por usar a camisa da seleção, mas não foi alvo de hostilidade. "Coloquei a camisa hoje como símbolo de brasileiro, que está lutando pela nação", afirmou.

O contador Douglas Leandro do Santos também vestiu a camisa do Brasil. Eleitor de Dilma em 2014, Santos cogitou ir aos atos contra a petista nos dois últimos anos, mas decidiu ficar em casa. Na quarta-feira, foi para a rua preocupado com as mudanças na aposentadoria e com os casos de desvio de dinheiro público. "Eu sou brasileiro, acho que é uma camisa para mostrar um pouco a luta do povo contra a reforma da Previdência e a corrupção". 

Para Santos, a camisa também era um símbolo de apoio à Operação Lava Jato. "A camisa simboliza também um apoio para o fortalecimento da Lava Jato, que é um grande trabalho sendo feito e tem que continuar", diz. Para Santos, o problema da corrupção não concentrado em um partido, mas "nos corruptos que estão dentro de cada um deles". "Vem um partido um novo e enquanto ele é pequeno não tem nenhum escândalo, vai dizer que é limpo. Mas aí quando esta lá no meio, como aconteceu com o PT, muda", diz.

Douglas Silva
Douglas dos Santos: apoio à Lava Jato

Murilo Gustavo da Silva, 29 anos, professor de Geografia, também foi às ruas com uma pauta dupla: contra a reforma da Previdência e a corrupção. Coberto com uma bandeira do Brasil, "para simbolizar o amor à pátria", Silva disse acreditar que a reforma vai "massacrar a classe trabalhadora". Para ele, a Lava Jato é importante, mas não é neutra. 

"A Lava  Jato era necessária, embora tenha começado tardiamente. Deveria ter começado na época do FHC, quando a Petrobras estava no início da sua ascensão", afirmou. "A corrupção não está só em um partido. [A Lava Jato] é significativo, mas tem que ser mais imparcial. Torço para que agora [com a segunda lista do Janot] a coisa vá à fundo", disse.

Em meio aos manifestantes, que vestiam majoritariamente o vermelho, o vendedor Leonel Moreira oferecia bandeiras do Brasil (a 20 reais cada), e apitos verde e amarelos (um por três reais e dois por cinco reais). "Vendi só umas seis bandeiras até agora, mas o apito está saindo bastante", disse. 

Quem não precisou de bandeira foi Nanci Silveira, 54 anos, cuidadora de idosos. Ela usou na quarta-feira a mesma que levou ao Vale do Anhangabaú, no centro de São Paulo, em abril de 2016, em um protesto contra o impeachment de Dilma. Ela é contra o governo Temer e a reforma da Previdência. "Essa reforma que acabar com os direitos que nós trabalhadores conquistamos há muitos anos", diz.

Para ela, o uso da bandeira brasileira é uma forma de reivindicar um símbolo que vê como pertencendo "ao povo e não a uma classe". "Aqueles que usaram verde e amarelo tomaram posse como se fosse deles. E não é. Ela é a representação do brasileiro", diz.

Nanci vê a derrubada de Dilma como uma farsa, que a reforma da Previdência pode ajudar a revelar. "Muita gente não está vindo para a rua agora porque tem vergonha", diz. "Foram se manifestar, não tinham noção da real manipulação que estava acontecendo e agora estão vendo o que de fato ocorreu".