Uma mensagem de amor para a avó e para mãe de Kathlen Romeu

Fiquei orgulhosa de ver uma mãe corajosa, dizendo a milhares, que sabemos que as balas não são perdidas e sim estrategicamente endereçadas

(Foto: Reprodução/Instagram)

(Foto: Reprodução/Instagram)

Opinião

Minhas irmãs, escrevo para vocês porque estamos exaustas de lermos constantemente notícias repletas de números e informações que nos dilaceram. Que nos tratam como estatística. Que nos desumanizam. Escrevo na tentativa de me aproximar de uma mãe, de uma avó (e de quem vier a ler) de uma forma mais humana.

Quero que saibam que recebi a notícia através dos meus dois filhos. Eles se aproximaram de mim enquanto cozinhava e percebi que seus rostos estavam com um olhar de tristeza, raiva, indignação e impotência.

Mas o tom da voz de um deles, me pareceu carregado de amor.

O mais velho me disse, de maneira suave: “Mãe, não se preocupe com a gente porque perdemos a fome com essa notícia. Mais uma vez, uma de nós teve a vida ceifada pelas mãos do Estado”.  Em seguida, o mais jovem, que estava em silêncio, me mostrou o celular com a notícia sobre a dor, que na noite dessa terça-feira fria de outono, atravessou a alma de vocês.

Comecei a ler. Mas parei, confesso, ao me deparar com a frase: “Ela foi morta aos 24 anos em meio a uma ação policial em Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio de Janeiro”. A manchete estava acompanhada de uma imagem de uma jovem negra vestida de branco, sorrindo que carregava em seu ventre uma vida. Não consegui continuar, pois o medo tomou conta dos meus pensamentos.

Eu tenho muito medo da violência, sabiam? Tenho certeza que entendem, pois é um medo é destinado ao coração e mentes, apenas, das mães de crianças negras. O medo que Kathlen provavelmente nos contou que sentia ao escrever em sua última postagem em uma rede social: ” (…) Estou me descobrindo como mãe e fico assustada pensando em como vai ser… dou risada, choro e tenho medo…”

 

Naquela terça, ninguém jantou. Desliguei o fogo que estava sob as panelas cheias de sopa e apaguei as luzes. Preparei um chá e fui para o quarto. Deixei a televisão ligada em um canal de desenho animado, para me fazer companhia até que eu conseguisse dormir.

No dia seguinte, ninguém em nossa casa tocou no assunto e eu evitei as redes sociais.

Mas, enquanto assistíamos juntos um desses jornais da tarde, a imagem de vocês duas na TV entrou em nossa casa nos contando a história de uma neta com saudades, que não suportou a distância e foi visitar a avó. Uma filha, orgulho de uma mãe, que retornou por algumas horas ao lugar onde vivia e recebia amor e mesmo com a rua em calmaria, foi vítima da violência.

Não aceitaremos a cínica justificativa de que os tiros que alvejam corpos negros saem das armas da comunidade onde vivem os amigos e parentes das vítimas

Eu vi duas mulheres negras que choravam e entre lágrimas contavam ao mundo de uma maneira breve, mas muito profunda, como tudo aconteceu.

Muitas de nós, mulheres negras, estávamos representadas nas vozes de vocês. O relato de mãe e avó falavam de como enfrentar o medo. O medo que sentimos enquanto geramos nossas crianças, quando rezamos para que elas venham com saúde para um mundo que não quer que elas sobrevivam. O medo que nos acompanhará por toda a vida, e nos ensinará como superar a insegurança com coragem e amor.

Kathlen foi protegida por uma mãe. Que preparou um lugar que parecia seguro que ela criasse seu filho. Estava acompanhada de uma avó, que lançou o corpo sobre o dela quando foi alvejado por uma bala do fuzil de um agente do Estado, nas ruas onde brincou, cresceu e caminhou altiva enquanto voltava da escola. Uma avó que mostrou ao mundo como estamos dispostas a dar a vida por nossas crias.

Eu me vi e também ao nosso povo na face de vocês quando revelaram —  entre palavras e pranto — que aprendemos com nossas ancestrais a enfrentar o ódio. Que somos os braços que apoiam e curam feridos. Mas que, sobretudo, ensinamos que podem sonhar apesar de tanta hostilidade.

Fiquei orgulhosa de ver uma mãe corajosa, dizendo a milhares, que sabemos que as balas não são perdidas e sim estrategicamente endereçadas. Revelando incisivamente que temos consciência que corpos negros são corpos matáveis e que as portas das casas da população negra podem ser arrombadas com coturnos. E que as investigações, se existirem, resultarão sempre na culpabilização das vítimas ou no argumento da legítima defesa de quem saiu às ruas para matar.

A jovem Kathlen Romeu, morta aos 24 anos durante ação da PM no Rio (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Não aceitaremos a cínica justificativa de que os tiros que alvejam corpos negros saem das armas da comunidade onde vivem os amigos e parentes das vítimas. Esse ardiloso desfecho, ainda que esteja escondido atrás da máscara do combate as drogas, não mais se sustenta.

Nós sabemos quais foram as mãos que contribuíram para que o estudante Ricardo Lima da Silva, não suportasse o racismo cotidiano da USP, ao ponto de cometer suicídio. E quais foram os pés que invadiram a casa do menino João Pedro e o alvejaram. Temos a consciência que os assassinos fazem parte do mesmo grupo que hoje está ressentido e rancoroso, pois sabem que conhecemos suas faces e não recuaremos.

Kathlen Romeu foi impedida de parir e beijar a criança que gerava, porque sua vida foi interrompida precocemente por quem se recusa a compreender que não haverá conciliação no Brasil enquanto lermos diariamente mensagens de “descanse em paz” para crianças e jovens negras assassinadas precocemente.

Não haverá paz enquanto esta estrutura não ruir.

Eu sinto muito!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Pedagoga com 30 anos de experiência na área da Educação no município de São Paulo. Foi Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar 10 anos. Supervisora Técnica por 4 anos. Diretora da Divisão de Normatização Técnica da Secretaria Municipal de Educação.

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