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"Boa relação" conseguiu "aquietar" a imprensa, diz Joesley

por Redação — publicado 19/05/2017 18h31
Em fevereiro, Joesley Batista foi acusado por Alexandre Margotto, ligado a Funaro, de participar de operações ilegais envolvendo a Caixa Econômica.

Além de um bom trânsito com o governo e políticos do alto escalão da República, a gravação da conversa entre Joesley Batista, dono da JBS, e o presidente Michel Temer mostra que a boa relação do empresário com a imprensa foi fundamental para "aquietar" denúncias contra ele.

Joesley fala a Temer:

- "Eu não sei o quanto o senhor está a par de como de verdade estão essas coisas", diz o empresário ao presidente Temer. "É uma brutalidade. O negocio é o seguinte: há duas semanas, um que eu nunca ouvi falar, que trabalhava com o Lúcio, nunca vi. Ele disse que ouviu falar do Lúcio que não sei que. Pô, me rendeu um Fantástico, um JN (Jornal Nacional) e uma confusão."

Joesley se refere a Alexandre Margotto, ligado a Lúcio Bolonha Funaro - apontado como operador financeiro de Eduardo Cunha, ex-presidente da Câmara e preso na Lava Jato - que revelou em sua delação premiada, no final de fevereiro, detalhes da ligação do ex-ministro Geddel Vieira Lima com um suposto esquema de corrupção na Caixa Econômica Federal.

A delação de Margotto foi obtida, na época, com pelo programa Fantástico, da Rede Globo. O acordo de Margotto com a Justiça revelou o suposto envolvimento do empresário Joesley Batista com as operações irregulares na Caixa. As defesas de Joesley e Geddel negaram relação com Alexandre Margotto.

"Ainda bem que eu tenho uma boa relação com a imprensa e consegui rapidamente... aquietou. Foi um dia, dois e parou", afirma Joesley no áudio de seu encontro com Temer.

Entenda a acusação de Margotto

Lúcio Bolonha Funaro, conhecido da Justiça desde as investigações do Mensalão e já definido pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como "alguém que tem o crime como modo de vida", era quem ajudava a pensar o esquema e a administrar o dinheiro. Ele cobrava propina e fazia repasses. O empresário Alexandre Margotto trabalhava diretamente com Funaro, que está preso no presídio da Papuda, em Brasília.

Margotto também falou da intimidade de Lúcio Funaro com Joesley Batista. Ele confirmou duas informações já dadas à Justiça por Fábio Cleto. À época, para mostrar que o empresário tinha grande intimidade com integrantes do esquema, Margotto relatou uma viagem ao Caribe de Funaro, Joesley e Cleto, acompanhados das namoradas. E uma casa que Joesley teria dado a Funaro, localizada em São Paulo (SP), que, segundo Margotto, valeria mais de R$ 20 milhões.

"Mas conta a história dessa casa. Quanto você sabe dessa casa?", questiona o procurador. No que Margotto responde: "que ela foi feita para o pagamento de dívida de propina. E o Lúcio me falava que inclusive não só casa mas que já chegou a cogitar de ficar com o jato, já chegou a cogitar de ter outros tipos de pagamento que não em espécie. Mas sei que a casa foi uma delas".

Alexandre Margotto também disse, no depoimento ao Ministério Público, que Funaro ofereceu a Joesley facilidades na Caixa Econômica Federal. "Eu tenho o vice-presidente da Caixa, ele vai atender às suas demandas com o menor prazo possível, e tudo o que for dentro do que for possível ele vai fazer sob os nossos comandos", declarou.

Margotto também afirmou que Joesley Batista queria ter influência sobre o Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal do Ministério da Agricultura, um cargo estratégico para seus negócios. Segundo o delator, Joesley queria colocar um nome de confiança dentro do governo federal. Margotto, em negociação com Funaro e Eduardo Cunha, indicou Flávio Turquino. Isso foi em agosto de 2013 e houve protesto contra a nomeação política para um cargo sempre ocupado por técnicos do Ministério.

À primeira vista, a estratégia deu certo e Turquino foi nomeado. Mas, segundo Margotto, depois Turquino não aceitou as condições do esquema. E com menos de dois meses pediu demissão.