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A “bancada” da Lava Jato

Política

Embalados pela popularidade da Operação Lava Jato, um número recorde de membros da Polícia Federal se lançou a cargos eletivos nas eleições gerais deste ano. Pelo menos 48 agentes e delegados apresentaram candidaturas a deputado federal e estadual e senador. 

O partido favorito entre os candidatos é o PSL de Jair Bolsonaro. Ao todo, 14 membros (29%) da PF se lançaram pela legenda do presidenciável populista de direita. Mas há também delegados e agentes que se filiaram a partidos implicados na própria Lava Jato, como PP, PR, PSDB e SD. Nenhum deles é filiado ao PT. No total, os agentes e delegados se dividiram em 22 partidos. A maioria concorre a deputado estadual, federal e distrital. Apenas três nomes concorrem ao Senado. 

Nas eleições de 2014, quando a Lava Jato ainda começava a sacudir o mundo político, apenas 16 agentes da Polícia Federal se candidataram a cargos eletivos. No Congresso há apenas quatro membros da corporação atualmente, todos na Câmara Federal: o escrivão Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho de Jair, que concorre à reeleição; o delegado Fernando Francischini (PSL-PR), um dos coordenadores da campanha do presidenciável, que desta vez se lançou a deputado estadual no Paraná; o delegado Marcos Reátegui (PSD-AP), que também concorre à reeleição; e o agente Aluísio Mendes (Podemos-MA), outro que tenta um novo mandato.

Os estados que concentram investigações da Lava Jato também têm o maior número de candidatos. Sete são do Rio de Janeiro, cinco do Paraná, e três do Distrito Federal. 

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Ainda na fase pré-eleitoral, figuras que se tornaram conhecidas ao longo da operação como os agentes Newton Ishii, o “japonês da federal”, e o de Lucas Valença, o “hipster da federal”, chegaram a ser filiar a partidos políticos, mas decidiram não concorrer. Plínio Ricciardi, um dos “gêmeos da federal”, chegou a ser anunciado como pré-candidato, mas também não registrou candidatura.

Entre os membros da PF que acabaram lançando candidatura, há poucos nomes que se destacaram diretamente na Lava Jato. Uma delas é a escrivã Claudia Horchel, que ficou conhecida como a “Louraça da Federal” durante a prisão de Jorge Picciani, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Ela concorre a uma vaga na Câmara Federal pelo Podemos do senador Romário.

Outros nomes conhecidos, mas não ligados necessariamente à Lava Jato incluem o delegado Gastão Schefer Neto, que concorre a deputado federal pelo PR do Paraná. Em maio, ele quebrou o equipamento de som de membros da vigília “Lula Livre” em Curitiba. Depois do episódio, ele afirmou que foi motivado pelo barulho do acampamento.

Desses 48 membros da PF, 28 se reuniram na “Frente de Agentes da Polícia Federal”, apelidada informalmente de “Frente da Lava Jato”, lançada em Brasília no dia 22 de maio com a articulação da Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef).

Segundo o texto de apresentação do grupo, a frente foi organizada “para garantir a continuidade da Lava Jato e de outras ações de combate à corrupção”. Entre as propostas em comum dos candidatos estão “a criação de um novo modelo de segurança pública”, “reforçar ações contra a corrupção de dentro do Congresso e Assembleias estaduais” e “impedir qualquer ação parlamentar para enfraquecer a Lava Jato”.

O tema do combate à corrupção também é dominante na propaganda dos candidatos da frente. Sem poder utilizar o logotipo da PF, ela adotou um símbolo com as cores amarela e preta e com a a mensagem “Segurança sim, corrupção não”.

Mas apesar de se promover como uma iniciativa “sem partido”, a frente tem entre seus candidatos Eduardo Bolsonaro. Sete dos seus 28 membros também são filiados ao PSL do presidenciável Jair Bolsonaro.

Entre outros candidatos ligados à PF que não fazem parte da frente, o tema do combate à corrupção também é dominante no discurso eleitoral. O slogan da escrivã e candidata à deputada Horchel é “No combate à corrupção”. Já o delegado Marcelo Freitas (PSL-MG), que se lançou a uma vaga de deputado federal, disse que “a Polícia Federal, cansada de sofrer perseguições de políticos corruptos, resolveu lançar seus delegados federais para uma batalha nessas eleições de 2018”.

Mesmo com o discurso dominante de combate à corrupção, alguns “candidatos da PF” já se envolveram em casos controversos.

O deputado federal amapaense Marcos Reátegui, que tenta a reeleição, já foi preso em 2013 pela própria PF e é réu em um processo por corrupção e lavagem de dinheiro. O escrivão Cláudio Prates, que hoje é vereador em Montes Claros (MG) e membro da “frente da Lava Jato” e agora se lançou a uma vaga de deputado federal pelo PTB, foi condenado a pagar 100 mil reais em danos morais. Segundo o Ministério Público, ele fraudou provas em um caso de 2010 que resultou na prisão de um tenente do Exército por pedofilia.

Outro candidato que explora suas ligações com a Polícia Federal é o delegado Felício Laterça (PSL-RJ), que se candidatou a uma vaga na Câmara. Em fevereiro, ele foi indicado para o cargo de superintendente regional da PF no Rio de Janeiro. Mas a indicação acabou sendo retirada após o Ministério Público Federal abrir uma investigação para apurar ligações suas com políticos de Macaé (RJ). Nesta campanha, Laterça é um dos cabos eleitorais de Jair Bolsonaro no interior do estado. 

Ao se lançar candidato, o agente ou delegado da PF tem que se afastar das suas funções na PF. Se eleito, ele deve se licenciar da corporação.

Ao contrário de agentes e delegados da PF, nenhum procurador da República – outra carreira que ganhou destaque com a Lava Jato se candidatou nestas eleições. Tudo por causa de uma regra constitucional de 2004 que proíbe que procuradores e promotores do Ministério Público exerçam atividade político-partidária. Se quiserem se candidatar, eles têm que pedir exoneração ou aposentadoria do Ministério Público. Apenas aqueles que ingressaram na carreira antes da Constituição de 1988 têm permissão para disputar um cargo eletivo.

Em agosto, a Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR) chegou a entrar com um pedido de liminar junto ao Supremo Federal questionando a regra e defendendo que membros do MPF pudessem se candidatar. O pedido foi negado pelo ministro Marco Aurélio.

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