A fábrica de fake news de Bia Kicis

A deputada elegeu o educador Paulo Freire como 'inimigo' e incita os alunos a perseguirem os seus próprios professores

A parlamentar hoje ocupa a presidência da CCJ da Câmara. (Foto: Redes sociais)

A parlamentar hoje ocupa a presidência da CCJ da Câmara. (Foto: Redes sociais)

Educação,Política,Sociedade

Deputada federal pelo PSL do Distrito Federal, Bia Kicis é parte da tropa de choque bolsonarista no Congresso. Atual presidente da CCJ da Câmara, é ela uma das peças-chave para o avanço das pautas de costumes no Congresso. Além de assinar o PL 3262 que descriminaliza o abandono intelectual, ela é autora do famigerado projeto do “Escola Sem Partido”.

Sua militância contra “seguidores de Paulo Freire” tem, no entanto, outros motivos além da ideologia. Ela é parente de Miguel Nagib, advogado e fundador do movimento “Escola Sem Partido”. Este, por sua vez, se justifica com uma teoria da conspiração da década de 1990, que agora virou bandeira bolsonarista. Trata-se do “marxismo cultural”, cujos defensores estariam infiltrados nas sociedades para destruir seus valores. Nagib também fez parte do Revoltados On-Line e ambos são seguidores de Olavo de Carvalho.

A deputada usa a sua máquina de fake news para deslegitimar a educação pública brasileira, incitar estudantes contra professores, espalhar mentiras contra LGBTs e financiar teorias da conspiração. “Quem disse que as crianças e jovens não aprendem nada na escola? São PhD em sacanagem. E viva Paulo Freire!”, tuitou a parlamentar em 2020.

Kicis foi ainda uma das principais articuladoras de um movimento que pedia aos alunos para filmar os seus professores em sala de aula, com o objetivo de “provar” o ensino do “marxismo cultural” na educação pública. À época, vários professores foram agredidos e uma avalanche de ataques a servidores foi registrada.
“O professor era do PÇOL?”, escreveu ao retuitar a seguinte postagem: “Em escola pública de Brasília, professor de filosofia do 1º ano do Ensino Médio planeja fazer debate sobre ‘Legalização da Maconha’ (detalhe: é proibido o uso de aparelhos eletrônicos)”.

“Para trazer a educação para o âmbito individual, longe de qualquer fiscalização da sociedade, do Estado ou de qualquer instituição, você precisa deslegitimar Paulo Freire, que coloca o princípio da educação popular como coletiva. Ele coloca muito a importância de ouvir o outro, de dialogar e se a educação que você defende não segue esses princípios, uma das formas é atacar a teoria de Freire”, explica Andréa Silveira de Souza, doutora em Ciências da Religião e pesquisadora da UFJF. “No fim, a pauta é parte de um projeto de domínio religioso-político de longo prazo. O objetivo é consolidar um sistema de vida que pressupõe a cultura, a economia, a educação, a moral, a política, o direito, as artes, criando um ethos que permita a perpetuação no poder”.

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Repórter da revista CartaCapital

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