Política

Crise política

A esquerda e o novo ciclo político

por Marcos de Aguiar Villas-Bôas* publicado 03/11/2016 00h58, última modificação 03/11/2016 12h33
Com o fim da hegemonia do PT, o campo progressista deve aproveitar esta fase para evoluir, e não para voltar à estaca zero
Roberto Parizotti/ secom CUT
Manifestação

A esquerda não pode se resumir às bases sindicais. Deve atuar na periferia com um viés avançado

Equívocos são cometidos nas análises da conjuntura política por direita e esquerda. Assim como na vida, se olhada a história, é muito claro que a política é feita de ciclos e sucessões.

Uma parte dos analistas afirma que a esquerda – e o PT, até então o maior representante dela – acabou, morreu, se esfacelou. Diferentes verbos são usados para dizer que o PT já era ou que nunca mais será igual. Que ótimo se não for, pois a esquerda precisa progredir, tornar-se melhor.

Outra parte dos analistas afirma que a esquerda precisa voltar às suas bases sindicais, de mobilização nas ruas, olhar pelo social etc. Se a esquerda voltar a se resumir a isso, não terá saído do lugar e verá menos chances de reconquistar a hegemonia política.

Precisa ser isso e muito mais. O neopentecostalismo e o antipetismo tomaram os votos de boa parte do povo. A esquerda precisa atuar na periferia novamente, porém com um viés mais avançado. Gritos e promessas de revolução não funcionam mais.

Uma saída para o ressurgimento da esquerda é trabalhar, numa frente ampla de esquerda, reformas estruturais desde já por meio de governos estaduais e municipais, construindo de forma concreta, na prática, o início do projeto que será apresentado em 2018. O povo não aceita mais promessas. Ele quer e precisa de mudança na prática.  

Tanto no Brasil quanto no exterior, é absolutamente normal que haja trocas entre direita e esquerda no poder. A história norte-americana foi marcada por períodos de hegemonia republicana, que levaram à crise de 1929 e à crise de 2007-2009, e por períodos de hegemonia democrata - menos à direita, apesar de não tanto à esquerda - como foram os dois mandatos de Obama e poderá ser o de Hillary Clinton.

O último grande projeto americano de reformas estruturais de esquerda foi o New Deal (Novo Acordo) no governo de Franklin D. Roosevelt de 1933 a 1945, que culminou na Era de Ouro do Capitalismo de 1946 a 1970. 

No Brasil, menos acostumado a respeitar as regras, as trocas entre direita e esquerda foram muitas vezes traumáticas, como no suicídio de Getúlio Vargas em 1954, no golpe militar de 1964 e no golpe midiático-parlamentar (e Judiciário, alguns diriam) deste ano.

A esquerda comandou o governo federal por 13 anos e meio, o maior ciclo da história pseudodemocrática iniciada em 1988, e foi de lá retirada à força. O PT chegou a um tamanho que era inimaginável, sendo até natural que ele venha a “murchar”, sobretudo porque progrediu pouco internamente e só levou o país a alguns tímidos avanços sociais. Destaque para o governo de Fernando Haddad em São Paulo, que buscou romper com a estrutura urbana e promoveu melhorias relevantes.

O que acontece no momento é o começo de um novo ciclo, assim como foi de 2002 para 2003, com substituição da hegemonia do PT pela do seu principal rival: PSDB. No entanto, a espera da esquerda não precisa ser também de 14 anos.

A população está se sentindo politicamente órfã. Isso ficou claro nos números de nulos, brancos e abstenções, que sempre foram grandes no Brasil, mas aumentaram muito neste ano. Com maior polarização e circulação de informações, a tendência deveria ser contrária, de mais participação para decidir a política.

A imprensa teve papel determinante para que o PSDB voltasse a ter hegemonia a despeito de ter apresentado poucas propostas. É preciso que ela volte a assumir sua função de agente informador e apresente ao cidadão mais cenários, fazendo-o acreditar na política como essencial meio de transformação.  

Está na hora de dar mais voz a quem tem a somar, aos honestos, aos inovadores, e, para isso, os veículos à esquerda, assim como os estrangeiros, que têm realizado um belo papel, precisam atuar intensamente.

A Lava Jato, que também foi central ao buscar condenar os petistas o mais rápido possível, não mostrando o mesmo ímpeto em relação aos demais, precisa decidir se vai enfrentar a corrupção do atual governo e do PSDB, ou vai fortalecer a suspeita de que seu papel não era lutar contra ela, mas em favor de um projeto político.

No que toca à esquerda em si, ela precisa progredir. É hora de os partidos se aproximarem e buscarem agendas comuns. É preciso desradicalizar o debate e não voltar à política somente pautada em discursos inflamados e gritos de ordem.

Há uma confusão na esquerda brasileira entre agressividade e ímpeto. Ter ímpeto para combater propostas e políticos ruins, como para fazer mudanças estruturais, não requer agressividade nas palavras e no trato.

A indignação deve ser mostrada com segurança e leveza. Não há que se agredir consciências ou pessoas. É preciso vencer pela superioridade intelectual e moral humilde e equilibrada, algo que é extremamente difícil de se reunir em um único indivíduo.   

A esquerda deve se equilibrar, procurar ver onde errou para além da corrupção, também praticada pela direita.

A eleição do novo prefeito de Curitiba e a reeleição de ACM Neto em Salvador/BA, a quem vem sendo atribuído o lema “rouba, mas faz”, rememorando seu avô, mostra que a preocupação de parte da população não é exatamente a corrupção, mas ver no poder quem lhes interessa.

Essa distorção é observada tanto na direita quanto na esquerda, e é também, em parte, resultado da sensação de que, se todos roubam, tanto faz quem escolher, melhor aquele que me favorece.  

É lamentável que seja assim, até porque, se as pessoas não conseguem imaginar que alguns políticos sejam honestos, elas próprias devem saber que roubariam se tivessem no poder. Não fosse assim, não poderiam concluir que elas seriam as únicas pessoas honestas do país, logo precisariam admitir que existem políticos honestos.

Aquele que tem convicção da sua honestidade e conhece outras pessoas honestas acredita mais facilmente na existência de políticos honestos. Eles realmente existem, mas nem sempre são técnicos, inteligentes, estudados, complexos, equilibrados.

A esquerda deve alçar a seus novos líderes pessoas que preencham essas características e situar as suas bandeiras de proteção do trabalhador, das minorias, dos mais fracos, de redução da desigualdade, dentro de perspectivas mais complexas, que consigam se ligar com importantes bandeiras da boa direita, como segurança e crescimento econômico. Sim, existe uma boa direita, e é inocente pensar o contrário.

O ciclo que se inicia, com o PSDB assumindo dezenas de prefeituras importantes, pode ser equilibrado nas eleições de 2018. Tudo dependerá de como a esquerda irá evoluir, de qual cenário passará a construir a partir de 2017.

É fundamental que o PT convoque eleições logo e eleja Fernando Haddad como seu novo presidente, conforme já proposto em texto anterior.  

Noticia-se que Lula daria apoio a ele e que pensa em construir um discurso mais próximo do centro, o que é muito promissor.

A esquerda brasileira precisa buscar aquilo que deu certo pelo mundo, avaliando onde se conseguiu realizar governos esquerdistas que promoveram mudanças verdadeiramente estruturais nos seus países.

A esquerda deve procurar andar em espiral. Ainda que seja praticamente inevitável ciclos de alta e baixa, e isso é até positivo para a esquerda e para o país, pois ajuda numa ressignificação das perspectivas e decisões, é preciso ser progressista, e não voltar a erros.

É preciso olhar pelo social sem afetar tanto os que geram empregos, pois isso prejudica o próprio social. É preciso olhar pela igualdade sem afetar tanto a eficiência, pois isso dificulta fazer redução de desigualdade. É preciso proteger trabalhadores, pobres e minorias sem ser populista, superficial, desagregador social e causador de distorções econômicas.

Está na hora de um passo à frente da esquerda, que a leva definitivamente a um discurso progressista e propositivo de reformas institucionais capazes de mudar finalmente o status quo estrutural do país. Parece ser isso o que a maioria da população hoje busca não somente no Brasil, mas em todo o mundo. 

*Marcos de Aguiar Villas-Bôas, doutor pela PUC-SP, mestre pela UFBA, é conselheiro do Conselho Administrativo de Recursos Fiscais do Ministério da Fazenda e pesquisador independente na Harvard Law School e no Massachusetts Institute of Technology

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