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Fábio Luís da Silva, o “Lulinha”, volta a servir de instrumento da oposição para atingir o presidente da República

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Investigação. Lulinha garantiu ao pai que não recebeu dinheiro do “Careca do INSS”. A quebra do sigilo bancário autorizada por Mendonça esclarecerá os fatos – Imagem: PT no Senado, Rosinei Coutinho/STF e Juca Varella/Estadão Conteúdo
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Em abril de 2020, Jair Bolsonaro era presidente e comandou uma reunião ministerial na qual soltou palavrões feito torcedor na arquibancada. Em certo momento, comentou que não iria “esperar foder” a família dele para mudar peças do governo. Na semana anterior, o filho mais velho, Flávio, tinha sido derrotado no Superior Tribunal de Justiça na tentativa de anular as quebras de sigilo bancário e fiscal decretadas por um juiz de primeira instância do Rio de Janeiro. O senador era investigado pelo Ministério Público e pela Polícia Federal por ter embolsado no passado verba pública que deveria pagar funcionários de seu gabinete de deputado estadual fluminense. No fim das contas, o “zero um” venceria a batalha pelos sigilos e jamais se sentaria no banco dos réus por causa das “rachadinhas”, mas Bolsonaro cumpriria a palavra, ou melhor, o palavrão dado aos ministros. Demitiu o chefe da PF dois dias depois da reunião.

O primogênito de Lula também se tornou um problema para o pai. Nesse caso, em razão do escândalo do INSS. A atitude presidencial é outra, no entanto. A PF tem carta branca para investigar Fábio Luís da Silva, de 51 anos, e os encarregados do inquérito sobre o esquema de fraude nas aposentadorias suspeitam que “Lulinha” teria auxiliado Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, a esconder dinheiro das bandalheiras. Quando o nome do filho surgiu na mídia associado ao escândalo, o presidente o chamou a Brasília e lhe disse: “Só você sabe a verdade. Se você tiver alguma coisa, você vai pagar o preço de ter alguma coisa. Se você não tiver, se defenda”. Um ­interlocutor com conhecimento daquela conversa conta que Fábio garantiu não ter recebido dinheiro de Antunes. Os sigilos bancário e fiscal de Lulinha, quebrados pelo Supremo Tribunal Federal a pedido da PF, confirmarão a palavra dada ao pai? “O pedido foi inconveniente, inoportuno e injustificado”, afirma o advogado Marco Aurélio de Carvalho, amigo e conselheiro jurídico de Lulinha. “O Fábio já tinha se colocado à disposição para prestar esclarecimentos. E a própria PF tinha dito que ele não era investigado, que não havia nada contra ele. Estranho ter mudado de posição.”

Na noite da quarta-feira 4, cifras de contas de Lulinha começaram a vir a público, não se sabe se por obra de policiais ou da CPI do INSS. A comissão parlamentar de inquérito também resolveu espiar as finanças do filho do presidente, resultado de uma votação polêmica no fim de fevereiro mantida pelo chefe do Congresso, o senador Davi Alcolumbre, apesar da chiadeira petista contra a malandragem na contagem dos votos operada pela ­cúpula da CPI,  formada por dois pré-candidatos ao Senado apoiados por Flávio Bolsonaro, o mineiro Carlos Viana, que preside a comissão e deseja renovar o mandato, e o deputado alagoano Alfredo Gaspar, relator que sonha em mudar de casa legislativa. A CPI tem prazo para funcionar até o fim de março, caso não seja prorrogada. Tempo suficiente para a oposição explorar politicamente os extratos de Fábio.

Mal o sigilo bancário foi quebrado, cifras foram divulgadas na mídia: 19 milhões de reais

Por uma das contas, passaram 19 milhões de reais entre 2022 e 2025, dos quais metade em créditos e metade em débitos. Nada de menções ao “Careca do INSS” como depositante. O vazamento dos dados mostra que pode ser inócua a luta de Fábio para invalidar no Supremo as quebras de sigilo pela CPI. Seu advogado pediu ao ministro Flávio Dino que estendesse a ­Lulinha a suspensão do acesso da comissão aos extratos bancários e fiscais da empresária Roberta Luchsinger. Esta também teve os sigilos desfeitos na CPI no pacote de fevereiro. O argumento usado por Dino ao atender a requisição é aplicável a Lulinha. Uma CPI possui poderes judiciais e, portanto, tem de agir como um magistrado. E este justifica individualmente quebras de sigilo, não o faz no atacado.

A empresária é amiga de Fábio e da esposa dele, Renata. E é uma endinheirada de coração petista. Em 2017, anunciou uma doação polpuda a Lula assim que ele havia tido as finanças bloqueadas pelo então juiz Sergio Moro. No ano seguinte, concorreu a deputada estadual em São Paulo pelo PT. À época, declarou à Justiça Eleitoral patrimônio de 1,5 milhão de reais. Por acaso, é um valor semelhante àquele supostamente recebido do “Careca do INSS”, conforme informado pela PF ao Supremo no inquérito das falcatruas com aposentadorias. O Coaf, órgão federal de combate à lavagem de dinheiro, identificou 1,1 milhão pago por uma empresa de Antunes a uma de Luchsinger. E que a empresária e o pai receberam, juntos, 2,6 milhões, descobertas igualmente levadas ao conhecimento do STF. Os advogados da empresária ainda não esclareceram o motivo dos repasses, têm dito apenas que não há relação com fraudes previdenciárias, que eles são anteriores à descoberta do esquema e referem-se à prospecção conjunta de negócios.

Ponte. Roberta Luchsinger é amiga de Fábio Luís e fez negócios com Antunes, que, tudo indica, queria usá-la para se aproximar do poder em Brasília – Imagem: Redes Sociais

Os elos financeiros da empresária e Antunes constam de uma decisão de ­dezembro do Supremo que mandou prender preventivamente o filho do “Careca do INSS” e colocar tornozeleira eletrônica em Luchsinger e confiscar seu passaporte. O despacho do juiz André ­Mendonça reproduz trechos do pedido da PF para tais medidas e ali se vê que Antunes e um funcionário, Milton Salvador de ­Almeida Jr., trocaram mensagens de celular na quais tratam de um pagamento de 300 mil para “o filho do rapaz”. Em seguida, Salvador manda a Antunes um comprovante de 300 mil transferidos à empresária. Na visão dos policiais, “filho do rapaz” é codinome para “Lulinha”. Uma troca de mensagens entre Luchsinger e Antunes alimenta a suspeita. “Acharam um envelope com o nome do nosso amigo no dia da busca e apreensão”, escreveu ela. Quando a PF foi às ruas pela primeira vez contra as fraudes no INSS, na Operação Sem Desconto, em abril de 2025, encontrou um envelope com ingressos para Fábio ir a um show.

Um aliado de Lulinha questiona as hipóteses dos policiais. Luchsinger citou o filho do presidente pelo nome no envelope e em uma mensagem de celular a ­Antunes de 5 de maio de 2025. Essa mensagem diz: “Na época do Fábio falaram de Friboi, de um monte de coisa o (sic) maior… igual agora com você”. Recorde-se: Lulinha foi vítima de fake news sobre ser dono da JBS-Friboi. No caso do INSS, o aliado pergunta: por que as palavras de Roberta serviram para concluir que Lulinha seria “o filho do rapaz” citado na conversa de Antunes com um funcionário? Mais: no esquema do INSS, há “filhos” de outros personagens, por que “o filho do rapaz” seria o de Lula? Por que o presidente da República, um senhor de 80 anos, seria chamado de “rapaz”?

“Não é a primeira vez que (Lulinha) é vítima de vilanias”, diz o advogado Marco Aurélio de Carvalho

Outro episódio alimenta as desconfianças policiais sobre Lulinha ser “o filho do rapaz”. Um ex-funcionário do “Careca do INSS” prestou alguns depoimentos à PF. Em um deles, Edson Claro disse que Antunes e Fábio eram sócios, que o primeiro teria pago 25 milhões (não falou a moeda) ao segundo e ainda repassaria uma mesada de 300 mil. Verdade? Chantagem? Em setembro ­passado, ­Claro fez um boletim de ocorrência contra ­Antunes na Polícia Civil paulista. Afirmou sofrer ameaça de morte do ex-chefe. O relato levou a PF a obter a prisão preventiva de Antunes dias depois. Ao depor à CPI do INSS, já preso, o “­Careca do INSS” declarou ter sido alvo de extorsão por parte de Claro e que este teria, inclusive, lhe furtado alguns veículos, devolvidos por ordem judicial.

Naquele interrogatório na CPI, Antunes definiu-se como um “empreendedor nato”. Alguns elementos das investigações sugerem que ele quis fazer negócios no governo Lula e buscou quem abrisse portas. Luchsinger encaixa-se aí. Idem Danielle Fonteles, dona de uma empresa de comunicação e marketing que no passado trabalhou para campanhas presidenciais petistas, a Pepper. Em 20 de outubro de 2022, reta final da última eleição, Antunes e o filho Romeu, aquele preso em caráter preventivo em dezembro, abriram a empresa Brasília Consultoria, de objetivos autoexplicativos. Em abril de 2023, montaram a World Cannabis, destinada a atuar no comércio de maconha medicinal. Uma resolução de 2019 da Anvisa, a agência de vigilância sanitária, autoriza importar, produzir, usar e vender canabidiol em certas circunstâncias. Em julho de 2023, a Pepper foi fechada e em algum momento posterior Fonteles teria ido morar em Portugal, onde o medicamento é produzido praticamente sem restrições.

Facciosismo. Viana e Gaspar, presidente e relator da CPI do INSS, manobraram para proteger os amigos e jogar o filho de Lula aos leões – Imagem: Andressa Anholete/Agência Senado e Carlos Moura/Agência Senado

Em meados de 2024, o “Careca do INSS” procurou Luchsinger “para atuação na regulação do setor de empresas de canabidiol”, conforme uma nota dos advogados da empresária. Os dois foram ao Ministério da Saúde ao menos uma vez naquele ano. Uma viagem de ­Luchsinger e Lulinha a Portugal foi planejada para junho de 2024, a fim de que visitassem uma fabricante de canabidiol. A PF achou o localizador das passagens. Um aliado de Fábio confirma que ele viajou, mas ainda não sabe dizer quem pagou. A polícia descobriu ainda que, em fevereiro de 2025, Fonteles tinha um contrato de promessa de compra e venda de uma propriedade em Portugal. O comprador era Romeu Antunes, filho do “Careca do INSS” e sócio da World Cannabis. Valor do negócio: 2,7 milhões de euros, algo como 15 milhões de reais.

Um interlocutor de Lulinha acredita que o “Careca do INSS” tentou comprar a amizade de Luchsinger, ou seja, aproximar-se do filho do presidente por meio dela. Caso tenha sido isso mesmo, o problema para Fábio passa a ser de tráfico de influência, nada a ver com fraudes no INSS. A suspeita da polícia é que Lulinha teria aceitado dar uma força a Antunes na lavagem de dinheiro desviado de aposentadorias. O advogado Carvalho aposta que tudo será esclarecido no inquérito conduzido por Mendonça, apesar de o magistrado ter chegado à Corte pelas mãos de Bolsonaro. “Temos impressão positiva dele, não achamos que ele vai amenizar para ninguém nem que vai usar subterfúgios para prejudicar o Fábio”, afirma. “Fábio não tem relação com os fatos investigados na CPI. E não é a primeira vez que é vítima de vilanias, inverdades. Nunca nada foi provado nem teve pedido de desculpas. Depois que tudo for esclarecido agora, ele vai buscar a reparação da honra.” •

Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital, em 11 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Bode na sala’

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