Uma onça pintada, um tiro certeiro

'A terra está em pânico e não é de hoje. Desde que arrancaram os olhos do assum preto para ele assim cantar melhor'

Créditos: EVARISTO SA / AFP

Créditos: EVARISTO SA / AFP

Opinião

Eram apenas o urso panda, o mico leão dourado e a ararinha azul. De tempos em tempos eles apareciam nas páginas dos jornais, nos documentários das televisões, correndo risco de desaparecimento. A ararinha azul surgia frequentemente voando ou pulando de galho em galho no Globo Repórter.

O dodô, pobre coitado, sumiu do mapa faz tempo. Um pássaro gigante que habitava as Ilhas Mauricio e que não sabia voar. Tem um exemplar, me lembro bem, empalhado no Museu de História Natural de Londres, guardado a sete chaves numa cristaleira colonial.

A lista de animais em extinção sempre foi grande e assustadora. O lobo-guará, a baleia-fin, o pinguim-africano, o peixe-boi-marinho, todos correndo risco de sumir para nunca mais. A onça pintada entrou na lista e se os homens continuarem atrás dela, em breve só vai existir aquela na linda canção de Alceu Valença.

O homem perdeu o juízo.

O Pantanal está em chamas, a Amazônia virando deserto, os rios secando. As imagens assustam. Tamanduás estorricados, onças com as patas queimadas, tuiuiús desnorteados e araras batendo em retirada.

A terra está em pânico e não é de hoje. Desde que arrancaram os olhos do assum preto para ele assim cantar melhor.

Aqui, do alto da maior cidade da América do Sul, temo pela vida do tatu-bola, da aranha-caranguejeira, do vaga-lume, do tigre de bengala, do canário-chapinha, da foca, do tico-tico comendo o meu fubá.

Tem anos que não vejo um rinoceronte, uma girafa, um elefante, um dromedário, uma pulga. Tem décadas que não vejo um tucano do bico preto, um pica-pau imperial, um caburé de Pernambuco, um kakapo, um quetzal.

Me pergunto onde será que andam aqueles pássaros do Francis Hime? O pintassilgo, o pintarroxo, o melro, o uirapuru. Cadê da saíra, o inhambu, a asa branca, a patativa, o tuju, o tuim, o tiê-sangue, o tiê-fogo, o rouxinol, o colibri?

Eu criava passarinhos em gaiola e não crio mais. Ia aos domingos no zoológico dar pipoca aos macacos e não vou mais. Matava pardal com estilingue e não mato mais. Hoje, se organizarem uma manifestação no vão do Masp para libertar todos os bichos presos no zoológico, eu vou.

Talvez São Paulo tenha me deixado tão apreensivo. Vivo apenas entre um bando de maritacas saltitantes e barulhentas numa árvore em frente ao meu prédio, meia dúzia de rolinhas ciscando na Praça Cornélia e muitos pombos espalhados pela cidade.

Só isso.

Saudade de Mario Quintana. Eles passarão, eu passarinho.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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