Diversidade

Apenas 4 municípios têm corrida eleitoral à Prefeitura dominada por mulheres

Maioria dos nomes é associado ao legado de pai, marido ou avô. Mais de 3300 municípios do Brasil só têm homens concorrendo ao cargo

Marcha das mulheres negras contra o racismo, a violência e pelo bem viver (Foto: Tiago Zenero/PNUD Brasil)
Marcha das mulheres negras contra o racismo, a violência e pelo bem viver (Foto: Tiago Zenero/PNUD Brasil)
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Por Flávia Bozza Martins, Lola Ferreira e Marília Ferrari

“Outras pretensas candidatas já tiveram a experiência de conduzir os destinos do município direta ou indiretamente.” Esta foi uma frase que o senador Mecias de Jesus (Republicanos/RR) disse em um encontro com a candidata Zanza, do mesmo partido, no pequeno município de Amajari, em seu estado natal. Além dos elogios comuns à época eleitoral, fundamentais para costurar apoios e acordos, chamou a atenção o gênero utilizado: candidatas, no feminino, quando o mais comum é usar “candidatos”. Mas a escolha de Mecias não se fez por uma questão de linguagem inclusiva. É que em Amajari a corrida para a prefeitura é comandada por mulheres. São quatro mulheres e apenas um homem.

Junto à Amajari (RR), apenas outros três municípios do Brasil combinam, nessas eleições, alta quantidade de mulheres candidatas à prefeitura em números absolutos e em proporção: Guapimirim (RJ), Mossoró (RN) e Presidente Vargas (MA). Os municípios têm mais de quatro candidatas e elas são mais que 50% do total de concorrentes. Outros 15 municípios têm mais de quatro mulheres na disputa pela prefeitura, mas nestes, os homens ainda são maioria, como nas capitais Rio de Janeiro, Teresina (PI) e Curitiba (PR), por exemplo.

Uma análise profunda das candidatas revela que o capital familiar ainda é fundamental nessas cidades e que, na maioria delas, a presença forte de mulheres simboliza a continuidade de um legado de pais, maridos ou avôs.

De uma família para outra

Em Amajari, as outras três candidatas a comandar o município de 13.185 habitantes são Núbia Lima (PV), Gleyce Mota (PL) e Vastí Santos (Solidariedade). Núbia concorre pela segunda vez à prefeitura, em 2016 ficou em segundo lugar na disputa. A candidata é casada com Rodrigo Cabral, que foi eleito prefeito da mesma cidade em 2009 pelo PPS — a eleição suplementar aconteceu porque o candidato eleito em 2008 teve as contas rejeitadas. Nesta eleição de 2008, Núbia também foi eleita vereadora pelo mesmo partido. Cabral voltou a concorrer em 2012, mas não ganhou.

Nas redes sociais, Núbia exibe muitas fotos com seu marido, inclusive como imagem principal. Rodrigo também é o segundo maior doador para a campanha da mulher, entre as pessoas físicas. Até agora, foram doados R$ 2.200. Só quem doou mais que ele foi seu irmão, Marcelo Mota de Macedo, com uma quantia de R$ 12 mil. Marcelo é deputado estadual em Roraima há quatro mandatos.

Em 2012, o eleito foi Moacir Costa (PR), que é casado com Gleyce Mota. Em 2016, Moacir tentou a reeleição mas teve sua candidatura indeferida. Enquanto era primeira-dama, Gleyce era vista em muitos compromissos oficiais e, substituindo o marido, já cumpriu até agenda de inauguração de obras realizadas pela prefeitura. Agora candidata, em 2020, não exibe muitas fotos com o ex-prefeito.

Manifestação em prol dos direitos da mulher (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

Zanza, do Republicanos, hoje concorre como cabeça de chapa, mas em 2016 foi eleita vice-prefeita no pleito que elegeu Vera Lúcia (PSC). Ela também já foi vereadora do município, em 2008. De ascendência indígena, Zanza concorre defendendo os interesses das comunidades do município. Já Vastí Santos (Solidariedade) é a candidata mais jovem da cidade, com 27 anos. Vereadora do município, Vastí é a candidata com presença mais forte nas redes sociais.

O único homem que concorre ao pleito deste ano em Amajari é Anário Filho (PV). Presidente do diretório municipal, Anário nunca exerceu cargo eletivo. Em seu Facebook, publicou no último mês um vídeo em que reclamava de uma pesquisa feita na cidade: na ocasião, apenas o nome das quatro mulheres constava, erroneamente, como candidatas ao Executivo municipal. A candidatura de Anário, entretanto, já foi deferida.

“Longe de empoderamento”

Com uma população de cerca de 11.200 pessoas, em Presidente Vargas, no Maranhão, concorrem também quatro mulheres e um homem. Uma das candidatas é Valquiria Rodrigues (PT). Em 2016, ela foi eleita vereadora com o nome de “Valquiria de César”. César de Dió é o marido de Valquiria, mas diferentemente da mulher, César nunca exerceu cargo eletivo: ele se candidatou a vereador em 2012, mas não foi eleito. Entretanto, é sobrinho de Hilton Lopes, já falecido, que foi vice-prefeito do município na década de 1990.

Outra candidata no município é Cinete Barros (Republicanos), que é vereadora há dois mandatos consecutivos e atual presidente da Câmara Municipal da cidade. Cinete foi anunciada, em um primeiro momento, como vice-prefeita na chapa da ex-prefeita Aninha, também do Republicanos, mas a convenção municipal decidiu optar pelo seu nome.

Josy Uchôa (PTC), conhecida como Uchôa Moral, é outra candidata. Em entrevista à Gênero e Número, ela enxerga com cautela o alto número proporcional e absoluto de mulheres nas eleições para o Executivo. LGBT+, professora e sindicalista, Josy afirma ser mais difícil manter uma candidatura sem alto capital financeiro ou familiar, mesmo sendo mulher.

“A questão aqui é mais de usar a imagem feminina para chegar ao poder. Ainda existe muito a ideia de sermos fantoches para homens, em candidaturas quase conjuntas com os maridos que já foram ou não podem ser mais eleitos. Nem sempre é pelo empoderamento feminino, mas uma questão da família usar a figura da mulher para chegar ao povo”, avalia ela, que não tem nenhum vínculo familiar com políticos no município.

A candidata que mais reúne apoios é Fabiana Mendes (PDT). No lançamento de chapa, a sua vice era Lívia Martins, ex-vereadora do município, filha do ex-vereador Peri e viúva do ex-prefeito Herialdo Pelúcio. Mesmo com as contas rejeitadas e impedida de concorrer, Lívia se uniu à campanha de Fabiana, numa verdadeira coalizão de ex-prefeitos — ou seus representantes. Fabiana também recebe apoio de secretários do governador Flávio Dino (PC do B).

Filha versus neta

Em Guapimirim (RJ), município com cerca de 61 mil habitantes, grandes sobrenomes da política municipal estão trocando de rosto. Concorrem à prefeitura Marina (PMB), conhecida como “Marina do Modelo”, filha do vereador César do Modelo, e Lígia do Nelson do Posto (PSD), que vai para a urna com o nome do avô, primeiro prefeito do município. Nelson do Posto também foi prefeito de Magé, município do qual Guapimirim se emancipou, e deputado estadual. A construção de imagem de Lígia e sua associação com o avô já vem de algum tempo. No último ano, ela se dedicou a fazer ações sociais, cavalgadas e presença em eventos criados e mantidos pelo avô quando vivo.

Já Marina é deputada estadual e foi vereadora do município, sempre com suporte do pai nas suas campanhas. Agora, quer ser prefeita, cargo que o pai não conseguiu ocupar quando disputou o pleito em 2012. Em 2016, Marina foi a candidata da família à prefeitura, e ficou em segundo lugar.

O embate reflete nas pesquisas. A última pesquisa eleitoral encomendada pelo partido de Marina ao Ibope Inteligência apontou a jovem como líder na disputa, com 40%, seguida por Lígia, com 16%. Também com a mesma proporção de preferência está Zelito Tringuelê (PDT), único homem na disputa e atual prefeito da cidade. Aparecem com 8% e 6% das intenções de votos Professora Noemi (PTB) e Ismeralda (MDB), respectivamente.

Em entrevista à Gênero e Número, Ismeralda analisa de forma mais ampla uma disputa dominada por mulheres. Para ela, essa pode vir a ser a realidade em mais do que quatro municípios em alguns anos.

“Eu vejo um ponto positivo, porque as mulheres estão se colocando. É importante termos mulheres empoderadas na política, porque isso pode fazer diferença na hora de muitas decisões”, avalia.

Legado familiar

Em Mossoró (RN), a maior cidade entre as quatro, com mais de 300 mil habitantes, há quatro candidatas e dois candidatos. Um nome já conhecido é Rosalba Ciarlini, do clã Rosado. Há eleitor que diga que os Rosado são os Sarney de Mossoró: desde 1983, a cadeira da prefeitura só não foi ocupada por um Rosado em apenas um mandato, o de 2012. Rosalba já foi prefeita quatro vezes, e busca a quinta eleição.

Ela também já foi governadora do Rio Grande do Norte, eleita em 2010, e senadora da República pelo estado, eleita em 2006. Rosalba é esposa de Carlos Augusto Rosado, que é ex-deputado federal e filho do ex-governador Dix-Sept Rosado.

Como principal oposição ao clã, neste ano concorre Claudia Regina. Eleita em 2012, ela teve seu mandato cassado por abuso de poder político e compra de votos, e foi impossibilitada de concorrer por exatos oito anos. O adiamento do pleito deste ano, em razão da pandemia de covid-19, garantiu que ela disputasse o cargo.

Também concorrem Irmã Ceição (PTB), que já foi vereadora, e Isolda Dantas (PT), que atualmente é deputada estadual. Entre os homens, os candidatos são Professor Ronaldo (PSOL), que sem recursos financeiros faz sua campanha de bicicleta pela cidade, e Allyson (Solidariedade), que também é deputado estadual no Rio Grande do Norte.

Gênero e Número

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Primeira plataforma brasileira a abordar questões de gênero a partir de dados.

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