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Ana Estela Haddad: “A missão política adia nossa vida pessoal”

Política

No dia em que completava 30 anos de casada, Ana Estela Haddad teve um sonho.

Ela havia esquecido seu notebook em um lugar e ele “foi embora”, o haviam roubado. A preocupação da livre-docente da USP, ex-gestora de políticas públicas nos ministérios da Educação e da Saúde e coordenadora do programa São Paulo Carinhosa, entre outros tantos papeis que desempenha, não era com o aparelho eletrônico em si.

“Pensava em tudo que estava dentro e que era um pouco a minha vida, sabe?”, conta à repórter da CartaCapital em sua casa com ares modernistas na zona sul de São Paulo após um longo dia que começara às 7 horas com ela e Fernando Haddad, candidato à Presidência da República pelo PT, em uma capela nos Jardins, renovando seus votos matrimoniais.

Naquele dia, 17 de setembro, ela também se sentia mortificada porque um desencontro e a incerteza da sua agenda em tempos de campanha eleitoral impediriam que o filho mais velho, Frederico, estivesse presente na missa que celebrou as três décadas do casal. Nas últimas semanas, foi assim todos os dias: muita correria, mudanças e incertezas.

Poucas horas depois da missa, seu marido seria sabatinado por um portal de notícias. Ana Estela não o acompanharia nessa agenda porque tinha compromissos na USP. Mesmo “usufruindo” de suas férias e licenças-prêmios acumuladas no decorrer de seu trabalho na universidade, ela não se retirou por completo: a cada quinze dias vai à Faculdade de Odontologia dar aula e orientar seus estudantes da pós-graduação.

O “tudo” a que a ex-primeira-dama de São Paulo se referia que havia no seu notebook, roubado no sonho, eram seus últimos 16 anos, sobretudo, de vida acadêmica conciliado com a gestão pública. Ana

Votos renovados

Ana Estela Haddad e Fernando Haddad na renovação dos votos

Estela está dividida.

 

“A sensação é difícil. É muito difícil a gente ficar o tempo todo dividido, sentindo um conflito de onde é mais importante estar. Eu não tenho essa resposta. Não é uma resposta tão clara.”

Com ou sem respostas, o dia dela foi esse. Casamento, vida profissional, vida eleitoral ao atender à repórter e, à noite, uma tentativa de requentar a comida para jantar com Fernando que, meia hora antes de a entrevistar terminar, retornara de Curitiba, onde havia se encontrado com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Não teve festa nem restaurante para comemorar com Haddad este ano. “Eu queria uma viagenzinha, mas acho que esse aniversário dos 30 anos eu já perdi”, lamenta, rindo.

O Haddad que ela leva no sobrenome nada tem a ver com o do marido. “O meu Haddad é do meu pai. As pessoas brincavam, quando estávamos noivo: Mas você não vai por Haddad Haddad? Preferi economizar documento”, conta, rindo. O sobrenome, em árabe, faz referência à profissão – significa “ferreiro” e, como as famílias de ambos vieram de cidades distintas do Líbano, não há grau de parentesco.

Na entrevista a seguir, Ana Estela fala sobre sua carreira acadêmica, sua paixão pela política pública, reflete acerca do “papel” de primeira-dama e da mulher na sociedade, sobretudo nos espaços de poder e da política, e fala sobre a temática do aborto no País.

CartaCapital:  Como foram os primeiros meses após a saída da Prefeitura?
Ana Estela Haddad: Tive experiências anteriores, trabalhei por nove anos no governo federal, nos ministérios da Educação e da Saúde. A gestão pública, quando a gente toma aquilo como uma missão, ela te absorve completamente, ela é muito exigente. Colocar novas iniciativas, novos programas, formular e implementar políticas são desafios imensos. Exige muito das pessoas, exige trabalho coletivo, articulação. É um acompanhamento muito intenso e na Prefeitura não foi diferente.

Na verdade teve uma diferença básica. Quando estava no governo federal, fui cedida do meu cargo docente para atuar num cargo no MEC. Então eu pude me licenciar da atividade acadêmica ou da maior parte dela. Eu estava bem concentrada e focada na atividade da gestão, o que foi muito importante.

Ana Estela São Paulo Carinhosa

Ana Estela Haddad apresentando um balanço do que foi feito no São Paulo Carinhosa em 2016

Já na Prefeitura de São Paulo a situação era distinta porque eu não tinha um cargo. Estava exercendo uma atividade de representação simplesmente, que eu podia ou não fazer alguma coisa.

No meu caso, foi um chamado de foro íntimo, de querer realmente aproveitar a oportunidade de fazer alguma coisa porque eu gosto de política pública, é uma paixão que tenho. Foram quatro anos extremamente desafiadores e muito difíceis porque eu não me afastei das minhas atividades acadêmicas. Trabalhava em tempo integral e fazia o terceiro turno na Prefeitura. Por isso quis me direcionar para uma coisa que fizesse sentido para mim.

Além disso, tinha a atividade de representação. Muitas agendas fiz por minha conta. Outras fazia sentido eu acompanhar o Fernando. Havia esse trabalho também. Essa foi a diferença.

Na minha história na gestão pública, o período da Prefeitura foi mais desafiador porque não tem um arranjo pensado nesse sentido. A gente vive um momento paradoxal porque hoje todo mundo tem sua vida profissional, sua atividade e, de certa maneira, a gente acaba se colocando na posição de também ter uma missão. Claro que eu me envolvi muito, a gente cria amor no que está fazendo.

O maior sofrimento que eu tive foi a saída do MEC, em 2005. Sai porque ele [Fernando Haddad] foi indicado para ministro… Aquele momento foi… Eu estava feliz por ele, mas, por mim, eu estava triste porque eu tive que abrir mão.

CC: Por quê?
AE: Ele foi para Brasília primeiro a convite do Guido Mantega para o Planejamento. Depois de alguns meses eu recebi o convite para o MEC, estava na assessoria do gabinete do ministro. Quando o Cristovam [Buarque] saiu e o Tarso [Genro] foi indicado, o Tarso me convidou para continuar porque ele precisava da memória da gestão anterior e de alguém que fizesse a interface com a Saúde. Ao mesmo tempo convidou o Fernando para ser secretário Executivo. Nesse momento nós fizemos uma consulta ao Comitê de Ética da Presidência da República para saber se não havia nenhum conflito de a gente estar no mesmo Ministério. E o entendimento do comitê foi de que, como não havia uma relação hierárquica direta entre nós, estávamos em setores diferentes, não íamos deliberar juntos e eu já estava lá antes da chegada do Fernando, não havia conflito. Então a gente permaneceu.

Depois de um tempo, quando o Tarso tomou a decisão de assumir a presidência do partido e o Fernando foi confirmado como ministro, eu imediatamente escrevi uma carta, pedindo para o Tarso que ele me exonerasse junto com ele porque não havia nenhum sentido eu permanecer.

Aquele momento foi difícil, foi a primeira experiência de me descolar quando eu estava muito envolvida com as coisas que eu estava fazendo, foi minha primeira experiência na gestão pública e foi muito impactante. Depois você aprende que nesses espaços, em todos os espaços, na vida até, você sempre está de passagem, você sempre vai fazer um pedaço e vai interromper a qualquer momento e, muitas vezes, sem planejamento. Então meu aprendizado é que, quando eu saio, eu olho para trás e falo: “Bom, eu fiz tudo o que eu podia. Minha parte eu fiz”.

Por isso, na minha saída da Prefeitura eu estava bem preparada e veio um certo alívio porque eu estava exausta.

O ano de 2017 foi muito importante para mim. Foi um ano de descanso, foi um ano em que eu pude me reequilibrar, concentrar na minha vida acadêmica e botar muita coisa em ordem que estava represada. Pude me encontrar de novo em um eixo mais meu, que não era só os papeis que eu tinha que desempenhar. Foi bom.

ana estela e haddadCC: No primeiro programa de governo do Haddad, na Prefeitura, você participou fortemente da elaboração, mas do seguinte nem tanto, certo?

AE: Foram bem distintos os dois momentos porque em 2012 a gente não estava na gestão. A gente podia estar concentrado para fazer o plano de governo. Em 2016, estávamos dentro da gestão já e a campanha acontece nesse momento. Eu estava muito mais ocupada em dar um certo desfecho e conclusão… Até o livro do São Paulo Carinhosa foi um esforço muito grande no último ano em poder fazer um registro do que foi feito. A preocupação mais daquele ano era prestar contas do trabalho realizado e dar visibilidade a esse trabalho. Nas horas vagas, à noite e nos finais de semana, a gente ia para rua, mas foi uma campanha muito diferente de 2012.

CC: Neste programa de governo, para a disputa presidencial, você participou?
AE: Tudo foi muito corrido e rápido… Fiz uma leitura de algumas áreas que eu tenho mais afinidade. Eu li a área da Segurança, li a área da Educação, li a área da Saúde. E na Saúde eu enviei algumas sugestões de algumas coisas e outras para complementar o que já havia sido  proposto.

ana estela em curitiba

Ana Estela junto com a cúpula do PT em frente a Superintendência da PF, em Curitiba

CC: O governo federal teve o Brasil Carinhoso e você fez o São Paulo Carinhosa na capital paulista, que trabalhava com a primeira infância da cidade. Há muitas diferenças entre os programas. Você vê a possibilidade de pegar o projeto municipal e transformá-lo em um projeto de âmbito federal?

AE: Quando pensamos no São Paulo Carinhosa, conversei com a presidenta Dilma na época e com a ministra Tereza Campello e sugeri a elas rebater no município essa iniciativa. E quando você fala em rebater é preciso entender que as atribuições de uma gestão federal são muito distintas das de uma gestão municipal. Rebater significa priorizar. No município você está muito dentro de onde a vida acontece e daquilo que é atribuição.

O governo federal dá diretrizes para todas as políticas, mas fazer a atenção básica funcionar é no município que você faz. Na cidade de São Paulo, a Saúde e a Educação tinham uma série de medidas em âmbito federal que não eram aplicadas. Pesava a diferença partidária porque muitas das políticas propostas no governo federal não eram adotadas no município de São Paulo por uma certa rejeição. Com isso a população acaba sofrendo as consequências.

O que eu acho que no nacional a gente pode levar? A experiência que foi construída em um município do tamanho de São Paulo.

Quando você consegue botar de pé uma ideia em uma megalópole como São Paulo, você aprende muita coisa que fica mais fácil você levar essa experiência a outros municípios. Acho que teríamos plena condição – independentemente de assumir outras tarefas – de levar essa experiência a outros municípios e construir uma experiência parecida, como alguns já têm feito.

Não tenho planejado nada ainda caso o Fernando seja bem-sucedido [na disputa à Presidência da República] e com certeza qualquer decisão vai ser interagido com ele e avaliando a cada momento o que pode ser mais útil e interessante, mas ao mesmo tempo alinhado com o meu perfil.

Ana Estela no minhocão

CC: Qual o seu perfil?
AE: Minha tendência é mais generalista e às vezes eu até sofro por isso porque na academia, quando você é mais especialista em uma coisa, você se torna um expert naquela coisa e acaba construindo o seu reconhecimento e o seu lugar de identidade a partir disso. Tenho uma dificuldade em ser assim. Eu gosto de mudar de desafio, de aprender coisas novas, de entender como as coisas se conectam numa perspectiva mais macro. Então eu gosto de variar (risos).

CC: E como foram esses últimos meses no sentido de perceber que o Haddad assumiria a função de candidato à Presidência? Quanto isso, dentro de casa, passou a ser algo concreto?
AE: Isso nunca foi nosso foco aqui. Nem no dia que a questão foi confirmada. Uma coisa que aconteceu que eu vejo como algo muito importante foi o presidente Lula ter pedido ao Fernando que coordenasse a elaboração do plano de governo. Ele pegou isso como uma tarefa muito importante, realmente se dedicou. Acho que ser professor tem os cacoetes, a gente tem uma mania de pegar um assunto e se aprofundar, você lê e vê as experiências que existem… Além disso, ele tem toda uma trajetória. Ele vem se preparando ao longo da vida, mesmo a trajetória acadêmica dele teve essa característica.

Ana Estela na AcademiaCC: A vida acadêmica dele também foi cheia de mudanças… 

AE: Mas todas as mudanças que ele fez, a questão do Estado, a questão de pensar um modelo de sociedade e um modelo de funcionamento para Estado sempre esteve presente. Nas diferentes disciplinas, desde o Direito que foi a graduação, depois o mestrado na Economia teve essa questão colocada. E o dourado na Filosofia também. Mesmo mudando de áreas, tinha uma linha de coerência.

De muitos anos para cá, desde que ele entrou na gestão pública, ele conseguiu aliar toda essa bagagem teórica acumulada com a experiência prática, de arregaçar a manga e ter que fazer.

CC: Como estão sendo esses últimos meses para a Ana Estela? Você se licenciou da USP num momento em que estava, como disse, colocando em dia sua vida na academia.
AE: Você sabe que essa noite eu tive um sonho. Eu sonhei que meu notebook tinha sido roubado. Que eu esqueci ele em um lugar que não deveria ter esquecido e ele foi embora. Eu não estava pensando no meu notebook, no aparelho, estava pensando em tudo que estava dentro e que era um pouco a minha vida, sabe?

A sensação é difícil. Eu estou elaborando ainda porque é muito difícil a gente ficar o tempo todo dividido, sentindo um conflito de onde é mais importante estar. Eu não tenho essa resposta. Não é uma resposta tão clara. É um processo que você vai tateando e vai construindo e, muitas vezes, tenho dúvidas e falo: “Será que eu tenho que fazer tudo isso mesmo? Será que não devia virar as costas e concentrar na minha vida e ficar mais em paz, mais em harmonia e mais tranquila?”.

Ao mesmo tempo, eu tive uma história nesses 16 anos [na gestão pública] que eu não tenho como negar. Eu ganhei muito nesse processo em termos de aprendizado, de conhecimento, de vivência que me complementaram e que, de certa forma, complementa a minha vida acadêmica numa outra direção. A minha vida é um pouco heterodoxa num certo sentido. Não é nem muito bem compreendida porque não é uma carreira acadêmica como a da maioria, de ter uma área de estudo, de publicar muito naquela área apenas.

Estrela do PT e Ana estela

Ana Estela Haddad

CC: Seu [currículo] lattes é extenso…
AE: Mas ele é eclético. Ele passa por um trânsito que vai e vem entre academia e gestão pública. Há um processo de alimentação mútua, mas acabei construindo um caminho que “não está bem trilhado” porque essa integração não é tão clara. Na minha opinião deveria existir de forma muito mais ampla, entre o que se faz na academia e o que, na prática, tem que se fazer para uma política pública ser implementada.

Claro que existem formas de se resolver isso, mas o raciocínio que você tem que usar para produzir evidência academicamente não é o mesmo de fazer o interesse maior do poder público, que é construir equidade. Fazer a evidência científica repercutir na gestão e fazer com que as questões mais importantes da gestão pautem a pesquisa não é um caminho automático. Me vejo um pouco nesse espaço e quando transito de um campo para o outro, me vejo fazendo um pouco isso.

A questão é que isso exige um advocacy dos dois lados. Você está sempre devendo alguma coisa. Você sempre é um pouco menos em cada lugar porque você não constrói integralmente, você está sempre questionando uma coisa de cada lado.

CC: Você não acha que esse sentimento é muito comum na mulher? Um homem, no seu papel, se sentiria assim?
AE: Acho. Eu acho que essa forma de sentir é até mesmo uma forma mais feminina do que masculina. O homem, em geral – sem querer generalizar porque cada um é de um jeito -, tende a ser mais pragmático e mais unidirecional. A gente é multitarefa, a gente olha e abraça… a nossa vivência, nossa vida nos exige isso. A gente está numa atividade de gestão, mas você não deixa de ser mãe, não deixa de assumir que a casa e as coisas são de sua responsabilidade. Olhamos em volta e, às vezes, queremos abarcar tudo ao mesmo tempo.

CC: Numa perspectiva em que Haddad seja eleito e você se torne a primeira-dama, já existe um cenário fixo para você? A gestão pública vai tomar seu tempo por completo?
AE: Olha, graças a Deus e se Deus quiser, não (risos). Eu não quero pensar. Faço sempre o exercício de viver um dia de cada vez porque, senão, é tão angustiante. Claro que de vez em quando a angustia vem: “Meu Deus, o que será que vai ser? Vai acontecer uma coisa, vai acontecer outra…”. Nesse sentido, o mais confortável é ficar como está. Que seja só uma campanha e que acabe a campanha e eu possa voltar para a minha vida como ela está (risos). Eu não sei, mas eu não tenho nada desenhado nem pensado e eu não quero antecipar.

CC: Você é livre-docente e gestora de políticas públicas. Como é ser essa mulher em um ambiente onde você precisa coordenar muitas pessoas, de ambos os sexos? Nos papeis de liderança que você exerce ou exerceu, como lidava com o machismo?

AE: Esse é um grande desafio. Existe uma diferença de gênero colocada no espaço profissional de trabalho. E quanto mais você sobe na hierarquia, quanto mais tiver uma posição de maior poder nesse processo, mais fortemente você vai enfrentar esse tipo de situação. E acho que enfrentei em vários momentos, de diferentes formas. Não foi fácil. Nunca é. Hoje eu estou mais escaldada, estou mais velha. A livre-docência veio depois de todos esses enfrentamentos no Ministério da Saúde.

Mas não tem uma receita. Hoje eu sinto a geração mais jovem de mulheres muito mais empoderada de si mesmo, muito mais preparada para essa luta e disposta a fazer muito menos concessões do que eu acho que minha geração fez. Fazendo uma autocrítica, até isso eu acho que a exposição à gestão pública, os espaços dos ministérios que ocupei, foi importante para mim porque é aquela história: quando você é jogado aos leões você tem que aprender a lutar. Não nasci pronta, como ninguém nasce, mas eu fui aprendendo com o processo.

Acho que ter uma boa autoestima é importante, não deixar de acreditar na gente mesma nunca. Não deixar que o ambiente externo, as agressões e os pequenos gestos que vem de fora nos atinja. A força tem que vir de dentro da gente. O mundo, um pouco, vai nos tratar da forma como nos tratamos. Primeiro a gente tem que se tratar de uma determinada forma, para que o mundo entenda como deve nos tratar. Isso pode parecer simples, mas não é tanto assim (risos).

ana estela

Lançamento do livro São Paulo Carinhosa

CC: Essa eleição tem um movimento muito forte das mulheres. Como está vendo esse processo?
AE: 
Acho que há uma percepção geral de que é importante a mulher se ver no espaço político, 51% do eleitorado é feminino. Hoje a gente já não está aceitando e concedendo… Você vê, semana passada foi criado uma página [no Facebook] de mulheres contra o Bolsonaro e já tem mais de dois milhões de mulheres.

CC: Você está no grupo?
AE: Eu não tive tempo de entrar, mas eu estou morrendo de vontade de entrar logo (risos). Não entraria por causa da disputa [eleitoral]. Entraria pela questão das ideias que são inconcebíveis, é inadmissível, é um obscurantismo e um passado que a gente quer enterrar de uma vez. Não é possível tratar as mulheres dessa forma.

CC: A questão da representatividade está muito forte nestas eleições. Para você representatividade é mulher votando em mulher?
AE: É mais do que isso. Vou citar meu exemplo: eu recebi três convites. Um para me candidatar a deputada estadual, outro para me candidatar a deputada federal e o último para compor a chapa com [Luiz] Marinho (PT), como vice dele para o governo estadual. O [convite] do Marinho chegou muito em cima da hora e eu já não estava mais com prazo para me desincompatibilizar da USP.

estudantes ondo

Com os estudantes da Odontologia, da USP

Eu fiquei muito feliz com todos os convites. O convite para representação como deputada veio do setorial de mulheres do partido e quando elas vieram me convidar, de uma forma muito generosa, disseram que o papel que eu tive na Prefeitura foi um papel articulador dentro da gestão e que desconstruiu a ideia do “primeiro-damismo”. Fiquei feliz porque elas captaram o meu esforço diário, que foi de desconstruir todo o estereótipo que vem colocado e o peso que vem nessa palavra. As pessoas esperam até determinada vestimenta de você nesse processo.Eu me lembro uma vez que eu fui no Glicério (região central de São Paulo) e estava conversando com uma líder comunitária. Logo depois que nos apresentaram uma a outra ela virou para o lado e disse: “Essa é a primeira-dama mesmo? Simplesinha ela!”. Provavelmente ela esperava uma coisa muito imponente.

Tem quem também espere um papel muito figurativo, talvez mais vazio. Então o fato de eu gostar da gestão, de arregaçar as mangas, de dar palpite era uma coisa que no começo assustava as pessoas.

Trabalhei sete anos no ministério da Saúde, implantei vários programas que foram bem-sucedidos, que são reconhecidos internacionalmente hoje e não vou trazer a minha contribuição? Como vou chegar num município e ficar olhando? Não dá, é difícil.

Com o passar do tempo as pessoas foram entendendo. O secretário me convidou para presidir o comitê de telessaúde, ajudar a implantar o telessaúde no município, que foi um programa que fiz no Ministério. Por isso é passo a passo, todo dia desconstruindo. Isso é uma coisa difícil.

CC: Você acha que mulher tem que votar em mulher?
AE: Se parte de um pressuposto que uma mulher por ser mulher, estar na pele de uma mulher, vai entender melhor quais são os problemas que a mulher tem porque é muito difícil que um homem consiga perceber. Isso é fato. Todas nós que sentimos na pele. Nos nossos relacionamentos.

Há uma cumplicidade colocada porque só a gente está na nossa pele por mais que eles sejam sensíveis, isso vai até um certo ponto. A questão existe. Isso leva a entender que a mulher na política pública vá ter mais sensibilidade.

Teve um estudo internacional recente mostrando que, em geral – claro que não dá também para generalizar -, mulheres têm um grau de compromisso, de responsabilidade que nem sempre… quer dizer, existe uma diferença. Essas questões estão muito por trás dessa ideia de que mulher tem que votar em mulher.

Agora, de fato de fato, em tudo, o mundo ideal para nós é aquele que não tivesse a diferença de gênero e que a gente pudesse discutir por ideias independentemente do gênero, do sexo. Na vida real a gente ainda não chegou lá. Hoje é muito desproporcional a participação feminina no Congresso, nos governos… Quando a gente vê um filme de uma cineasta e de um cineasta é completamente diferente. Um livro escrito por um homem e por uma mulher, são outras narrativas e a gente ainda está muito sub-representada, esse é o fato. A gente precisa crescer em representatividade em todos os espaços, político é um deles, mas não só. Nas ciências, nas engenharias, como cientistas, na própria cultura, no cinema, em tudo.

CC: Mas você não aceitou nenhuma das propostas…
AE: Ia ser mais difícil na minha situação, porque no meu caso tem uma tripla situação. A primeira questão é que eu estou num momento da minha vida acadêmica… Eu lutei por 16 anos para manter um pé em cada canoa e não deixar a peteca cair. Falta, para mim, chegar no último degrau que é o [de professora] titular. Eu estou num ponto agora que se eu me volto à vida política, que é extremamente absorvente… Além disso, vendo a situação do País e vendo o momento que o Fernando estava enfrentando e está em vias de enfrentar… Fiquei muito tempo em dúvida, mas quando isso se concretizou (a candidatura à Presidência dele) achei que era muita coisa nesse momento.

CC: Não está descartado para o futuro?
AE: Não está descartado para o futuro. Eu gosto dessa área. Eu acredito nas políticas públicas como um espaço importante de melhoria da sociedade, da gente poder construir uma situação melhor.

Mulheres em agenda com Ana Estela

CC: Você trabalha na área da Saúde. Queria saber qual a sua posição sobre o aborto?
AE: Eu gostei da forma como você perguntou porque eu já fui perguntada sobre isso muitas vezes na Prefeitura, mas de maneira diferente: “você é contra ou a favor ao aborto?”.

Você não me perguntou se sou contra ou a favor, então vou te responder porque as outras vezes não respondi por se tratar de uma pergunta mal formulada e a gente, como mulher, não deve perguntar desse jeito.

Primeiro lugar, como alguém da Saúde, eu tenho a sensibilidade de perceber que o aborto hoje, como está colocado na sociedade, é um problema de Saúde Pública. Tem muita menina, tem muita mulher morrendo por conta de um aborto mal feito. E por que isso acontece? Porque a gente não está sendo efetivo e também está falhando no processo de permitir democratizar os acessos aos meios de planejamento familiar. Se você não tem um bom planejamento para ter relação segura, igualitária, sem situações de violência que muitas vezes acontecem…

Vou citar uma experiência no município de São Paulo, porque a gravidez na adolescência era uma questão que a gente estava muito sensível e estava trabalhando muito no São Paulo Carinhosa. É risco para menina, é

Ana Estela e Haddad jovens

Ana Estela e Fernando Haddad mais jovens

risco para o bebê e é uma situação social que você reproduz um ciclo de inequidade porque a menina engravida mais se ela estiver fora da escola; se ela está grávida, ela sai da escola, ela deixa o ciclo regular e ela tem dificuldade de voltar, aí ela já tem uma vida para cuidar e não tem como se sustentar. Às vezes ela se sujeita a uma situação de violência e o bebê também vai sofrer as consequências. E é um ciclo que se reproduz.

 

Ninguém quer fazer um aborto. É uma situação de violência e traumática para quem faz. Ninguém quer precisar fazer um aborto. Agora gerar uma vida e enfrentar uma situação de violência e ter que levar essa situação a cabo…

Me pergunto como está nosso processo educacional? Como é que está a situação nas unidades de saúde? Os adolescentes estão tendo acesso à informação? A gente sabe que tem muito que fazAna Estela entre os homenser em termos de políticas pública. Deus queira que a gente possa chegar num dia em que ninguém precise ser submetida a um aborto. É isso que eu gostaria que acontecesse em nossa sociedade, mas a gente precisa criar as condições para isso e eu acho que a criminalização não contribui.

Não sei se você acompanhou a professora Débora Diniz que fez uma grande pesquisa e fez um pronunciamento do Supremo Tribunal Federal sobre sua pesquisa, sobre o número de mulheres que já se submeteram a um aborto. É um número muito grande. A pergunta é: essas mulheres deveriam estar encarceradas? É isso que a gente quer para nossa sociedade? Criminalização não contribui.

Não sou a favor do aborto como um método contraceptivo, acho que a gente tem que poder ter outros. Todos têm que ter direito a escolher quando e como ter uma relação sexual de forma saudável e a gente precisa para isso criar também mais igualdade de gênero.

No bairro de Pinheiros (zona peste de São Paulo), a gente verificou 0,2% de incidência de gravidez na adolescência. Sabe quanto é em Cidade Tiradentes (zona leste)? 20%. Há um problema aí. Informação é importante. Então há muito por fazer na saúde, na educação.

CC: Mas o tema não engloba só crianças e adolescentes. Existem mulheres adultas que querem ter esse direito de optar.

AE: Sim, mas eu acho que, primeiro, o caminho não é criminalizar. Não acho uma prática desejável e que ninguém queira fazer. É um violência em si. A gente tem que trabalhar na sociedade para que não seja necessário [abortar], mas ao mesmo tempo não desamparar e não deixar como está. Porque se deixar como está as mulheres vão continuar morrendo por conta disso. E encarcerar não é o caminho.

CC: Tradicionalmente o PT e outros partidos tentam esconder ou ao menos não declarar uma posição sobre o aborto em período de eleições. O aborto é ainda um tabu para os partidos?
AE: Não sei te responder essa questão. Eu acho que os partidos refletem um pouco o que está na sociedade. Os partidos estão no estágio em que a sociedade está. Não estão a mais ou a menos. Há outros países que já pensaram mais nessa discussão e acho que a gente devia sim se reportar e analisar um pouco. Precisamos trazer mais informação para o debate antes até de pensar em um posicionamento definitivo. O debate ainda não está maduro. É uma questão que deveria entrar em pauta e ser mais discutida e mais debatida.

CC: Na chapa do Hadadd temos a Manuela D’Ávila que sempre se posicionou muito claramente sobre a questão do aborto. Como será… figuras tão distintas: o PT, um partido que sempre tratou esse assunto como um tabu, com uma pessoa como a Manuela que sempre foi muito clara na sua posição?
AE: Isso eu já não posso te responder. Você terá que perguntar para os candidatos.

CC: Hoje você completa 30 anos de casamento. Quais são os momentos mais difíceis e os melhores momentos desse tempo juntos?
AE: 
Não vou falar de um momento, mas ter um companheiro que tem exposição pública não é fácil. É difícil. Para mim, pelo menos, para o meu temperamento, é bem difícil porque isso tem uma série de implicações no dia-a-dia, na vida. Essa missão política nos impõe um represamento e um adiamento da vida pessoal. E a gente vive isso há muitos anos. O represamento das escolhas que a gente pode fazer, usufruir da nossa convivência, da nossa liberdade para viajar, para curtir, para ir aos lugares. Hoje a gente sai bem menos do que a gente saia porque é difícil.

Eu gosto muito de fazer política pública, mas se eu pudesse escolher fazê-la sem ter que enfrentar o que significa a exposição pública pessoa da figura e da imagem… porque é muito cruel.

O melhor momento são os filhos e os momentos que podemos estar juntos um pouco despreocupados, leves, sem o peso dos bombardeios do que vai ser.

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Repórter do site CartaCapital.com.br

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