Política
Alvo estratégico
O governo federal lança uma ofensiva para atrair jovens talentos para a carreira docente
Na quinta-feira 22, véspera do encerramento do prazo para os estudantes que fizeram o Enem cadastrarem suas notas no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), o Ministério da Educação (MEC) disparou uma mensagem em massa para quem obteve desempenho elevado no exame. O conteúdo incentivava os jovens talentos a investir na carreira de professor: “O Governo do Brasil tem uma boa notícia para você que fez o Enem 2025: sua nota ficou acima de 650 e você pode se enquadrar nos critérios do Pé-de-Meia Licenciatura. O próximo passo é se inscrever em um curso presencial de licenciatura pelo Sisu”.
A iniciativa oferece bolsa mensal de 1.050 reais aos matriculados em cursos de formação docente. Desse valor, 700 reais vão diretamente para o aluno, enquanto os outros 350 reais são depositados em poupança, com saque previsto após a conclusão da graduação e a entrada em uma rede pública de ensino em até cinco anos – uma espécie de contrapartida exigida dos bolsistas.
Podem solicitar o benefício tanto os estudantes que ingressarem em uma universidade pública pelo Sisu quanto os contemplados pelo ProUni ou pelo Fies em faculdades privadas com conceito 5 ou 4 – nota também exigida para o curso escolhido pelo aluno. O Pé-de-Meia Licenciatura é um dos carros-chefes do programa Mais Professores, que acaba de completar um ano e já beneficiou 2,7 milhões de profissionais, impactando a vida de mais de 57 milhões de estudantes. Do total de assistidos nesse primeiro ano de implantação, 7 mil foram bolsistas de cursos de formação docente.
O MEC oferece bolsa mensal de 1.050 reais para estudantes que se matricularem em cursos de licenciatura
O esforço do governo tem um objetivo claro: reverter um cenário histórico de baixa atratividade da profissão. A estratégia parece ter dado certo. Em 2025, as matrículas nos cursos presenciais de licenciatura aumentaram 60% em relação ao ano anterior, com 9.113 ingressos de estudantes com nota igual ou superior a 650, ante 5.615 em 2024. No resultado geral, o crescimento no período foi de 21%, passando de 31.088 para 37.653 matrículas.
“A iniciativa se faz necessária, pois o desinteresse pela carreira pode criar um apagão de professores em breve: apenas 3% dos estudantes de 15 anos afirmam querer ser professores, conforme dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa)”, pontua, em nota, o MEC, que busca estancar a histórica evasão dos cursos de licenciatura, que chega a 53% em Pedagogia e 73% em Física. Mesmo com esse cenário, é possível observar uma lenta, porém constante, evolução na procura pelo magistério. Dados do último Censo Escolar mostram que, em dez anos, o número de professores na educação básica passou de 2.184.267, em 2014, para 2.367.777, em 2024. Também é perceptível a melhora na formação: no início da série histórica, 71,8% dos docentes haviam sido graduados em licenciaturas e, em 2024, esse índice chegou a 84,8%.
O Censo da Educação Superior confirma a tendência de crescimento das licenciaturas. Há 11 anos, havia 1.465.616 alunos matriculados, quase 300 mil a menos que em 2024, quando o número chegou a 1.758.512. Em 2017, existiam 7.295 cursos na área de Educação, número que subiu para 7.859 em 2024. Pedagogia lidera tanto o número de ingressantes (4.484.251) quanto o de concluintes (1.832.378). Neste ano, o Sisu oferece 73,6 mil vagas em licenciaturas presenciais, com destaque para Ciências Biológicas, Pedagogia, Matemática, História e Geografia. A expectativa é que as inscrições cresçam ainda mais, já que o programa Mais Professores tornou-se mais conhecido entre os candidatos ao Enem. Os dados estavam previstos para divulgação na quinta-feira 29, após o fechamento desta edição de CartaCapital.
Nova profissão. Deisy Lemos decidiu trocar o jornalismo pelo magistério – Imagem: Acervo Pessoal
“A carreira de docente é a mais importante das profissões, porque por ela passam todas as outras. Dados objetivos mostram que o professor é responsável por mais de 60% da aprendizagem dos alunos. Depois de um ano de implementação do Mais Professores para o Brasil, temos um balanço muito positivo das ações até aqui”, destaca Camilo Santana, ministro da Educação. “Temos um conjunto de ações e esperamos que contribuam para uma cultura cada vez maior de valorização da profissão, para que nós não percamos nossos jovens com vocação e estimulemos os estudantes a cursar licenciatura. As oportunidades estão aí”, acrescenta o ministro, reforçando que, para este ano, o Pé-de-Meia Licenciatura deve distribuir 12 mil bolsas.
O Mais Professores também criou a Prova Nacional Docente, destinada a subsidiar estados, municípios e o Distrito Federal nos processos de seleção e ingresso no magistério, além de oferecer uma bolsa específica para incentivar professores a atuarem em regiões e áreas de conhecimento com carência de docentes. Segundo o MEC, em torno de 33% das vagas da educação básica não têm professores com formação adequada à disciplina que lecionam, com maior incidência no Norte e Nordeste, especialmente nas áreas rurais, onde apenas 30,3% dos docentes dessas séries possuem a formação apropriada. O programa também prevê formação continuada e benefícios, em parceria com outros ministérios e órgãos públicos. Todos os anos, o ministério premia professores de escolas com melhor desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) com computadores, tablets e outros equipamentos.
Mensagem no celular. Estudantes com elevado desempenho no Enem receberam convites para ingressar em cursos de formação docente – Imagem: Luis Fortes/MEC e Arquivo/MEC
Como forma de estimular a formação continuada, o Mais Professores oferece bolsas de 2,1 mil reais durante 24 meses para quem fizer curso de especialização. O benefício é destinado a graduados em licenciatura ou em curso de formação pedagógica reconhecido pelo MEC, em área de conhecimento voltada às etapas e modalidades da educação básica. Para ter direito, o bolsista precisa estar vinculado à rede de ensino e o curso escolhido deve ter prática pedagógica como foco, integrando teoria e prática docente.
O governo também aposta na valorização do piso nacional do magistério para atrair mais pessoas à carreira. Na quinta-feira 22, o presidente Lula assinou uma Medida Provisória concedendo um reajuste acima da inflação e do previsto em lei. Com aumento de 5,4%, o piso passou para 5,1 mil reais, 300 reais a mais que o anterior. A legislação obrigava reajuste de apenas 18 reais.
“O professor é responsável por mais de 60% da aprendizagem dos alunos”, diz Camilo Santana
“Além do piso nacional, outro atrativo é a carga horária. Você faz um concurso de 200 horas, trabalha quatro horas diárias, e o governo remunera pela aula-atividade, o extraclasse. Também há a gratificação por titulação, concedida por muitas prefeituras a quem tem pós-graduação”, ressalta a jornalista Deyse Lemos, que está mudando de profissão e investindo na carreira de docente. Recém-formada em Pedagogia, ela foi aprovada em um concurso e acabou de ser empossada como professora da Educação Infantil na prefeitura de Belo Jardim, no Agreste de Pernambuco. “Faz 20 anos que me formei em Jornalismo e, desde que entrei na faculdade, muita coisa mudou – para pior. Essa realidade me fez repensar minha trajetória. Então resolvi colocar em prática algo que já estava dentro de mim: ser professora”, explica.
Eduarda Nunes também descobriu sua vocação para o magistério. Ela já cursa Pedagogia em uma faculdade particular, mas deseja ser professora de Português. Fez o Enem novamente, obteve 540 pontos e espera ingressar em uma universidade pública no curso de Letras. “Eu amo a área da educação e a possibilidade de trabalhar com crianças. Para mim, é gratificante acompanhar uma fase tão importante da vida delas. Nasci para ser professora”, diz.

Fátima Silva, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), reconhece os esforços do governo para resgatar a carreira do magistério, mas afirma que eles ainda não garantem a valorização do professor. “Essas políticas são fundamentais, mas não bastam. É preciso uma carreira que ofereça condições de trabalho, com concurso público, pagamento do piso desde o início da profissão e perspectiva para que os jovens permaneçam integralmente em sala de aula até a aposentadoria. O mercado é muito precarizado: 54% dos profissionais da educação básica da rede estadual têm contratos temporários”, lamenta a sindicalista. “Muitas redes municipais exigem formação em Pedagogia para contratar professoras da educação infantil, mas usam subterfúgios para não cumprir o piso, atribuindo funções com outras nomenclaturas. Já identificamos 54 cargos diferentes, como ‘monitor escolar’ e ‘auxiliar de educação’, para pagar remunerações bem abaixo do piso. É necessário estruturar uma carreira com início, meio e fim.”
Recém-formado em História pela UFPE, João Calheiros está de malas prontas para o Rio de Janeiro, onde vai cursar o mestrado em História Contemporânea na UFF. Já deu aula em cursinhos populares, mas quer investir na carreira de professor universitário. “A carreira de magistério ainda não é uma das mais atrativas, infelizmente. Se eu tivesse a caneta na mão, investiria em políticas públicas mais estruturantes voltadas para a educação, porque é isso que garante o desenvolvimento saudável, equilibrado e de qualidade de uma sociedade”, salienta Calheiros. Ele completa: “A educação foi completamente sucateada com o enfraquecimento da hora-aula. O professor, assim como os profissionais da saúde e da segurança pública, contribui para a estabilidade do País e para a formação de futuras gerações. É preciso um maior reconhecimento da profissão e um plano de carreira que torne de fato interessante ser professor”. •
Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Alvo estratégico’
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