Política

Contra as reformas

Bresser-Pereira: "Esta é uma greve para construir o Brasil"

por Débora Melo publicado 27/04/2017 23h55, última modificação 28/04/2017 02h15
Intelectuais saem em defesa da paralisação durante lançamento de manifesto por projeto de desenvolvimento econômico, político e social
Débora Melo/CartaCapital
Bresser-Pereira

"Precisamos retomar o desenvolvimento com justiça social", disse Bresser-Pereira

O lançamento do manifesto do Projeto Brasil Nação, coordenado pelo economista e ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, se transformou também em um ato de apoio à greve geral que deve tomar conta do País nesta sexta-feira 28 contra as reformas do governo Michel Temer.

“Temos amanhã um dia muito importante. Esta é uma greve para construir o Brasil. Não é uma greve para destruir o Brasil”, disse Bresser-Pereira na noite desta quinta-feira 27 a um auditório lotado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo São Francisco).

O Projeto Brasil Nação é uma alternativa ao programa "neoliberal hard" imposto ao País pelos interesses do capital financeiro. O texto condena os ataques a direitos e conquistas sociais, a desnacionalização, o desemprego, o esmagamento da indústria e o aumento da desigualdade.

Ao mesmo tempo em que traça um diagnóstico da crise econômica, política e moral por que passa o País, o documento propõe cinco medidas para a retomada do desenvolvimento com justiça social: regra fiscal que priorize saúde e educação; redução da taxa básica de juros; taxa de câmbio competitiva; retomada do investimento público; e reforma tributária progressiva.

A economista Leda Paulani, que atuou na formulação do documento, iniciou seu discurso falando sobre a importância da paralisação. “Um espectro ronda o Brasil neste 27 de abril: o espectro da greve geral. E contra ela se levantam todas as velhas forças do sistema econômico, político, oligárquico, elitista e rentista do nosso País”, disse.

“Todas as forças se levantam contra a greve geral, mas ela é sem dúvida a única saída que o povo que ainda sonha com a sua dignidade pode ter em um momento como este. A greve geral é uma resposta ao assalto que foi perpetrado contra o Brasil: um assalto ao poder, um assalto à esperança de que o Brasil possa vir a se constituir como nação. Está aí a reação. Vamos ver quem vai levar a melhor. Não passarão, greve geral amanhã", convocou a economista", continuou Paulani.

Assinado por artistas e intelectuais como Raduan Nassar, Fábio Konder Comparato, Chico Buarque, Laerte, Kleber Mendonça Filho e Wagner Moura, o manifesto partiu de uma preocupação da jornalista Eleonora de Lucena com a divisão do País, o ódio e o preconceito. “A própria ideia de nação está sendo demolida e esquartejada”, disse Lucena na abertura do evento.

O jurista Fábio Konder Comparato ressaltou a necessidade de o povo assumir o protagonismo da luta. “Qual é o coração de uma nação? É o povo. Não somos nós que vamos reconstruir o País. Nós temos que colocar o povo brasileiro não na condição de figurante do teatro político, como até agora ele foi, mas na condição de soberano."

O ex-ministro Celso Amorim também saiu em defesa da greve. "O impeachment foi uma mudança total de projeto sem a participação do povo brasileiro. Isso é intolerável, e é isso que a greve geral de amanhã representa, uma resposta aos cortes de direitos", disse.

"Eu acabo de voltar dos Estados Unidos e tive que explicar o que aconteceu no Brasil. [Eu dizia] não é que o Obama seja perfeito, mas imagine que o Trump tenha substituído o Obama sem uma eleição", comparou Amorim, unindo-se ao coro por eleições antecipadas.

Também estiveram no evento a presidenta da União Nacional dos Estudantes (UNE), Carina Vitral, e o senador Lindbergh Farias (PT-RJ). "A greve geral de amanhã pode ajudar a enterrar não só a reforma da Previdência e a reforma trabalhista, mas começar a derrubar de uma vez por todas este governo de Michel Temer", completou o senador.

Manifesto
Bresser-Pereira, Ciro Gomes, Celso Amorim, Eleonora de Lucena, Raduan Nassar e Carina Vitral

De acordo com Bresser-Pereira, o Projeto Brasil Nação foi lançado com propostas para a área econômica, mas a discussão segue aberta. "Tínhamos que escolher uma área, e escolhemos a área econômica", disse.  "Esse liberalismo que o PT não conseguiu modificar e que domina o Brasil não promove desenvolvimento. Não promove e nem pode promover."

O economista afirmou que é preciso mostrar que existem alternativas às políticas econômicas "populistas de direita e também de esquerda". Para ele, o "fracasso" do governo Dilma Rousseff impôs uma derrota ao campo progressista, fortalecendo a ascensão dos conservadores. O resultado, disse, foi o "golpe violento" não apenas contra a presidenta, mas contra as instituições do País.

"O problema fundamental das sociedades modernas é um problema de hegemonia ideológica. Nós, de esquerda, nacionalistas, desenvolvimentistas e progressistas, nós sofremos uma derrota com o fracasso do governo Dilma. Isso nos custou caro", afirmou.

Bresser-Pereira disse, por fim, que a saída também passa pela classe política. Como exemplos de nomes capazes de comandar um processo de renovação ele citou Fernando Haddad (PT) e Ciro Gomes (PDT), presentes ao evento. "O Brasil precisa voltar a ser nação. Essa tentativa de desmoralização dos políticos que está em curso é muito grave", encerrou Bresser-Pereira.