Política
Acordo por gás de Vaca Muerta vai na contramão de discurso do governo Lula, apontam ambientalistas
Método de extração usado na Argentina é um dos mais nocivos ambientalmente
A decisão do governo Lula (PT) de assinar um acordo bilateral com a Argentina importar gás natural da região de Vaca Muerta, no país vizinho, tem gerado críticas de entidades ambientalistas devido ao impacto do tipo de extração que precisa ser feita na região.
O gás natural de Vaca Muerta precisa ser retirado por meio do fraturamento hidráulico ou fracking, que consiste em perfurar o solo em profundidades que podem chegar a 3,2 km, injetar água e solventes químicos comprimidos nas rochas, gerando explosões que as fragmentam. Depois, é colocada areia nos vãos para facilitar a saída do gás ou petróleo.
Ilan Zugman, diretor da ONG 350.org na América Latina, que integra o Observatório do Clima, aponta que esse método é um dos mais nocivos ambientalmente. “O fracking utiliza grandes quantidades de água e um coquetel de produtos químicos que podem contaminar o solo e as águas subterrâneas, além de liberar metano, um gás extremamente potente para o aquecimento global”, explicou.
Ele lembra que o Brasil tem buscado se posicionar como líder na transição energética, com iniciativas como a organização da COP30 e sua atuação no G20 e nos Brics. No entanto, a importação de gás de Vaca Muerta enfraquece esse discurso. “O Brasil, ao reduzir o desmatamento, manda um sinal importante. Já ao querer expandir a sua produção e queima de petróleo e gás é um exemplo totalmente contrário ao que deveria ser feito”, afirmou Zugman.
Em 2025, o Brasil vai sediar a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), o principal fórum mundial para discutir mudanças climáticas e caminhos para uma economia mais sustentável. Uma das principais bandeiras da política externa do presidente Lula é posicionar o Brasil como uma liderança nas negociações sobre mudanças climáticas e sustentabilidade global.
Vaca Muerta, entretanto, representa uma sinalização contrária a forma como o país quer se vender para o mundo. “Vai totalmente na contramão do que um país que está com um discurso que o Brasil está hoje. Deveria estar transformando esse discurso em ações”, disse a CartaCapital.
Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), reforça as críticas. Ele alerta que o fraturamento hidráulico tem sido condenado internacionalmente por seus impactos irreversíveis, incluindo o aumento da instabilidade do solo, o que pode causar eventos sísmicos, e a liberação de gases de efeito estufa. “Ao final, o gás é queimado, agravando ainda mais as emissões brasileiras de gases de efeito estufa”, disse.
A Proam, inclusive, enviou um ofício no começo do mês alertando para os riscos da importação e pedindo que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), principal fiador da operação, não use dinheiro público para financiar esse tipo de projeto.
Uso de “fracking” na região de Vaca Muerta, na Argentina. Foto: Observatorio Petrolero Sur/Reprodução
No começo deste ano, antes mesmo da assinatura do acordo com a Argentina, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, reconheceu que o fracking tem impactos ambientais, mas defende que o Brasil ao menos analise a possibilidade de autorizar a atividade, que hoje não é explorada.
“Defendo que esse tema tem que voltar a ser discutido no Brasil. Tem impactos ambientais, mas, em algumas regiões do país, são passíveis de serem compensados ambientalmente. É simples: 82% do gás americano é gás de fracking, 70% do gás argentino. Por que o Brasil é diferente?”, questionou.
Mais empregos?
A principal justificativa de Silveira para a operação é a geração de empregos e a reindustrialização do país. “Ao concretizar a importação do gás de Vaca Muerta, estamos fortalecendo o desenvolvimento das indústrias de fertilizantes, vidro, cerâmica, petroquímicos e tantas outras que trazem desenvolvimento econômico ao Brasil. Teremos mais gás, e junto com ele mais emprego, renda e riqueza para brasileiras e brasileiros”, disse à época do anúncio do acordo.
Essa lógica, entretanto, é questionada. Ilan justifica que o Brasil deveria apostar em alternativas mais sustentáveis para reduzir sua dependência de gás importado. “É uma iniciativa que tem o potencial de gerar empregos e desenvolver a indústria brasileira, mas é a escolha certa para o momento em que as energias renováveis, como a solar ou eólica, também tem potencial?”, questiona.
“O Brasil tem que fazer essa escolha de sair de cima do muro e decidir se vai ser o país que vai querer seguir com o petróleo, gás e carvão ou é o país que realmente vai ser uma das principais potências na transição energética e liderar pelo exemplo”, completou.
Já Bocuhy afirmou que o esse estímulo resulta em crescimento e não desenvolvimento. “Se as contas forem feitas adequadamente, há de se pesar as consequências. Vide os desastres ambientais que vêm assolando o Rio Grande do Sul a um custo altíssimo”, afirmou.
“O investimento brasileiro atual está centrado nos fósseis. O gás de petróleo não é gás ‘natural’ como defendem as petroleiras, é gás fóssil que contribui fortemente para o aquecimento global. Na pior das hipóteses, o que é impensável nos tempos climáticos atuais, o pré-sal possui enormes reservas de gás, mas extrair e lançar na atmosfera como gás efeito estufa, nos tempos atuais, é uma estupidez”, completou.
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