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Bots misóginos

Estudo aponta indícios de automação em 75% das mensagens de ódio contra mulheres na política brasileira

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Vingança. O presidente da Câmara, Hugo Motta, ameaçou retirar a escolta policial da deputada Talíria Petrone (PSOL), alvo frequente de ameaças – Imagem: Bruno Spada/Agência Câmara
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No Brasil, mulheres em posições de liderança política enfrentam ataques misóginos diariamente, sobretudo nos meios digitais. Comunidades masculinistas, neonazistas e de redpills organizam assediadores que frequentemente promovem constrangimentos e ameaças por canais privados, como e-mails institucionais e mensagens no WhatsApp. Uma pesquisa inédita, desenvolvida pela Data-Pop Alliance, organização global sem fins lucrativos, analisou mais de 6 mil mensagens em grupos abertos do Telegram e identificou um padrão de violência ligado a normas de gênero que historicamente buscam limitar o acesso feminino ao espaço público.

“Esses ataques não se limitam às eleições: surgem sempre que mulheres ocupam posições de liderança ou defendem pautas polarizadoras”, diz Julie Ricard, pesquisadora da Fundação Getulio Vargas e coordenadora do estudo, intitulado Violência de Gênero Facilitada pela Tecnologia contra Mulheres na Política no Brasil. Os pesquisadores também entrevistaram 28 mulheres – eleitas e lideranças partidárias de 13 agremiações de diferentes espectros políticos – e analisaram o estatuto de 20 siglas. Identificaram que praticamente não existem mecanismos para combater essa violência: apenas o Republicanos mantém um Observatório de Violência Política contra a Mulher. Segundo Ricard, os comentários agressivos buscam deslegitimar a presença feminina na política e, com frequência, se estendem às famílias das vítimas. “As entrevistadas relataram ser comum receberem ameaças de estupro e de morte.”

Não se trata, porém, de ações isoladas: os pesquisadores classificam os ataques como campanhas coordenadas. “Em torno de 75% das mensagens eram repetidas, exatamente iguais, o que indica o uso de bots ou ações orquestradas”, observa Ricard. Anna Spinardi, diretora do Programa de Feminismo de Dados e coautora do estudo, acrescenta que homens também sofrem violência política, mas de outra natureza. “Políticos homens são atacados por suas posições ou acusados de corrupção. Já os ataques contra mulheres buscam deslegitimar a presença feminina nos espaços públicos.”

Os partidos e casas legislativas não oferecem suporte adequado às vítimas

O tipo de ofensa varia conforme a identidade das vítimas: mulheres negras sofrem racismo, indígenas são alvo de estereótipos coloniais, trans recebem uma combinação de misoginia, transfobia e hipersexualização, enquanto mulheres brancas têm a aparência física questionada e sofrem com comentários etaristas. “O propósito central não é a disputa ideológica. Os ataques são feitos para deslegitimar e desencorajar as mulheres a ocuparem cargos de destaque, e muitas vezes têm efeito”, lamenta Spinardi.

O mais grave é que esses ataques não se restringem ao ambiente online. Ricard lembra que, recentemente, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, do Republicanos, ameaçou retirar a escolta policial e o carro blindado da deputada federal Talíria Petrone, do PSOL, quando ela intensificou críticas à atuação política dele. “Em uma democracia consolidada, a segurança de um parlamentar não pode ser objeto de barganha”, critica. Petrone­ afirma que sua trajetória política sempre foi marcada por ameaças, mas também pela violência cotidiana: “Microfone desligado, assédio sexual velado e interrupções de fala no plenário”.

A deputada federal Carol Dartora, do PT, primeira mulher negra eleita ao cargo pelo Paraná, enfrentou inúmeros ataques racistas e classistas, não apenas externos, mas também boicotes dentro do próprio partido. “Quando tirei as tranças e assumi meu cabelo crespo, sofri um linchamento virtual; diziam que eu estava feia e que essa estética dificultaria minha comunicação política”, denuncia. Segundo as pesquisadoras, não é raro que mulheres sofram esse tipo de agressão dentro das próprias agremiações.

Salabert. “Os extremistas promovem golpes financeiros para financiar suas atividades” – Imagem: Bruno Spada/Agência Câmara

Os ataques afetaram profundamente a saúde mental de Dartora, que passou a receber acompanhamento psicológico. Apesar de, muitas vezes, ter pensado em desistir da carreira política, ela transformou o sofrimento em ação: em 2023, protocolou o PL 2540/2023, que propõe a Política Nacional de Proteção a Parlamentares em Situação de Risco e Vulnerabilidade.

Aos 59 anos, a deputada Rosângela Gomes, do Republicanos, enfrenta a violência política desde antes da internet. “A primeira vez que fui vereadora em Nova Iguaçu, ainda muito jovem, o prefeito dizia: ‘Não vou deixar aquela macaca fazer nada’”, recorda. Autora da Lei 14.192/2021, considerada o primeiro marco legal do Brasil voltado especificamente à proteção de candidatas e mulheres em cargos públicos, a parlamentar explica que o objetivo é estabelecer normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra mulheres, tanto nas eleições quanto no exercício da função pública. “Uma mulher fragilizada não tem como puxar outra.”

A deputada Duda Salabert, do PDT, sofreu numerosas ameaças de morte durante as eleições de 2022. “O mais grave é que os ataques não são apenas contra mim: perseguem também meus familiares, inclusive minha filha”, lamenta. Segundo a parlamentar, os grupos extremistas online têm organização sofisticada. “Eles se articulam em plataformas como Telegram e Discord e promovem golpes com cartões de crédito para financiar suas­ ações criminosas.” Salabert revela ainda ter tido acesso a investigações da Polícia Federal, que indicam que esses grupos estão por trás de outros crimes: “Estão diretamente ligados aos atentados em escolas ocorridos nos últimos anos.”

Os pesquisadores analisaram 6 mil mensagens em grupos abertos do Telegram e identificaram padrões na violência de gênero

Em sua trajetória política, um episódio marcante ocorreu quando o deputado federal Nikolas Ferreira, do PL, ocupou a tribuna da Câmara usando uma peruca, com o objetivo de constranger a colega transexual. “O que mais me incomodou foi saber que, após o discurso dele, eu receberia dezenas de ameaças de morte”, relata Salabert. Para a deputada, esse tipo de comportamento inflama os grupos de ódio online. “É o popular ‘assovio de cachorro’: jogam esses cortes na internet para fomentar as ameaças.”

Diante da ausência de respostas dentro dos partidos brasileiros, Salabert busca soluções fora do País. Há alguns anos, estabeleceu diálogo com representantes do Partido Democrata, dos EUA, próximos ao ex-presidente Joe Biden, para construir um programa internacional de ­defesa de parlamentares. “O objetivo é criar um protocolo de proteção.”

Apito de cachorro. Após Nikolas Ferreira (PL) fazer zombaria na tribuna da Câmara, os ataques a parlamentares trans nas redes sociais se intensificaram – Imagem: Pablo Valadares/Agência Câmara

Deputada estadual em São Paulo, Paula Nunes (PSOL) concorda com Salabert sobre o uso político dessa violência por colegas. “Alguns deputados da extrema-direita entendem que o masculinismo gera engajamento e atrai votos”, denuncia. Ela afirma ser constantemente alvo de ataques do também deputado Lucas Bove, do PL. “Ele grita, interrompe minhas falas, bate na mesa e me persegue pelos corredores. É uma tentativa de intimidar a atuação de mulheres”, desabafa. Segundo Nunes, ao combater esse tipo de comportamento, as deputadas gastam um tempo precioso que poderia ser dedicado a temas relevantes para a sociedade, transformando a violência em uma estratégia de boicote a mandatos combativos.

Em junho passado, deputadas da Assembleia Legislativa paulista foram alvo de um ataque coletivo. Em um sábado, suas­ caixas de e-mail amanheceram lotadas de mensagens com ameaças de morte e violência sexual. “Foi a primeira vez na história que todas as mulheres de um Parlamento sofreram ataques ao mesmo tempo”, lembra Nunes. O episódio segue sob investigação, com alguns suspeitos presos. Ainda assim, segundo a deputada, falta uma resposta contundente do Estado. “É uma ameaça à democracia e não pode ser enfrentada apenas com punições individuais. Isso é insuficiente para atacar a causa na raiz”, avalia. Para Paula Nunes, a solução passa pela regulamentação das redes sociais, para que a internet deixe de ser uma terra sem lei. “Trata-se de impedir que o ódio seja monetizado.” •

Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Bots misóginos’

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