Política

Ataque de Eduardo Bolsonaro a Miriam Leitão acelerou divulgação de áudios sobre tortura, diz historiador

‘O que há de novo nesse material são a energia, a vivacidade e a capacidade de demonstração, porque se trata da voz daquelas pessoas’, afirmou Carlos Fico a CartaCapital

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Ao debochar da violência sofrida pela jornalista Miriam Leitão nos porões da ditadura, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) acelerou o processo de divulgação de áudios em que ministros do Superior Tribunal Militar nos anos 1970 admitem a prática de tortura no regime militar. A declaração é do historiador da UFRJ Carlos Fico, que obteve as gravações por meio de uma autorização da Justiça.

Fico participou, na quinta-feira 20, do programa Fechamento, transmitido pelo canal de CartaCapital no YouTube.

“Não são esses áudios que comprovam que os oficiais generais do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, além de muitos civis, juristas e políticos, sabiam da tortura. Sabiam e eram coniventes na medida em que não a denunciavam. Isso quando não a praticavam”, disse o historiador. “O que há de novo nesse material são a energia, a vivacidade e a capacidade de demonstração, porque se trata da voz daquelas pessoas. Então, é uma coisa indiscutível e impactante.”

No início de abril, Eduardo Bolsonaro compartilhou nas redes sociais uma postagem de Miriam Leitão e disse ter “pena da cobra”, em referência ao ato de agentes da ditadura de trancar a jornalista em uma sala com uma jiboia, quando ela estava grávida de um mês. O episódio motivou a divulgação dos áudios de ministros do STM, revela o historiador.

“Eu já planejava fazer isso, mas esse episódio de um desses filhos ofendendo a jornalista Miriam Leitão apressou tudo.”

Nesta semana, militares zombaram da publicação dos áudios. Um deles é o vice-presidente Hamilton Mourão, general da reserva do Exército. “Apurar o quê? Os caras já morreram tudo, pô. [risos]”, afirmou na segunda-feira 18. “Vai trazer os caras do túmulo de volta?”

Um dia depois, o presidente do Superior Tribunal Militar, ministro Luís Carlos Gomes Mattos – um general do Exército -, disse que as notícias sobre os áudios são “tendenciosas” e têm o objetivo de “atingir as Forças Armadas”.

“Aconteceu aí durante a Páscoa. Garanto que não estragou a Páscoa de ninguém. A minha não estragou”, disse o militar em uma sessão. “Apenas a gente fica incomodado que vira e mexe não tem nada para buscar hoje e vão rebuscar o passado. Só varrem um lado, não varrem o outro. E é sempre assim.”

A CartaCapital, Fico afirmou que as declarações “arrogantes” são “subprodutos de uma licença constitucional, há uma história longa de intervencionismo militar”.

“É quase licença que afirma que ‘os militares é que decidem se os problemas constitucionais estão em crise'”, acrescentou o historiador. “A gente precisa mudar o artigo 142.”

Questionado sobre as chances de uma ruptura democrática pelos militares em caso de vitória do ex-presidente Lula sobre Jair Bolsonaro em outubro, Carlos Fico disse ver um risco baixo, mas levantou uma preocupação com o papel das Polícias Militares.

“As PMs brasileiras são muito ruins, despreparadas há décadas. Geram medo na população, quando deveria ser o contrário. Há uma grande infiltração desse ethos bolsonarista nas PMs.”

Assista à íntegra da entrevista:

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