Política
Bolha pastoral
Como a curadoria religiosa e o algoritmo distorcem indicadores do governo Lula e sustentam o bolsonarismo
Há um fenômeno político que muita gente insiste em tratar como briga de valores – e aí erra o diagnóstico e a terapia. O que está em jogo no Brasil não é só “direita versus esquerda”, nem “fé versus ciência”. É algo mais básico e mais perigoso: uma guerra sobre quais fatos contam. Quando uma sociedade perde a capacidade de reconhecer uma realidade minimamente compartilhada, a governança entra em colapso. Não por falta de leis, nem por ausência de tecnologia, nem por déficit de moralidade pública. Colapsa por falha cognitiva. O sistema coletivo deixa de perceber, interpretar e decidir sobre o mesmo mundo. A política vira disputa sobre o chão do real.
Aqui entra um ponto decisivo do Brasil contemporâneo: segmentos do ecossistema religioso politizado alinhado ao bolsonarismo, articulados por lideranças midiáticas e amplificados por plataformas, funcionam como uma infraestrutura de percepção paralela. Não é um “complô da fé” contra a razão. É uma arquitetura. Autoridade religiosa somada a algoritmos de engajamento, produzindo um filtro de agenda, um enquadramento moral e uma seleção de evidências que torna certos dados irrelevantes dentro daquele circuito.
Antes de qualquer tese, um fato, evangélicos não são minoria residual. Segundo o Censo 2022 do IBGE, correspondem a 26,9% da população brasileira. É um contingente de dezenas de milhões, com capilaridade social e poder organizacional real. Politicamente, isso é infraestrutura. Pesquisas recentes mostram que a fratura é estatisticamente visível no recorte religioso. Levantamentos recentes de Paraná Pesquisas, PoderData e Genial/Quaest registram desaprovação majoritária do governo Lula entre evangélicos, com aprovação em torno de 30% e rejeição próxima de dois terços, enquanto entre católicos o padrão é significativamente menos negativo. O ponto crucial não é “quem aprova quem”, mas a divergência de critérios: uma parte do País passa a operar num regime de interpretação em que indicadores públicos, resultados administrativos e fatos verificáveis pesam pouco diante de narrativas de ameaça moral.
A questão não é apenas que esse público pensa diferente. É que ele é frequentemente exposto a um conjunto diferente de “provas”. E isso muda tudo. A guerra de critérios funciona assim. Primeiro, a autoridade pastoral opera como curadoria. Em comunidades religiosas, confiança é capital social. O pastor, mediador de sentido, define o que merece atenção, o que é ameaça e o que é “do mundo” ou “de Deus”. Quando acoplada a um projeto político, essa mediação vira filtro informacional, seleciona o que entra no visível e rebaixa, relativiza ou demoniza o que contraria a narrativa.
Segundo, as plataformas amplificam o que excita. Redes sociais não espelham a sociedade, otimizam cliques. O que ganha visibilidade não é o mais verdadeiro ou útil, mas o mais indignante e mobilizador. Isso favorece molduras absolutas – “bem versus mal”, “cristãos versus inimigos”, “povo versus sistema” – porque produzem reação rápida e fidelidade identitária.
O pastor, mediador de sentido, define o que merece atenção
Terceiro, a moralização vira substituto de verificação. A arena pública deixa de brigar por prioridades, trade-offs e evidências e passa a brigar por inimigos. Nesse regime, um dado pode ser verdadeiro e ainda assim irrelevante, porque a régua deixa de ser a realidade e passa a ser o pertencimento. O resultado é uma fratura cognitiva: melhora material pode coexistir com percepção de colapso, porque o sistema de seleção e interpretação é outro – fatos são aceitos ou rejeitados pelo “sinal” moral que carregam. Isso tem consequências institucionais. Sem acordo mínimo sobre o que é fato, governar vira administrar conflitos ontológicos. A execução trava: pactos não se formam, reformas viram reféns de chantagens simbólicas e qualquer coordenação nacional esbarra numa parcela do público que rejeita os parâmetros básicos de avaliação.
Os atos golpistas de 8 de janeiro de 2023 ilustram o risco. Quando se consolida a crença de ilegitimidade essencial do adversário – e a realidade é filtrada como guerra –, a passagem do discurso à ruptura institucional fica mais curta. Tratar esse ecossistema apenas como “fanatismo” é confortável e insuficiente. O mecanismo é terreno: capilaridade comunitária, autoridade de curadoria e arquitetura algorítmica de amplificação, uma engenharia social distribuída, com efeitos previsíveis. O que fazer com isso? A resposta séria não é atacar “a fé”, nem demonizar evangélicos, nem achar que bastaria “comunicar melhor” para dissolver a fratura. A resposta passa por reconstruir condições mínimas de realidade compartilhada – e isso é trabalho institucional, não retórico.
Algumas linhas são óbvias e, por isso, impopulares: transparência e rastreabilidade do ecossistema informacional. Quando a percepção pública é mediada por plataformas, a sociedade precisa auditar fluxos de desinformação, redes de amplificação e incentivos de monetização do conflito. Isso não é censura, é governança democrática de infraestrutura. Contestabilidade: cidadãos precisam de meios simples para confrontar afirmações virais com dados públicos confiáveis. Não adianta ter dados, é preciso torná-los visíveis, compreensíveis e utilizáveis. Alfabetização midiática e institucional: a democracia depende de cidadãos que distingam crença, opinião e evidência. Isso não se resolve com marketing, mas com educação cívica e política pública. Redução do “vácuo administrativo”: quando o Estado falha em entregar, curadorias paralelas ocupam o espaço. Execução eficiente, serviços funcionando e capacidade administrativa são antídotos reais contra narrativas de decadência total. Nada disso é simples, mas o diagnóstico correto é metade do caminho.
O Brasil não está apenas dividido por ideologias. Está dividido por infraestruturas cognitivas. E, enquanto isso for tratado como briga de opinião, não como problema de governança, seguiremos discutindo o volante enquanto o carro perde a estrada. •
*Doutor em Ciência Política pelo ISCTE-IUL, de Lisboa, pesquisador de governança digital e participação democrática.
Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Bolha pastoral’
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