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A pandemia acabou?

O Brasil, como outros países, ignora os ainda presentes riscos da Covid-19

À espreita. As vacinas reduziram os casos graves, mas não eliminaram o vírus. Além disso, os efeitos prolongados em infectados não cessaram – Imagem: Breno Esaki/GOVDF
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Acho que fui deputado/Acho que tudo acabou/Quase que já não me lembro de nada/Vida veio e me levou.

Os versos de O Velho Francisco, de Chico Buarque, invariavelmente me vêm à mente quando ouço de amigos: “Não sei se já lhe contei isso antes, porque minha memória, depois da Covid, está muito ruim”, ou “Depois da Covid, perdi a noção de quando as coisas aconteceram”. Rosana Hermann, física, roteirista, escritora, escreveu em janeiro: “Como você tá de memória? Sempre fui boa. Fui. Pós-Covid não sou mais”.

Casos de perda parcial da própria constitutividade são os eventos leves de Covid longa, mas há incontáveis pacientes a viver com sequelas incapacitantes. Digo incontáveis, pois o Brasil não conta mesmo. Há aqueles que desenvolveram diabetes, desordens gastrointestinais, infertilidade, cansaço crônico, há também os que tiveram problemas cardíacos e pulmonares e nem sequer cogitam de relacionar com infecção prévia, por se tratar de uma nova síndrome de mecanismos ainda por serem desvendados.

O jornal britânico The Guardian reve­lou o caso da brilhante astrônoma Katherine Heymans, no artigo “The Dark Universe: Can a Scientist Battling Long Covid Unlock the Mysteries of the Cosmos?” Heymans é uma mente genial, cujos estudos são promissores a ponto de terem o potencial de mudar o entendimento até então consagrado sobre o universo e sobre algumas leis da física. A cientista e sua família contraí­ram Covid-19 no começo de 2022. Os familiares se recuperaram, mas a saúde­ de Heymans se deteriora desde então. Para continuar sua revolução da ciência, a astrônoma tem feito turnos de meia hora de estudos com longos intervalos para descanso, deixando lembretes sobre o que estava fazendo, para poder se recordar de onde parou.

A meu ver, estamos longe de poder afirmar que haja no mundo um país a abordar de forma adequada a pandemia e suas consequências nas diversas esferas. Mas receio que no Brasil prevaleça no ar alguma indiferença cínica quanto ao tema, na melhor das hipóteses. O mais provável é que estejamos revivendo o negacionismo, o anticientificismo que tanto combatemos e que nos habituamos, com razão, a chamar de política genocida.

Estaríamos a reviver o negacionismo que tanto combatemos nos últimos anos?

As escassas campanhas estão limitadas a um reducionismo perigosíssimo, a uma simplificação cientificamente imprecisa, de que as vacinas são a melhor forma de proteção. Recentemente, houve a campanha “Vacina É Vida”, encampada pelo presidente Lula. Ante a omissão das autoridades de saúde quanto aos riscos da Covid Longa, quanto aos riscos das múltiplas reinfecções, tratadas por cientistas como “roleta-russa” – porque, ao contrário de construírem imunidade contra o vírus, agridem o sistema imunológico –, e quanto às limitações da efetividade das vacinas até então disponíveis, é legítimo nos perguntarmos: melhor forma de proteção contra o quê?

De fato, estudos e a própria realidade mostram de forma conclusiva que as vacinas tendem a proteger contra a forma grave da doença na fase aguda. Mortes e hospitalizações foram sensivelmente reduzidas, embora não erradicadas. A Covid-19 ainda é uma das causas de morte das mais relevantes na fase aguda, figurando dentre as principais no País. Pouco se sabe, no entanto, da eficácia da proteção das vacinas ao longo do tempo. Também não se sabe ao certo o intervalo ideal entre as doses, e há incerteza se há, de fato, relevante efeito protetivo contra o desenvolvimento de Covid Longa. Há também sempre o risco do surgimento de novas variantes com grande escape imunológico, a exemplo da BA.2.86.

A insuficiência de respostas às dúvidas também é um dado científico relevante que deveria conduzir políticas e pautar discursos oficiais segundo o princípio da precaução. Em vista do muito que não se sabe ao certo, a prevenção a infecções deveria ser a resposta primordial, com investimento em campanhas ostensivas pelas medidas que têm maior potencial de prevenção. A transparência quanto à ausência de respostas científicas não se confunde com desinformação. A ciência sempre terá lacunas e pontos cegos. Mas a omissão quanto ao que não se sabe, permitindo que os indivíduos se sintam seguros onde não há segurança em absoluto, isto, sim, é desinformação.

Dados robustos indicam que, para ao menos 10% dos infectados (de 10% a 30%, a depender do estudo), talvez as vacinas estejam longe de ser eficazes contra sequelas. Dessa forma, deixa de fazer sentido a distinção entre proteção contra a doença e proteção contra infecção. É necessário que se ressalte, com clareza, precisão e transparência, que o que se tem certeza até o momento é que vacinas reduzem – e não erradicam – complicações na fase aguda.

Oficialmente, não se fala, porém, em medidas de prevenção a infecções, passando a impressão enganosa à população de que as infecções e reinfecções são inofensivas após o advento das vacinas. Não há campanhas que esclareçam sobre a importância da ventilação, da filtragem de ar, do uso correto de respiradores adequados. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, o Ministério da Saúde e outros órgãos ainda têm em seus materiais recomendações defasadas de higienização das mãos e de superfícies, e não esclarecem para a insuficiência da máscara cirúrgica, notadamente em ambientes hospitalares.

Veem-se artistas, jornalistas, e personalidades referindo-se ao período atual como pós-pandêmico. Vimos recentemente pessoas esclarecidíssimas, manifestarem surpresa com a volta do vírus, que nunca parou de circular e de fazer vítimas. Importantes figuras da saúde não têm esclarecido suficientemente que o uso de respiradores protege os mais vulneráveis, incluindo recém-nascidos, idosos e pessoas com deficiências.

A desinformação entre figuras públicas sinaliza falhas na comunicação das autoridades de saúde. Em julho, o Presidente Lula declarou nas redes sociais que a pandemia havia passado, um comentário que não recebeu críticas significativas nem da ministra da Saúde nem de cientistas populares. Essa falta de coerência se estendeu às políticas de vacinação, onde inicialmente apenas grupos de risco receberiam doses de reforço, limitando a estratégia coletiva de mitigação.

A coerência na mensagem governamental é essencial para promover a vacinação. Contradições como as do Presidente Lula, que antes criticava a falta de transparência durante a pandemia, agora contribuem para a desinformação.

Passamos da hora de termos de falar séria e comprometidamente sobre medidas que coloquem um fim de fato à pandemia. Não podemos acabar com a pandemia deixando de produzir números, minimizando riscos, amenizando discursos. Não podemos admitir que um presidente abuse de seu inegável carisma popular para transmitir à população uma falsa sensação de segurança. Seu papel na persistente pandemia, presidente Lula, é o de conduzir a sociedade e as instituições para um pacto de empatia e de respeito, notadamente pelos que menos têm condições de se proteger, porque não há proteção individual que seja suficiente, e não há saída para a pandemia sem adoção e adesão a medidas coletivas e não farmacológicas de prevenção. •


*Advogada e orientadora no Departamento Jurídico XI de Agosto da Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Uma versão condensada deste texto foi publicada na edição n° 1288 de CartaCapital, em 06 de dezembro de 2023.

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