Política

A quem interessam as ‘denúncias’ do PCO contra Boulos?

Teria o PCO atuado, para usar uma expressão desgastada da militância, como correia de transmissão de interesses eleitorais inconfessos?

 Foto: Reprodução
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A defesa de teses exóticas e a imitação folclórica do jornalismo tornaram o Causa Operária, publicação do PCO, e o presidente do partido, Rui Costa Pimenta, em anedota. A esta altura, as posições da legenda e do dirigente são recebidas no campo progressista com perplexidade ou desdém – raramente com indignação, nunca com seriedade. As “denúncias” contra Guilherme Boulos publicadas recentemente reforçaram, em grande medida, essa impressão.

O Causa Operária acusa, em linhas gerais, o pré-candidato do PSOL ao governo paulista de ser financiado por um agente infiltrado da CIA, o advogado Walfrido Warde Júnior, presidente do Instituto para a Reforma das Relações entre Estado e Empresas. Detalhe: a amizade entre Boulos e Warde é de conhecimento até das árvores do Parque do Ibirapuera e mereceu relato detalhado na Veja São Paulo em 2020, quando o psolista foi ao segundo turno na eleição à prefeitura de São Paulo. Os intrépidos jornalistas do PCO chegaram ao assunto com atraso.

Certas coincidências e omissões da “reportagem” não passaram, no entanto, despercebidas. Para começar, o Causa Operária levantou o assunto dias depois de a colunista Mônica Bergamo, da Folha de S. Paulo, anunciar as negociações para o advogado Silvio Almeida ocupar a vaga de vice de Boulos ao governo do estado. A possível chapa incomoda o PT paulista, que enxerga no psolista um obstáculo à candidatura de Fernando Haddad. Não bastasse, houve quem estranhasse o fato de o jornal do PCO, tão minucioso ao descrever as relações de Warde no mundo político, ter se esquecido de citar a proximidade do advogado com petistas célebres, entre eles a ex-presidente Dilma Rousseff. Registre-se que a presidente do partido, Gleisi Hoffmann, fez questão de prestar solidariedade a Boulos e criticar o que considera “fake news” da esquerda.

Teria o PCO atuado, para usar uma expressão desgastada da militância, como correia de transmissão de interesses eleitorais inconfessos? Uma ala do PT paulista com bastante autonomia operacional considera que o coordenador do MTST, embora competitivo na corrida estadual, tem a obrigação de abdicar de seus planos em favor de Haddad, simplesmente por que assim desejam os maiorais.

Boulos e Haddad disputam o mesmo eleitorado. Para vencer resistências no interior, com eleitores em tese mais reacionários do que na capital, os dois participam de caravanas pelo estado. Durante as viagens, reúnem as respectivas militâncias e recolhem sugestões para os programas de governo. Ao mesmo tempo, não lhe falta consciência da necessidade de uma frente ampla progressista diante de uma rara chance de derrotar de uma só tacada o bolsonarismo e o tucanato em São Paulo. Boulos nunca escondeu a disposição de negociar. Mas um certo submundo dito de esquerda parece preferir a vendeta. Talvez seja uma questão de hábito.

Haddad responde

Fui brindado a pouco com um telefonema do ex-prefeito e ex-ministro. Haddad refutou o teor do texto e disse que ninguém no PT paulista compactua com os ataques a Boulos. Segundo ele, um comportamento dessa natureza motivaria a expulsão dos envolvidos. Lembrou que, além de Gleisi Hoffmann, o presidente do diretório estadual, Luiz Marinho, prestou solidariedade ao pré-candidato do PSOL em um evento público no sábado 6.

Sergio Lirio

Sergio Lirio Redator-chefe da revista CartaCapital

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