Nikkole Presotto

Fotógrafa e cinegrafista, apaixonada por arte, cinema, rock do fim dos anos 60, poesia e cultura psicodélica. Estudou Direção Cinematográfica na Academia Internacional de Cinema (AIC).

Opinião

Você é psicodélico — só não sabe disso ainda

Da contracultura às redes sociais, a expansão da percepção atravessa gerações como resposta a um mundo cada vez mais editado, acelerado e instável

Você é psicodélico — só não sabe disso ainda
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O termo psicodélico vem do grego: psyche, mente ou alma, e dēloun, tornar visível, revelar. Literalmente: aquilo que revela a mente. Não nasceu como sinônimo de droga, mas como ideia. Algo que abre. Algo que desloca. Algo que acende fogo nas dobras do mundo onde a rotina costuma passar de olhos vendados. A palavra não aponta para um universo paralelo. Aponta para as frestas deste, para o que vaza por entre as rachaduras do cotidiano.

Vivemos dentro de um feed que nunca dorme. Imagens piscam como sirenes, narrativas se atropelam, versões da realidade se empilham em camadas febris. O mundo chega recortado, filtrado, editado, mastigado. A pergunta deixa de ser o que é real e passa a ser como o real entra. Como atravessa os olhos. Como escorre para dentro da cabeça. A psicodelia, aqui, não é fuga. É lâmina de microscópio biológico. É o instante em que o filtro rasga e a realidade é colocada sob a luz, ampliada, crua, com o mecanismo nu tremendo por trás da tela.

O ser humano empurra a porta do invisível com as mãos em brasa. Religiões, mitos, rituais, artes são sistemas de símbolos. Tentativas de tocar o que vibra por trás da superfície das coisas. Cada cultura desenha sua própria cartografia do mistério: céu, inferno, espírito, energia, consciência e código. Mudam os nomes. O gesto permanece. Rasgar o véu. Espiar o que pulsa por baixo da pele do mundo.

Esse gesto atravessa gerações como um fio elétrico enterrado no solo. Para quem cresceu com Yellow Submarine, Sgt. Pepper’s, The Doors ou a catarse humana de Woodstock e o auge da contracultura hippie no fim dos anos 60, o mundo já vinha saturado de cor, ruído e ruptura. Outras décadas reconheceram o mesmo chamado em animes, monstros digitais, universos paralelos, fases secretas e telas que se abrem dentro de telas. Ele reaparece nas pistas de dança que nunca dormem, nas raves dos anos 90 que atravessaram décadas, onde corpos formam tribos temporárias sob luzes estroboscópicas, batidas eletrônicas e rituais improvisados — tribal e cibernético ao mesmo tempo, elétrico e ancestral na mesma pulsação. E hoje também se derrama em geografias instáveis e identidades mutantes, de Hora de Aventura a Steven Universe e Rick and Morty, atravessando a realidade aumentada, os jogos online, a inteligência artificial e as redes sociais — um mundo inteiro construído em paralelo virtual. Mudam as telas. Mudam os códigos. O motor continua: a busca por realidades que não cabem no chão firme do dia a dia.

Num tabuleiro invisível, dentro de muitos outros, corre o jogo da vida, da percepção e da realidade. Viver é atravessar um campo de sinais: palavras não ditas, rituais sociais, vento que oscila, feixe de luz na poeira, o corpo respondendo ao que não se vê. A realidade não chega em blocos. Chega em fluxo — código, combustão, eletricidade estática no ar. O ser psicodélico não é só quem cria e envia. É também quem recebe, quem deixa o sinal atravessar a memória e redesenhar o mapa cerebral. Cada jogador escolhe seu avatar sem perceber. A frequência em que sintoniza não nasce de uma escolha consciente, mas do que o molda: corpo, memória, ambiente, cultura, tendências biológicas. Recebemos e enviamos sinais.

Trocamos entre nós, com o espaço ao redor, com cada partícula suspensa no ar. Chamamos isso de sensibilidade — padrão, energia, presença, línguas diferentes tocando a mesma coisa. Sair do piloto automático, ajustar a frequência, caminhar entre o que pode ser explicado e o que só pode ser sentido. E nesse campo instável que todos atravessamos, somos todos, sem perceber, inevitavelmente, psicodélicos.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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