Uma sociedade genocida elege que tipo de governante?

Recorde de mortes por pandemia, violência urbana e no campo são reflexos da sociedade brasileira que elegeu um de seus espelhos

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP

O presidente Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP

Justiça,Opinião

Na semana passada completaram-se três anos do assassinato político da socióloga e vereadora Marielle Franco. O caso emblemático, no qual ela e o motorista, Anderson Gomes receberam treze tiros, continua sem solução. Ainda nesse mês, no dia 16 de março completaram-se sete anos do assassinato de Cláudia Silva Ferreira, uma mulher negra cujo corpo já sem vida, foi arrastado por cerca de 300 metros pelo camburão da polícia. O caso se repete e até hoje não houve solução, julgamento ou punição. Os assassinos de ambas continuam vivos?

O Brasil é considerado um dos países mais violentos do globo, com taxas de homicídio maiores do que países em contexto de guerra. Segundo o Atlas da Violência (IPEA, 2020), entre 2008 e 2018, mais de 628 mil pessoas foram vítimas de homicídio, ou seja, a taxa de morte foi de 27,8 mortes para cada 100 mil habitantes, sendo que homens e mulheres negro(a)s têm 74% e 64,4% mais chances de serem morta(o)s, respectivamente. A política de morte ou necropolítica para utilizar o termo cunhado por Achille Mbembe, apesar de visceral e combatida por diversas entidades e setores da sociedade está longe de se encerrar. E, comparado com casos emblemáticos, muitos nem são noticiados… era só mais um Silva. Eram e são vários.

No contexto de corona vírus, o Brasil bate recorde de mortes diárias: 2340 pessoas mortas. Como eu vi em alguma rede: 2.340 amores de alguém. Isso obviamente foi agravado porque o Brasil é um país genocida: não há políticas efetivas econômicas nem sanitária postas em prática desde o ano passado tanto na esfera municipal quanto estadual e nacional. Trabalhadora(e)s precisam continuar trabalhando: o novo auxílio emergencial não contempla as reais necessidades da população, não há seguridade social e a cesta básica só aumenta – será que conseguiremos sobreviver consumindo apenas ovos e alimentos com mofo e caruncho?

Infelizmente tivemos o azar de sermos governados por muitas pessoas que durante suas carreiras fizeram a política, e até vangloriaram, da morte. Mesmo que seja um evento “surpresa” e que todo o globo tenha sido afetado drasticamente por esse vírus e suas consequências, a crise sanitária, desmonte do sistema público de saúde, cortes nas ciências se articulam para que a política de morte ocorra justamente na ausência de políticas efetivas. A população negra é a mais afetada pois é nos corpos negros que todas essas tentativas de morte se encontram.

E, de modo geral, a população brasileira parece estar tão acostumada ou amortecida que nem percebe ou repara ou liga para a morte que acompanha constantemente a história e política dessa nação. É só entrar em qualquer rede social ou assistir algum jornal para ver como as restrições contra aglomeração também não são respeitadas por muitos.

Um país historicamente genocida só poderia ter que tipo de governante?

E no país que fiéis de igrejas fazem arminhas com a mão em homenagem a determinado projeto político, Deus foi considerado brasileiro. Se ele é, Nietzsche estava certo ao afirmar:

Deus está morto! E quem matou fomos nós!

É isso que se faz com a população daqui.

Tento usar esses artigos como forma de me fazer refletir e, se possível, tentar partilhar o tanto de coisa que aprendo na universidade. Para mim, escrever fora dos parâmetros acadêmicos, é uma possibilidade de trocas significativas de aprendizado. Escrever me traz esperança. Mas não hoje. Não esse mês. É uma luta constante acreditar em dias melhores quando um cenário apocalíptico é menos pior que a realidade atual do país.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestranda em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCAR).

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