Política

Sem Terra

"A liberdade de Lula é a nossa liberdade"

por René Ruschel, de Curitiba — publicado 10/05/2017 09h47
Trabalhadores do MST se mobilizam em Curitiba em defesa do ex-presidente, que responde uma acusação de corrupção
Fotos: René Ruschel
MST Lula Curitiba

Suzane e Adílson: engajados na luta dos sem-terra

Prevaleceu o bom senso. Um acordo firmado entre a Frente Brasil Popular e a Secretaria da Segurança Pública do Paraná permitiu que as caravanas que chegaram na terça-feira 9 a Curitiba para acompanhar o depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva permaneçam acampadas em uma área próximo ao centro da capital paranaense. O terreno pertence à União, mas encontra-se arrendado a uma empresa privada.

A Justiça Federal concedeu a reintegração de posse da área, mas permitiu que os manifestantes fiquem no local até a manhã de quinta-feira 11. No final da tarde de terça, cerca de 3 mil manifestantes, na sua maioria integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), ocupavam o local. O ambiente era de total tranquilidade, embora carros da Policia Militar circulassem pelas ruas e um helicóptero sobrevoasse a área. Mas nada abalava os militantes.

Branca dos Santos, que se nega a contar a idade, estava entre os militantes. Filha de agricultores vítimas da geada de 1975 que arrasou os cafezais do Paraná, viveu em Suzano (SP), onde o pai foi operário de uma indústria química. Ao se aposentar, resolveu voltar às raízes. “Meu pai era um homem do campo. Não queria viver na cidade grande e retornou ao Paraná”.

Em 2014, foi passar o aniversário em Rio Bonito do Iguaçu, uma pequena cidade na região central do Estado, a 380 quilômetros de Curitiba, quando conheceu o MST. “Meu pai era acampado. Eu nunca tinha ido até a lá, mas quando vi a liberdade das crianças no campo e conheci a luta dos trabalhadores pela terra, resolvi ficar. Ali era o meu lugar”. Filha do êxodo rural com raízes no campesinato, Santos queria resgatar parte da história de seus pais.  

Desde então, ela engrossa as estatísticas das 1,3 mil famílias, cerca de 7 mil pessoas, que vivem no acampamento Herdeiros da Terra – 1º de Maio. Deixou a pequena casa que morava e o emprego de garçonete. “Entre viver em uma casa que era um corredor, aprisionada por três cadeados para se esconder da violência, preferi a liberdade para ver meu filho de 7 anos, completados ontem, correr livre” afirmou.

“Vim a Curitiba para mostrar que nós, os trabalhadores sem-terra, vamos lutar por nossa causa. Lula faz parte dessa estratégia. Sua liberdade é a nossa liberdade. Queremos um governo com compromissos populares. Estamos junto nessa caminhada” afirmou.

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Queremos um governo com compromissos populares, diz Branca dos Santos

É grande a presença de jovens entre os manifestantes acampados. Suzane Silva, 23 anos, de Vitória do Santo Antão (PE), estudante do último ano de enfermagem na Universidade Federal de Pernambuco, veio a Curitiba para participar da manifestação. O namorado, Adilson Matos, 26 anos, graduado em Licenciatura em Educação do Campo pela Universidade do Oeste do Paraná, é coordenador da Escola Milton Santos, em Maringá, norte do Paraná. Se conheceram em um treinamento na Escola Nacional Florestan Fernandes, em Guararema (SP).

Silva é filha de latifundiários. “Meu pai é um grande proprietário de terras. Minha família não aceita minha decisão. Ainda hoje recebi uma mensagem da minha mãe onde ela diz que ‘espera que eu não esteja participando dos protestos’”, afirmou. Cresceu ouvindo a versão que o movimento era um grupo de desocupados. “Era mais uma que aceitava a versão da mídia”.

O primeiro contato com a realidade dos sem-terra aconteceu num estágio da faculdade. Temerosa, foi visitar um acampamento no interior de Pernambuco como parte de seu currículo escolar. Era o projeto Vivência e Realidade do Sistema Único de Saúde (Versus). “A realidade daquela gente me chocou. Eu não tinha noção do que se passava. Sabia da importância da saúde pública, mas nunca tinha vivenciado aquele drama. Foi ali que decidi me engajar ao movimento”. Atualmente, é coordenadora do Setor de Formação do MST em Pernambuco.

Adilson Matos, o namorado, tem outra história. Conheceu na pele as agruras da vida em um acampamento aos 10 anos, quando o pai se engajou no movimento. “Pude experimentar e conheço a realidade de viver num acampamento sem as mínimas condições. Sei o que é a luta para conquistar um pedaço de terra” diz o coordenador. Agora, juntos, querem levar adiante a luta do campo pelos direitos de milhões de brasileiros.

Embora contestem e critiquem a política de reforma agrária no governo Lula – “poderia ter sido melhor” – reconhecem que seu governo foi parceiro do movimento. “Tínhamos divergências pontuais e acho que o presidente Lula poderia ter avançado mais na questão da reforma agrária. Mas agora estamos aqui para lutar por justiça, por sua liberdade”.

Se a juventude é a esperança de um futuro melhor, a experiência e a sabedoria do passado não podem ser esquecidas. No vai e vem de pessoas que transitam pelo acampamento, a professora aposentada Roseni Cabral Violin, 77 anos, chama a atenção. Passos lentos, amparada pelo filho, caminha e observa tudo o que vê. “Sempre fui muito preocupada com as questões sociais” afirmou. Na adolescência, fez parte da Juventude Estudantil Católica (JEC), um movimento ligado à Igreja Católica que teve grande importância na resistência à ditadura militar de 64.

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Roseni Violin: a juventude é a esperança

Depois, o casamento com um físico, professor da USP e os filhos, fizeram-na abandonar a militância política. “Na sala de aula, como professora, continuei engajada na discussão das questões sociais com os jovens”. Para ela, a juventude hoje perdeu um pouco daquele ímpeto de sua geração. “Às vezes penso que nossa geração falhou em alguma coisa. Mas também reconheço que os tempos são outros. Acho que o consumismo exagerado mudou o perfil da juventude. Precisam ser mais atuantes, mais ousados. Por isso estou aqui hoje. Vejo neles toda a força que necessitamos para mudar o Brasil. Sou otimista e acredito na juventude”.