Ataques a Marielle, Lázaro Ramos e mais: as polêmicas de Sérgio de Camargo

Novo presidente da Fundação Palmares, responsável pelas políticas aos negros, é alvo de abaixo-assinado. Bolsonaro diz que não o conhece

Ataques a Marielle, Lázaro Ramos e mais: as polêmicas de Sérgio de Camargo

Política

Um abaixo-assinado publicado na plataforma Avaaz pede a saída do recém-nomeado presidente da Fundação Palmares, o jornalista Sérgio Nascimento de Camargo, por considerá-lo inapto a ocupar um cargo de promoção de políticas à população negra. A petição que tem meta de 30 mil assinaturas, já passava das 20 mil adesões no momento do fechamento desta reportagem.

Nomeado na quarta-feira, a pedido do secretário Especial de Cultura, Roberto Alvim, o representante se declara negro de direita,  “contrário ao vitimismo e ao politicamente correto”. Além disso, sustenta teses polêmicas em suas redes sociais, sobretudo como um representante de uma fundação que tem entre suas missões reforçar a cidadania, a identidade e a memória dos segmentos étnicos dos grupos formadores da sociedade brasileira, além de fomentar o direito de acesso à cultura e à indispensável ação do Estado na preservação das manifestações afro-brasileiras.

 

Questionado nesta quinta-feira sobre o novo presidente da Fundação, o presidente Jair Bolsonaro se esquivou de responder perguntas e se limitou a dizer que não o conhece pessoalmente.

CartaCapital selecionou algumas publicações polêmicas feitas por Sérgio de Camargo em suas redes sociais.

Criado-mudo

O nome atrelado a um móvel figura entre as expressões racistas que ainda circulam pelo País. Recentemente, a marca de móveis Etna anunciou o fim da palavra em seus catálogos. “Dois séculos depois, sem nos dar conta, ainda carregamos termos racistas como esse, mas sabemos que é sempre tempo de mudar e evoluir”, disse a empresa em comunicado.

Historicamente, o termo vem de um dos papéis desempenhados pelos escravos dentro da casa dos senhores brancos: o de segurar as coisas para seus “donos”. Como o empregado não poderia fazer barulho para atrapalhar os moradores, ele era considerado mudo. Logo essa expressão se refere a esses criados.

Camargo debochou da atitude da empresa em um post que diz: “A Etna denegriu o criado-mudo”. O termo denegrir, aliás, também figura entre as expressões racistas. Sempre que alguém utiliza essa palavra é para dizer que está sendo difamado ou injustiçado por outra pessoa. Mas segundo o dicionário Aurélio, a definição de “denegrir” é “tornar negro, escurecer”. Então, utilizar a palavra denegrir de forma pejorativa é extremamente racista.

Em outra publicação, ele justificou o porquê de sua defesa pelo termo. “Nossa liberdade de expressão não pode ser ditada pelos que enfiam crucifixos no ânus, cagam na rua e fazem criança tocar em peladão no museu. Ignorem listas de palavras vetadas pela esquerda. Isso é hipocrisia, cerceamento da liberdade e burrice politicamente correta”, escreveu. Ele ainda emendou: “Etna e todas marcas que se uniram em torno desse absurdo; vocês são uma vergonha para os negros, para o Brasil!”

Ofensas a personalidades negras

Sérgio Camargo também criticou o filme Medida Provisória dirigido pelo ator, autor e apresentador Lázaro Ramos. O longa de ficção fala sobre um governo que obriga negros a se mudarem para a África. Em sua crítica, Camargo alega que o filme “acusa Bolsonaro de usar o Estado para cometer crime de racismo” e emenda: “O Brasil mudou! Doutrinação ideológica e militância esquerdopata disfarçadas de arte não mais enganarão o povo brasileiro, ou serão custeadas por ele. O filme será fracasso de bilheteria, caso chegue a estrear”.

Contra racismo e movimento negro

Camargo se coloca contra os movimentos negros, acusando-os de revanchistas e relativiza as questões de violência e desigualdade associadas à raça. Ele, inclusive, nega que o País tenha que fazer uma reparação histórica aos negros e atrela a escravidão à própria população negra.

Críticas ao dia da Consciência Negra

O novo presidente da Fundação Palmares também é um crítico ferrenho do dia da Consciência Negra, comemorado no 20 de novembro. Suas postagens dedicadas ao tema parabenizam os negros que não aderem à data: “Bom dia aos negros que não vão participar do Dia da Consciência Negra. Fazem bem! A consciência de todos é humana e não tem cor!” e critica os demais, como na postagem abaixo. “São esses os pretos que promovem o Dia da Consciência Negra – canalhas que usam a raça negra como escudo político para fazer defesa de bandidos”.

Camargo também atrela o Dia da Consciência Negra à esquerda. “Nunca aceitarei o dia da Consciência Negra como data significativa dos negros. É evento da esquerda para escravos ideológicos”, escreveu em outra publicação.

Polarização

Outra característica de Camargo nas redes sociais é polarizar questões entre direita e esquerda. Os “esquerdistas”, aliás, não são bem vindos em seu perfil, como ele mesmo já fez questão de anunciar. “Todo esquerdista será bloqueado, todo comentário de esquerdista será excluído”, escreveu, no melhor modelo “meu perfil, minhas regras”.

Críticas a Marielle Franco

Sérgio de Camargo também não poupa a ex-vereadora assassinada no Rio de Janeiro, Marielle Franco, de suas críticas. Em uma publicação, ele a acusa de “vitimisno” e que ela jamais será “a heroína legítima dos negros brasileiros”. “A pauta que ela defendia é repudiada pela vasta maioria dos negros brasileiros. Não queremos legalização das drogas, desencarceramento, bandidos tratados como vítimas, ideologia de gênero nas escolas, abortismo… Queremos paz, ordem, prosperidade, educação de qualidade, respeito aos valores da família e da fé cristã. Marielle jamais será heroína legítima dos negros brasileiros, exceto para os esquerdopatas, os que estão nas biqueiras e nos presídios”, escreveu.

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