Guilherme Mello

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Professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON-UNICAMP)

Opinião

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Vanguarda do atraso

O maior inimigo do discurso econômico encampado pela mídia tradicional é a realidade

Visionário. Se o resto do planeta destoa do jornalismo brasileiro, errado está o planeta, não é mesmo? - Imagem: Marjory Collins/Biblioteca do Congresso dos EUA
Visionário. Se o resto do planeta destoa do jornalismo brasileiro, errado está o planeta, não é mesmo? - Imagem: Marjory Collins/Biblioteca do Congresso dos EUA
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Alguns editoriais dos jornais brasileiros insistem em rotular qualquer proposta de desenvolvimento que postule algum papel ativo do Estado de “atrasada” e “ultrapassada”, superada no debate econômico e na prática dos principais países do mundo. O “moderno” seria uma visão neoliberal de Estado meramente regulador, com uma política macroeconômica somente voltada para a estabilidade de preços e promotor de políticas sociais bastante focalizadas. A adoção de políticas de reestruturação produtiva ou o financiamento público ao investimento são itens proibidos no linguajar dos editorialistas.

O maior inimigo desse discurso é a rea­lidade. Quem acompanha o debate sobre desenvolvimento econômico e as políticas públicas mundo afora sabe que essa visão “moderna” saiu de moda por volta de 2008. Até ensaiou-se um ­comeback no início da década de 2010, mas logo se tornou démodé novamente, em particular após a pandemia. Nos mais diferentes países do mundo, o que assistimos é um retorno do Estado planejador, indutor e até mesmo investidor. Seja como resposta ao agressivo modelo chinês, onde empresas estatais e bancos públicos jogam um papel-chave, seja como constatação do fracasso do modelo neoliberal em gerar crescimento, promover distribuição de renda e sustentabilidade ambiental, o debate sobre o papel do Estado e da política fiscal passou por uma profunda transformação na última década.

No debate acadêmico, essa mudança de orientação começou logo após a crise de 2008, que levou diversos proeminentes economistas a reverem seu arcabouço teórico e questionarem as certezas que até então carregavam. Em 2010, o então economista chefe do FMI Olivier ­Blanchard escreve o artigo “Rethinking Macroeconomic Policy”, no qual questiona velhos consensos e aponta falhas na teoria econômica tradicional, reforçando a função estabilizadora do Estado em momentos de crise. Alguns anos depois, foi a vez do famoso macroeconomista Paul Romer questionar os métodos da abordagem convencional em seu artigo “The Trouble With Macroeconomics”. Essa reconstrução teórica ganhou força com trabalhos que, utilizando novas metodologias, reavaliaram o papel da política fiscal na atividade econômica, até então relegado ao segundo plano e às amarras da doutrina do “orçamento equilibrado”. O debate sobre multiplicadores fiscais, virtualmente abolido pela teoria novo clássica, ganha outro fôlego com pesquisas promovidas pelo Congressional Budget ­Office dos EUA e pelo próprio FMI, além de artigos dos reconhecidos macroeconometristas Auerbach e Gorodnichenko.

Nos mais diferentes países, o que assistimos é um retorno do Estado planejador, indutor e até mesmo investidor

Há uma recuperação do debate sobre o papel ativo da política fiscal, que seria capaz de impulsionar o crescimento em emprego no curto prazo, mas também afetar a trajetória de longo prazo das economias. Esses efeitos de longo prazo ganham força nos debates de histerese e estagnação secular promovidos por Olivier Blanchard e Laurence Summers, preocupados com os efeitos do baixo crescimento e elevado desemprego no potencial de crescimento futuro das economias centrais.

Ao mesmo tempo, o debate sobre a função distributiva do Estado estava na obra de Thomas Piketty. Ao obter acesso a novos dados fiscais e demonstrar como o modelo neoliberal promoveu a concentração de renda e riqueza, o autor destaca o papel central da tributação nesse processo e abre espaço para uma série de outros pesquisadores aprofundarem suas análises, incluindo debates sobre os efeitos distributivos dos gastos sociais.

Obviamente, a revisão teórica não ficou circunscrita ao debate de política fiscal. A adoção de taxa de juros zero ou negativa por boa parte dos Bancos Centrais do mundo foi o gatilho para um profundo debate sobre o os limites da política monetária, até então entendida como a cura de todos os males. As discussões sobre o papel desestabilizador da especulação financeira e sobre a necessidade de fortalecimento do sistema regulatório internacional completam uma ampla revisão no arcabouço de políticas públicas à disposição dos policy makers.

Não é só no debate acadêmico que observamos profundas transformações. As políticas públicas adotadas pelos países centrais têm mudado de orientação em relação ao passado recente. Basta observar o Plano Biden, nos EUA, ou o “Next ­Generation EU”, na Europa. Ambos estão marcados pela ampliação do investimento público voltada para a transição energética, a descarbonização e a ampliação dos serviços públicos, com foco na inovação, na geração de empregos e na recuperação do crescimento. Conceitos como “política industrial” voltaram à tona, assim como a recomposição dos direitos laborais e sindicais, como visto na recente reforma trabalhista na Espanha.

O advento da pandemia da Covid-19 acelerou esse processo de mudança no papel do Estado e da política fiscal. A aposta na abertura comercial e na inserção passiva nas Cadeias Globais de Valor (CGV) perdeu força diante da escassez de insumos e da ruptura das cadeias produtivas. No mais recente encontro de Davos se falou em “desglobalização” e muitos países centrais têm adotado políticas de reshoring, buscando recuperar parte das cadeias produtivas fragmentadas mundo afora. O papel dos estoques reguladores e até mesmo da regulação de preços de alimentos tem voltado à pauta, algo impensável uma década atrás.

Em resumo, o mundo mudou e o debate econômico mudou junto. ­Infelizmente, os editorialistas da mídia tradicional seguem a repetir os mesmos bordões que vociferavam na década de 1990, que, por sua vez, pouco diferiam de suas posições econômicas observadas durante os longínquos governos Vargas, JK e Jango. O verdadeiro atraso no debate econômico brasileiro é o apego mesquinho a uma espécie de liberalismo vira-lata e ­démodé que ainda povoa a imaginação e os sonhos dos donos da imprensa. •


*Professor do Instituto de Economia da Unicamp e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Econômico da mesma universidade.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1210 DE CARTACAPITAL, EM 1° DE JUNHO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Vanguarda do atraso”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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Professor do Instituto de Economia da Unicamp e pesquisador do Centro de Estudos de Conjuntura e Política Econômica (CECON-UNICAMP)

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