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Ataque de Trump à Venezuela empurra o Brasil para o pior dos tabuleiros

A derrubada de Maduro, cujo desfecho democrático é improvável, deve munir a ultradireita e eleva o risco de que o caos transborde fronteiras

Ataque de Trump à Venezuela empurra o Brasil para o pior dos tabuleiros
Ataque de Trump à Venezuela empurra o Brasil para o pior dos tabuleiros
Nicolás Maduro e Lula durante encontro em Brasília. Foto: Evaristo Sá/AFP
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O ataque dos EUA à Venezuela, na madrugada deste sábado 3, impõe um desafio inédito à liderança que o Brasil busca exercer na América Latina. No curto prazo, é uma ruptura da abordagem mediadora e negociadora com a qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vinha tentando, sem sucesso, manobrar a situação. Numa perspectiva histórica, muda radicalmente o status de uma região tradicionalmente pacífica e de soluções negociadas, e sacramenta o papel abertamente intervencionista de Washington, reeditando os piores dias da Guerra Fria.

O tranco que Donald Trump está dando na realidade latino-americana hoje é o mesmo que os EUA deram ontem na Europa: acordos históricos caíram, alianças sólidas foram relativizadas, compromissos foram rompidos, o direito internacional e as soluções multilaterais foram definitivamente desprezadas e os arranjos que mantinham uma estabilidade e uma previsibilidade relativas já não existem mais.

A ordem mudou e o Brasil deve buscar se adaptar a essa mudança, da mesma maneira que os europeus buscam desesperadamente fazer desde que Trump estendeu um tapete vermelho para Vladimir Putin no Alasca e humilhou Volodymyr Zelensky na frente das câmeras, no Salão Oval da Casa Branca. Os amigos agora são outros. Os inimigos, também.

Se a guerra na Venezuela for rápida e curta, os prejuízos serão menores. Nesse cenário simplista, Nicolás Maduro sai de cena e a própria sociedade venezuelana se rearranja em novos termos. Se o desfecho for esse, o Brasil fica bem com todos os lados, pois não confrontou os EUA nem a oposição venezuelana que, agora, vê redobradas suas chances de voltar ao poder. Lula criticou Maduro na reta final – o Brasil não reconheceu os resultados das últimas eleições presidenciais na Venezuela, mas também não defendeu medidas de força para mudar esse status quo. Manteve, assim, uma posição ponderada, que o credencia para seguir participando das discussões sobre o futuro, com quem quer que seja.

Este cenário simplista, porém, é improvável. Quem está no poder agora é a vice-presidente, Delcy Rodríguez. A esquerda venezuelana obviamente segue existindo, e não abrirá mão de seguir exercendo o poder, mesmo com Maduro preso nos EUA ou exilado em qualquer outro lugar. Num cenário otimista, esta ala encontraria meios legais e legítimos de canalizar suas aspirações político-ideológicas, mesmo que seu líder maior tenha sido defenestrado do poder à força. No pior cenário, contudo, a luta pelo poder se radicaliza e a intervenção militar ilegal americana abre as portas para uma degradação generalizada, como aconteceu na Síria e no Líbano. Esse é o cenário mais catastrófico para o Brasil; e para a Venezuela, obviamente.

Uma guerra civil ou mesmo uma escalada de violência intensa e prolongada o bastante para perturbar uma saída pacífica deve provocar reflexos sobre o Brasil e a Colômbia, ambos países fronteiriços, que ultrapassem a mera questão humanitária associada ao fluxo de imigrantes.

Grupos armados internos, detentores de uma enorme quantidade de armas que Maduro disseminou entre a população civil nos últimos anos, podem testar os limites fronteiriços com ações de fuga ou com associações com outros atores armados. A própria Colômbia nos deu, ao longo de 50 anos, um bom exemplo de como mesmo uma luta social legítima em sua origem pode se degenerar facilmente.

Para o Brasil, esse cenário de degradação é o mais preocupante, principalmente porque não faltariam agentes da ultradireita – no Brasil, nos EUA e na Venezuela – tentando colar em Lula o papel de fiador de Maduro e, em consequência, dos cartéis e facções declaradas recentemente como terroristas por Trump. Essa combinação, em ano eleitoral brasileiro, pode ser fatal.

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