Uma pausa para falar de ‘Tudo sobre o amor’, o mais recente livro de bell hooks

Engana-se quem, levando em consideração o título, pensa que se trata de um daqueles manuais de autoajuda

Foto: Reprodução

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Opinião

Minha guia espiritual. Assim me refiro à escritora afro-americana bell hooks. Desde 2015, quando li pela primeira vez “Ensinando a transgredir”, sua obra mais famosa, não desgrudo da educadora, que tem Paulo Freire como um de seus principais mestres.

Foi amor à primeira vista. Assim como eu, quando criança, bell hooks também queria ser professora. Oriunda de uma família pobre, ainda na infância, enxergou na educação a maneira mais segura para superar a violência racista e todas as marcas que a discriminação deixa. Além disso, bell me fez compreender melhor minhas escolhas políticas, metodológicas e pedagógicas em sala de aula, como também fortaleceu a minha crença de que outra educação é possível.

Com as mudanças recentes do mercado editorial brasileiro, que tem aberto cada vez mais as portas para o pensamento das autoras negras, a fim de atender às demandas surgidas a partir do efervescente debate em torno da luta antirracista, a obra de bell hooks é facilmente encontrada nas livrarias. Sorte a nossa.

Em janeiro deste ano, a editora Elefante publicou “Tudo sobre o amor: novas perspectivas”, que eu pude ler somente agora. Tomada pela maneira tocante e profunda com que a teórica feminista escreve, li em um final de semana. Eu, que tenho utilizado esse espaço para registrar as mazelas do nosso tempo, faço uma pausa para falar sobre o amor.

Engana-se quem, levando em consideração o título, pensa que se trata de um daqueles manuais de autoajuda que costumam povoar a lista dos livros mais vendidos do país. Longe disso.

Conforme sinaliza já na capa, bell hooks apresenta novas perspectivas a respeito do amor, esse sentimento que se faz presente nos encontros afetivos-sexuais, mas que também está nas relações familiares, nas amizades, nas lutas cotidianas. Para ela, amar é um ato político, que, dentre outras coisas, tem o poder de curar.

Uma das características dos escritos de bell hooks é o enlace entre suas experiências profissionais e a teoria. E são justamente suas dores, seus dissabores que a impulsionam a (re)pensar o significado do amor e (re)construir no seu íntimo os espaços em que esse sentimento se mostrava ausente, limitando sua capacidade de amar.

 

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Logo nas primeiras páginas, a ex-professora da Universidade de Yale diz: “Todos ansiamos por amor – todos o buscamos –, mesmo quando não temos esperança de que ele possa ser de fato encontrado”. Ao fazer essa assertiva, ela lembra que falharemos nessa busca se formos incapazes de cultivar amor-próprio, ainda que para isso seja necessário entrar em contato com o desamor, com as feridas que nos machucam.

Como prova da profundidade e da beleza das palavras de bell hooks, transcrevo o que ela disse em relação aos sentimentos que devemos nutrir por nós mesmos: “Amor-próprio é a base de nossa prática amorosa. Sem ele, nossos outros esforços amorosos falham. Ao dar amor a nós mesmos, concedemos ao nosso ser interior a oportunidade de ter o amor incondicional que talvez tenhamos sempre desejado receber de outra pessoa”.

bell hooks dedica um capítulo para falar sobre amor e infância, etapa da vida na qual ela considera fundamental introjetar a prática amorosa para que tenhamos condições de dar e receber, como também viver experiências afetivas saudáveis, permeadas pela troca, pela verdade, pelo respeito, pelo apoio mútuo. hooks lembra que “para desmistificar o significado do amor, da arte e da prática de amar, precisamos usar definições claras de amor quando falamos com as crianças, e precisamos também assegurar que ações amorosas nunca sejam contaminadas pelo abuso”.

Como estudiosa das relações de gênero, “Em tudo sobre o amor” não poderia faltar espaço para reflexões acerca das concepções equivocadas sobre o amor com as quais as mulheres são bombardeadas pelo patriarcado e pelo sistema capitalista. Concepções que contribuem, em grande medida, para que o sexo feminino tenha experiências afetivas nocivas e violentas que em nada se assemelham à ética amorosa.

Há espaço também para a morte, questão que mais do que nunca tem permeado, assombrado nossas vidas. Sobre esse tema, ela sabiamente escreveu: “A forma como vivemos o nosso luto é informada pelo fato de conhecermos ou não o amor. Uma vez que amar permite que nos desapeguemos do medo, esse ato também guia o nosso luto. (…) Nosso luto, nossa permissão para que sintamos a perda de pessoas que amamos, é uma expressão do nosso compromisso, uma forma de comunicação e comunhão”.

Nesse momento em que o ódio, a ameaça nos amedrontam e angustiam, falar e aprender sobre a ética do amor com bell hooks são imperativos.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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