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A trajetória de Marisa Letícia

por Rui Daher publicado 07/02/2017 11h50
Por que alguém com a história dela não poderia chegar ao Planalto?
Heinrich Aikawa / Instituto Lula
Lula e Marisa

Lula e Marisa

A minha geração e as que vieram depois se acostumaram a enxergar a região do ABCD paulista como um grande parque industrial. E é. Nem tanto quando você inclui Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. Ali se estará descendo para o litoral, à Baixada Santista, a encontrar hortaliças, bananas, chácaras de flores e plantas ornamentais, plantações de cogumelos, algum extrativismo.

A região foi colonizada pouco antes de São Paulo de Piratininga. Em 1550, os padres jesuítas estabeleceram Santo André da Borda do Campo. Três anos depois, João Ramalho casou-se com Bartira, filha de Tibiriçá, cacique dos índios Guaianases e fundou São Bernardo do Campo. Durou pouco. Em sete anos, a população foi transferida para São Paulo, restando uma grande sesmaria, doada aos monges beneditinos, que lá estabeleceram duas grandes fazendas, a São Caetano e a São Bernardo, assim permanecendo até 1717.

A proeminência voltou a São Bernardo do Campo com o movimento do porto para o planalto através da estrada geral de Santos. Voltou a decair quando, em 1867, a São Paulo Railway levou para o Bairro Estação, em Santo André, grande parte do tráfego vindo do porto, o que fez da última, em 1910, passar a sede do município, e São Bernardo só voltar a ser emancipada em 1944, por obra do prefeito Wallace Cochrane Simonsen, junto ao governador Adhemar de Barros.

Parece história muito antiga? Por que falo nisso? Durante quatro séculos o atual ABC foi serra, campo de plantios e meio de passagem do porto até a capital e o interior do estado de São Paulo. Havia fazendas, sítios, chácaras, produção agrícola e criação pecuária.

Voltemos algumas décadas. Em 1877, desembarcaram em Santos o casal Giuseppe Casa e Rosa Pierina Casa. Trazem os filhos Giovanni, Ernesto, Letícia e Hermínio Luigi. Provenientes de Bérgamo, norte da Itália, os italianos vieram para São Bernardo do Campo onde receberam uma grande colônia que ficava onde hoje estão os bairros dos Casa, Jardim Ypê, Jardim Cláudia, Jardim Lavínia, Parque Espacial e Vila Vitória.

Todos foram trabalhar na lavoura. Como imigrantes, tinham direito a ajuda para alimentação e material para construírem uma casa. D. Pedro 2º era imperador e outorgou a cessão das glebas com aquiescência dos índios nativos que ali habitavam.

A prole foi nascendo, crescendo, alguns morrendo, entre alegrias e tragédias.

Letícia Casa se casou com um francês da família Seychard, mudou-se para Bauru, e não teve filhos. Seu sobrinho, Antonio José Casa, colocou o nome da tia em uma de suas filhas, Marisa Letícia Casa.

Lombardos, os Casa vieram da comuna Palazzago, província de Bergamo, onde se dedicavam às atividades leiteiras, vinícolas e de extração de trufas. Praticavam pequena agricultura e criação. Nesse ambiente de transição foi que nasceu, em abril de 1950, a menina Marisa Letícia.

Até os cinco anos, ajudou o pai e os 10 irmãos no trabalho do sítio. Para os que não paravam em Santos a trabalhar na estiva dos portos, a regra era ver o mar virar sertão e nele semear.

Somente entre 1950 e 1960, lá se decide implantar o maior parque industrial automobilístico brasileiro. As zonas rurais ficam ainda mais reduzidas a poucos bairros na Serra do Mar, separadas pela Represa Billings. A agricultura e a pecuária passam a ser insignificantes na região, com poucas chácaras e sítios, produzindo hortaliças, flores, bananas, cogumelos e criações de cabras leiteiras para a fabricação de queijos.

O período entre a criação da indústria automobilística e o atual foi de célere urbanização, permitida pela arrecadação dos municípios e a ascensão social dos industriários. No entanto, ainda é comum ver famílias tradicionais da época da imigração mais recente, atraída pela fartura da oferta de empregos na indústria, mantendo chácaras, vilas, sítios para moradia. Sou amigo da família Brasizza, em Santo André, e sei disso.  

Aos 9 anos, Marisa foi tomar conta de duas meninas, pouco mais velhas do que ela. Mais tarde, trabalhou 13 anos na seção de embalagem das Balas Dulcora. Casou-se com um taxista, assassinado 6 meses depois, ela grávida do filho Marcos.

Em 1973, conheceu Lula no sindicato e o que veio depois vocês já sabem.

Hoje em dia, São Bernardo do Campo tem perto de 900 mil habitantes. Santo André 750 mil, São Caetano 180 mil e Diadema 450 mil. Agregando as gracinhas no topo da Serra são quase dois milhões e meio de pessoas, com características paulistas e imigrantes parecidas.

Por que com essa história, dona Marisa Letícia Casa Lula da Silva não poderia chegar ao Palácio do Planalto, plantar uma estrela no jardim e promover uma festa junina?

*Nota: as informações sobre a família Casa foram obtidas aqui

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