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A universidade sitiada

A extrema-direita e o desmonte da utopia latino-americana

A universidade sitiada
A universidade sitiada
Dilema. Os alunos se veem espremidos entre o ensino como bem público e o discurso de seu caráter “operacional” – Imagem: Carol Mendonça/Coletivo Educação em Primeiro Lugar
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A recente greve nas universidades paulistas não diz respeito apenas à discrepância do tratamento entre docentes e servidores, à necessidade de fortalecimento de políticas de permanência estudantil e à atua­ção contra um projeto de desmonte das instituições públicas. Embora sejam elementos centrais, parece estar em disputa o significado histórico da universidade pública brasileira, sobretudo em um contexto eleitoral que coloca em debate concepções de país e sociedade.

Esse modelo de universidade, em parte concebido como motor de um projeto de transformação social, voltada à formação cidadã, produção de conhecimento crítico e de democratização do saber, parece atravessar um processo acelerado de esvaziamento de sua função social. Vivemos uma transformação estrutural ampla, marcada tanto pelo aumento de pressão por produtividade, na esteira da plataformização da educação e pela financeirização do ensino superior quanto pelo declínio da própria legitimidade cultural da universidade diante das novas gerações.

As declarações do ex-jogador Túlio Maravilha vocalizam um movimento crescente entre as classes altas e determinados recortes do campo ideológico-político de que as universidades se tornaram espaços de doutrinação esquerdista e degradação moral. Essa versão foi cuidadosamente difundida e alimentada no Brasil desde os anos 1080, com o Instituto Liberal, passando pelo Instituto Millenium, Instituto Mises Brasil e Instituto ­Rothbard até os mais recentes Estudantes pela Liberdade e Movimento Brasil Livre (MBL), encontrando seu auge com a produção de propaganda ideológica por meio da midiosfera extremista, o Brasil Paralelo. O discurso desses think thanks liberais foi desde o início pautado pela ideia de que as instituições públicas são antros de penetração da ideologia de esquerda, favoráveis ao funcionalismo público e ao fortalecimento do Estado, e, portanto, contrários às formas de empreendedorismo típicas do pensamento liberal.

Aqui podemos entender como as coisas se conectam no cenário atual, marcado por um acirramento ideológico que coloca em tensão o lugar da universidade em diferentes projetos de nação, inserindo as greves paulistas em um conflito mais amplo e que envolve duas concepções incompatíveis de universidade. Não por acaso, a radicalização desse conflito e a crítica das elites brasileiras ao modelo universitário público vigente se amplificam em um contexto de transformação radical de quem acessa as universidades, que deixam de ser local privilegiado das elites político-econômicas. Os dados levantados pelo CEDRA mostram que, combinado com a expansão do número de vagas – fruto do Reuni e da Lei de Cotas –, hoje a maioria das matrículas é de jovens negros.

O processo de deslegitimação das instituições de ensino superior no contexto da transformação de seu sentido público e democrático explicita a forma como o racismo opera na sociedade brasileira e expõe as fissuras do mito da democracia racial. Como parte de projetos ­político-ideo­lógicos, o ataque às universidades consolida-se como um dos elementos da crise democrática contemporânea.

Parece haver um esvaziamento da função social do modelo

De um lado, temos a universidade entendida como bem público, espaço de formação cidadã e de produção de pensamento crítico. De outro, a universidade “operacional”, convertida em prestadora de serviços, integrada à lógica neoliberal da plataformização, orientada por métricas produtivistas e dependentes de infraestruturas privadas de tecnologia. Nessa segunda perspectiva, relacionada à reorganização global do capitalismo digital, a dinâmica interna da universidade passa a ser reinterpretada em uma lógica na qual não apenas o papel do corpo universitário é avaliado quase exclusivamente por métricas de produtividade, mas os espaços de convivência e coletividade são progressivamente reduzidos ou esvaziados.

Essa divisão não é necessariamente uma novidade. Segundo Maria Fávero, a criação da universidade brasileira foi deliberadamente postergada como estratégia de controle sobre o acesso ao saber e à formação técnica e intelectual. Em contraposição a esse projeto, ­Naomar ­Almeida e Luis Eugenio de Souza pensam a universidade como uma protopia, uma instituição capaz de se constituir como espaço socialmente referenciado e comprometido com um desenvolvimento soberano, inclusivo e sustentável. Diante do modelo neoliberal e autoritário, afirma-se, portanto, a urgência de uma alternativa democrático-popular.

Em 1973, Darcy Ribeiro propôs uma “universidade revolucionária”, também chamada de “universidade necessária”, democrática e de massa, comprometida com as necessidades do povo latino-americano, em contraposição à universidade conivente com os interesses das elites econômicas e tradicionalmente conservadora. Mais de 50 anos depois, sua utopia permanece referência indispensável para pensar uma universidade que se afirme como instrumento de transformação radical da sociedade.

Na América Latina, a construção de uma universidade democrática, a serviço das necessidades do povo e comprometida com os problemas regionais, é reivindicação histórica dos estudantes. Em 1918, estas eram demandas em ­Córdoba: cogoverno estudantil, reconfiguração da estrutura docente de cátedras, autonomia e democracia universitária, acesso gratuito e ampliado a demais setores da população. Da mesma forma, estudantes em greve em 2026, tal como em 1918, lutam por uma universidade fundamentalmente democrática, inclusiva e comprometida com os problemas sociais. E criticam decisões autoritárias que excluem a comunidade acadêmica dos processos deliberativos e ferem os princípios da autonomia.

A universidade latino-americana defendida por estudantes se contrapõe ao projeto universitário neoliberal e da extrema-direita brasileira, que carrega valores historicamente elitistas, racistas, patriarcais e heteronormativos, além de se entender como espaço de privilégio a serviço de demandas do mercado e do capital, e que reproduz acriticamente os paradigmas epistêmicos do Norte Global. •


*Anna Luiza Coli, Diego de Menezes e Stella Ferreira Gontijo são bolsistas de pós-doutorado da Cátedra (IEAT/UFMG); Gabriel Avritzer é bolsista de Iniciação Científica da Cátedra (IEAT/UFMG). Este artigo não reflete a opinião do IEAT ou da UFMG. para contato: catedraieatdarcyribeiro@gmail.com

Publicado na edição n° 1416 de CartaCapital, em 10 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘A universidade sitiada’

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