Política

A agonia do governo

'Temer é incapaz de liderar um projeto para o País, qualquer que seja'

por Rodrigo Martins publicado 21/05/2017 01h56
Ex-governador do Espírito Santo e secretário-geral do PSB, Renato Casagrande explica por que a sigla decidiu apoiar a emenda das Diretas
Reprodução/Facebook
Renato Casagrande

"A população é sempre mais sábia que um colegiado de 600 parlamentares", diz Casagrande

Por unanimidade, a Executiva Nacional do PSB decidiu, no sábado 20, apoiar a renúncia do presidente Michel Temer, “como forma de acelerar a solução da crise de governabilidade” instalada no País. O colegiado também referendou a iniciativa do presidente da legenda, Carlos Siqueira, que nesta semana subscreveu pedido de impeachment. Por fim, fechou questão em apoio à Proposta de Emenda Constitucional que prevê eleições diretas em caso de vacância do cargo de presidente.

Ex-governador do Espírito Santo e secretário-geral do PSB, Renato Casangrande avalia que Temer perdeu as “condições de liderar um projeto para o País, seja ele qual for”. Na avaliação do dirigente, a eleição direta dará a legitimidade necessária para o sucessor tocar as medidas necessárias para tirar o Brasil do atoleiro. Enfatiza, porém, ser preciso correr para aprovar a emenda antes da vacância do cargo. Caso contrário, a escolha indireta pode se impor, se for respeitada a Constituição.

CartaCapital: O que levou o PSB a romper com o governo Temer?
Renato Casagrande: Na verdade, quando Temer assumiu, o PSB adotou posição de independência. Um dirigente do partido foi nomeado ministro (Fernando Bezerra Coelho, titular da pasta de Minas e Energia), mas isso se deu na cota pessoal do presidente. Não fizemos nenhuma indicação. Em vez disso, emitimos uma nota dizendo que apoiaríamos propostas que estivessem em sintonia com as posições históricas e ideológicas do PSB. Tanto é assim que manifestamos oposição às reformas trabalhista e da Previdência.

Já tínhamos uma avaliação de que o presidente estava objetivamente se alinhando às forças conservadoras e da direita. Todas as reformas apresentadas caminhavam para o aumento da injustiça e a desigualdade no Brasil. Havia, portanto, uma forte discordância política. Aproveitando-se de um momento de fragilidade da esquerda, por conta do escândalo que abateu o PT, Temer avançou contra os direitos dos trabalhadores e dos mais pobres. Então surgiram as revelações da delação da JBS...

CC: Como o senhor avalia a postura de Temer nesse episódio?
RC: As notícias, não apenas do encontro com o empresário (Joesley Batista, dono da JBS), mas as informações investigadas pela Justiça, de recebimento de recursos ilegais, nos levou à conclusão de que o presidente não tem mais condições de liderar. Temos discordâncias em relação aos rumos políticos, mas a verdade é que ele não tem mais condições de liderar um projeto para o País, seja ele qual for. A primeira posição nossa foi pedir a renúncia de Temer, que é um ato pessoal. Apenas apontamos que seria um caminho menos traumático.

Caso ele não venha renunciar, vamos apoiar um pedido de impedimento na Câmara dos Deputados. Seja por renúncia, impeachment ou pela cassação do mandato, via Tribunal Superior Eleitoral, defendemos uma saída constitucional. Apoiamos a aprovação da emenda que prevê a convocação de eleições diretas, mas cientes de que a escolha indireta pode se impor. Se houver a vacância do cargo antes de aprovar a emenda, não tem jeito, a eleição será indireta, e iremos respeitar a Constituição. Mas o nosso esforço, a partir de agora, é fortalecer a proposta de emenda que prevê a convocação de eleições diretas.

CC: Por que o PSB considera a eleição direta a melhor saída para a crise?
RC: A eleição direta transferirá, para o eleito, legitimidade para adotar as medidas necessárias para o País. É preciso fazer uma série de reformas, não negamos isso. Em segundo lugar, a população é sempre mais sábia que um colegiado de 600 parlamentares. É por isso que nós apoiamos a emenda das diretas. Se não houver tempo hábil, se o cargo ficar vago antes, iremos participar da eleição indireta, mas preferimos entregar a decisão ao povo, sempre em respeito à Constituição Federal.

CC: Os movimentos sociais e sindicais temem que a eleição indireta represente a continuidade da agenda de Temer, tocada por outro nome.
RC: Eu compreendo essa preocupação, tanto que estamos apoiando a emenda das eleições diretas. No entanto, é possível que a escolha indireta se imponha, independentemente da nossa vontade. Nesse caso, não vejo sentido em abrir mão de participar, até porque não podemos passar por cima da Constituição. A eleição direta só será possível se a emenda for aprovada antes da vacância do cargo.

CC: Um presidente eleito indiretamente teria legitimidade para aprovar reformas que mexam nos direitos dos brasileiros?
RC: Depende da reforma. As que foram apresentadas por Temer, certamente não, porque aprofundam as injustiças e desigualdades. No entanto, se for uma proposta justa, que agrade a maioria da população, mesmo um presidente eleito indiretamente terá legitimidade de levá-la adiante. O que ele não pode é atentar contra os interesses da maioria, ainda mais sem o respaldo do voto popular. Não somos contra reformas.

O PSB é um partido progressista, não é um partido de esquerda conservador, refratário a qualquer mudança na legislação. É preciso ter aperfeiçoamentos na legislação trabalhista, na Previdência, temos propostas, temos preocupação com o ajuste fiscal. Não dá, porém, para aceitar retrocessos ou propostas injustas.

CC: No início de nossa conversa, o senhor disse que o ministro Fernando Bezerra Coelho foi uma escolha pessoal do presidente. O PSB pediu para ele entregar o cargo?
RC: O partido emitiu uma nota muito clara. Não podemos pedir para ele sair do governo porque não fomos nós que o indicamos. Ele é um dirigente do PSB, imagino que tomará a sua decisão levando em conta a posição do partido, que não é neutra.