Política
Arena decisiva
A esquerda precisa unir-se para frustrar o plano bolsonarista de dominar o Senado, diz Áurea Carolina
A educadora popular e cientista política Áurea Carolina fez um movimento inesperado em 2022, quando encerrou seu mandato de deputada federal sem tentar a reeleição, mesmo após uma votação expressiva. Não foi uma escolha fácil, mas necessária para se recompor, avalia. A experiência no Congresso foi marcada por “um custo pessoal enorme”. Durante o mandato, sofreu tanta violência política, associada a questões raciais e de gênero, que decidiu se afastar. Passados quatro anos, a ex-deputada sentiu que ainda tinha a contribuir com a política institucional e recentemente anunciou seu retorno ao PSOL. Pré-candidata ao Senado, a dirigente falou, em entrevista à repórter Mariana Serafini, sobre os desafios eleitorais para 2026 e a dificuldade do campo progressista de formar novas lideranças. A íntegra, em vídeo, está disponível no canal de CartaCapital no YouTube.
CartaCapital: O que a motiva a voltar para a disputa eleitoral?
Áurea Carolina: Tomei essa decisão após olhar para a minha trajetória e refletir sobre meus aprendizados. Foi uma experiência de conquistas e realizações fantásticas que me trouxe um custo pessoal enorme. Fui mãe durante o exercício do mandato de deputada, no auge da pandemia, sob o governo Bolsonaro. Havia ainda uma conjuntura de violência política de gênero e racial, com constrangimentos e ameaças frequentes. Ponderei tudo isso e decidi dar uma pausa, porque a política institucional não representa toda a minha construção como lutadora popular. Mas veio aquele sentimento de que eu ainda tinha mais para contribuir. Hoje, sinto-me mais fortalecida. Além disso, é fundamental termos lideranças engajadas, dispostas a enfrentar a investida da extrema-direita contra as instituições democráticas – e o Senado é, sem dúvida, um dos principais alvos neste momento.
CC: Qual é a estratégia do campo progressista para neutralizar essa investida da extrema-direita e ampliar a presença da esquerda no Senado?
AC: É necessário um esforço para colaborar e formar coalizões dentro do nosso campo. Em geral, a população acompanha pouco o que acontece no Senado. É uma instituição muito tradicional, de representação dos estados. Penso que o campo progressista, ao se colocar de forma colaborativa, num espírito de ganha-ganha – já que são duas vagas –, consegue fortalecer mutuamente as candidaturas de diferentes partidos. Não podemos subestimar a estratégia da extrema-direita de corroer as instituições por dentro. Isso já é demonstrado globalmente: governos autoritários chegam pelo caminho eleitoral, a partir do voto, mas depois governam contra as Constituições e contra a soberania popular. E, aqui no Brasil, esse risco permanece altíssimo.
“Nós não podemos subestimar a estratégia da extrema-direita de corroer as instituições por dentro”, alerta
CC: Por que a esquerda enfrenta tanta dificuldade de formar novos líderes?
AC: Esse trabalho é parte indissociável do projeto de disputar eleições. A “Gabinetona”, nosso mandato coletivo na Câmara Municipal de Belo Horizonte, revelou outras lideranças. A expansão do projeto mostra que o caminho não é a repetição da lógica personalista, tão comum e criticada, inclusive no campo progressista. Muitos políticos se perpetuam nos cargos sem gerar ganhos ou avanços e sem permitir que novos rostos apareçam. É fundamental haver alternância de poder. E, como costuma dizer Érica Malunguinho, não uma alternância qualquer, mas sim com novos métodos e experiências, buscando sempre aprofundar e radicalizar a democracia.
CC: A senhora não disputou eleições em 2022, mas trabalhou na campanha da deputada Célia Xakriabá, que era sua assessora de gabinete. Quais são os desafios para fomentar novas lideranças femininas?
AC: Os desafios estão tanto na lógica do sistema quanto na cultura política. O Brasil possui uma tradição política autoritária e patrimonialista. A novidade da presença de mulheres e pessoas negras, que não correspondem ao tradicional perfil do homem branco, empresário e herdeiro, é algo que mostra o amadurecimento da sociedade brasileira. O exercício do poder exige decisão de compartilhamento e, por mais desafiador que seja, é preciso abrir mão do protagonismo para permitir uma presença mais coletiva. No nosso campo, existe pressão para fortalecer mulheres com condições de competir, garantir recursos, financiamento eleitoral e espaço decisório dentro das legendas. Mesmo partidos progressistas ainda não têm enfrentado a violência política de gênero e racial com o empenho necessário.
CC: Como se manifesta a violência política dentro dos partidos, entre os pares?
AC: Essa violência tem como pano de fundo a disputa por protagonismo e pelo acesso aos recursos controlados pelas direções partidárias. Se os partidos funcionam como uma espécie de cancela, que permite ou não o ingresso ao sistema político, precisamos exigir mecanismos mais democráticos internamente. Não basta destinar uma pequena verba para apoiar mulheres em processos de formação. É preciso paridade de gênero e racial nas decisões. As legendas devem assumir responsabilidades claras no enfrentamento à violência política de gênero e racial, com ações efetivas e prestação de contas. É urgente mudar as regras do jogo.
CC: Como foi esse período em que a senhora esteve afastada da política institucional?
AC: Minha maior felicidade nesse período foi estar na ponta, participando de processos de educação popular. Mas também senti um chamado para ajudar a fortalecer esse espaço institucional, porque não existe uma ruptura: a luta na sociedade civil precisa ter continuidade nas instituições. Ao fazer um balanço, percebi que essa experiência foi tão penosa que me sinto convocada a tornar esse caminho menos difícil para quem virá depois. Tem uma frase da Conceição Evaristo que gosto muito: “O interessante não é ser a primeira, é abrir caminhos”. Meu clique foi perceber que, nos últimos anos, ajudei a tecer uma coalizão brasileira de fortalecimento de mulheres progressistas na política institucional. Agora me sinto num bom momento para retornar. Custou tanto avançarmos que não podemos retroceder. •
Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Arena decisiva’
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