Política

Ministro da Justiça coloca a Lava Jato no palanque eleitoral

Alexandre de Moraes antecipa operação durante ato de campanha para o PSDB e desperta a ira de Temer

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A Operação Lava Jato chegou aos palanques na última semana das eleições municipais. Na noite de domingo 25, o ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, usou informações sigilosas a respeito do andamento das investigações para fazer campanha para seu partido, o PSDB, no interior de São Paulo.

“Teve a semana passada e esta semana vai ter mais, podem ficar tranquilos. Quando vocês virem esta semana, vão se lembrar de mim”, afirmou o ministro em conversa com integrantes do “Movimento Brasil Limpo”, um dos que liderou as manifestações a favor do impeachment de Dilma Rousseff em 2015 e 2016. 

Não demorou para a “profecia” de Moraes virar verdade. Nesta segunda-feira 26, a força-tarefa da Lava Jato realizou a 35ª fase da operação, que teve como alvo o ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil Antonio Palocci, acusado de receber propina da Odebrecht em troca de favores à empreiteira. 

Chama a atenção o fato de Moraes ter dito a frase em Ribeirão Preto, município paulista que é a base eleitoral de Palocci, ex-prefeito e ex-deputado federal. O ministro da Justiça estava na cidade para fazer campanha para o atual deputado federal Duarte Nogueira (PSDB), segundo colocados nas pesquisas.

A conversa foi publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo e seu conteúdo foi confirmado pelo Ministério da Justiça. A assessoria do ministro atribuiu a frase a uma “força de expressão” usada por Moraes. Em nota, a pasta elaborou a explicação: Moraes estava dizendo apenas que há ações da Lava Jato “em quase todas as semanas” e que “certamente continuariam nesta semana, na próxima e enquanto houver necessidade”, diz o texto.

A explicação, entretanto, não convenceu. Parece evidente que Moraes rompeu o sigilo das investigações para fazer campanha política, causando constrangimento ao Palácio do Planalto e à Polícia Federal, por sugerir que o Executivo tem poder de influência sobre o andamento das ações da PF.

Nesta segunda, na abertura da entrevista coletiva sobre a operação, o delegado da Polícia Federal Igor Romário de Paula leu nota oficial na qual nega que a instituição tenha passado informações a Alexandre de Moraes. Ele informou, entretanto, que o ministro da Justiça é alertado sobre a possibilidade de ser acionado em caso de operações significativas.

Como foi amplamente demonstrado em operações anteriores, o Ministério da Justiça não é avisado com antecedência sobre operações especiais”, afirmou de Paula. “No entanto, é sugerido ao seu titular que não se ausente de Brasília nos casos que possam demandar sua atuação”, disse.

De acordo com o jornal Folha de S.Paulo, o Planalto avalia que Moraes usou uma informação privilegiada durante evento público ou, ainda que não soubesse da operação, usou a Lava Jato politicamente na campanha eleitoral. Michel Temer estaria, segundo o jornal, irritado com Moraes e aguardando explicações do ministro. Temer teme as críticas de que seu governo usa politicamente a Lava Jato.

Eugênio Aragão, ex-ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff, afirmou que Moraes “é um incapaz ou é irresponsável”. “Incapaz porque estaria a brincar com coisa séria. Um ministro não pode se manifestar de empolgação em campanha, entregando ao público assuntos sigilosos de sua pasta”, afirmou Aragão ao Estadão. “Ou irresponsável, porque, no momento em que vivemos, autoridades públicas não devem provocar clamores. Devem, isto sim, acalmar a população”, afirmou.

Para Aragão, a declaração de Moraes “dá margem à suspeita de que ele, governo, e a Lava Jato, estão agindo de comum acordo com finalidade política”. “Fico só imaginando se, quando ministro, eu desse uma declaração desse teor, o que aconteceria. O mundo vinha abaixo”, disse. 

No Senado, as declarações de Moraes provocaram indignação e acusações de “uso político” da Polícia FederalVanessa Grazziotin (PCdoB) quer que o ministro da Justiça esclareça à Comissão de Constituição e Justiça para explicar a declaração que antecipou ação contra Palocci.

CartaCapital
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