Uma moça na janela

'São quatro e trinta e dois de uma tarde de 8 de fevereiro de dois mil e vinte e um e ela está lá, com o olhar fixo, mas nunca pra mim'

Foto: iStock

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Opinião

Nestes tempos de pandemia, da janela lateral do quarto de dormir vejo uma moça estática, olhando lá fora, como eu. Braços cruzados, máscara no rosto, de tempos em tempos ela aparece ali para ver o movimento da rua. Movimento dos automóveis, das pessoas que passam, as bicicletas, os carroceiros.

Não sei quem é, o que faz, o que come, como vive. Seria ela a tal Carolina, já que seus olhos fundos parecem guardar tanta dor, toda dor desse mundo? Ou seria a Januária? Jamais! Nada a ver. Ninguém homenageia Januária na janela, o mar não faz maré cheia pra chegar mais perto dela.

É mania mesmo ficar ligando a vida, o que vejo, a canções que parecem ter sido feitas pra mim. A moça está ali agora. São quatro e trinta e dois de uma tarde de 8 de fevereiro de dois mil e vinte e um e ela está lá, com o olhar fixo, mas nunca pra mim.

Sonho: por isso eu vou na casa dela, falar do meu amor pra ela, tá me esperando na janela, não vou me segurar. Mentira pura, ela nunca virou os olhos pra cá, nem de soslaio. Nem mesmo quando coloco todas as minhas canequinhas de porcelana florescendo pés de limão, iguais aos que vi num tutorial na Internet.

A janela tem contornos de madeira de lei e quatro vidros verticais. Está sempre fechada, faça calor ou frio, sol ou chuva, vento ou calmaria. De repente, me vem à cabeça: abre a janela formosa mulher e vem dizer adeus a quem te adora. Apesar de te amar como sempre amei, na hora da orgia eu vou embora.

Imagino, quem sabe uma canção na voz do rei, mude esse quadro? Da janela o horizonte, a liberdade de uma estrada eu posso ver. O meu pensamento voa livre em sonhos pra longe de onde estou. Eu, às vezes, penso até onde essa estrada pode levar alguém, tanta gente já se arrependeu e eu vou pensar, vou pensar.

Coloco Tom na vitrola: eu poderia ficar sempre assim como uma casa sombria, uma casa vazia, sem luz nem calor. Mas quero as janelas abrir para que o sol possa vir iluminar nosso amor.

Então, quando ela se mexe e parece querer ir embora, vem o avesso do avesso do avesso: sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro, percorrer correndo os corredores em silêncio, erguer as paredes aparentes do edifício, penetrar no labirinto, o labirinto de labirintos dentro do apartamento.

Mas eu prefiro abrir as janelas pra que entrem todos os insetos.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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