Arthur Chioro

Ex-ministro da Saúde

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Uma medicina mais diversa

As cotas para a residência servem tanto para enfrentar desigualdades que persistem após a universidade quanto para qualificar a prática médica

Uma medicina mais diversa
Uma medicina mais diversa
Vanuza Kaimbé, 50, sendo vacinada no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Foto: GOVSP
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Em audiência pública no Senado Federal sobre cotas na residência médica, Jérzey Timóteo, representando o Ministério da Saúde, encerrou sua intervenção com um relato pessoal: “Fui um menino preto de pele sempre irritada, mas pouco inflamada, segundo os médicos, porque não ficava vermelha. Por isso passei anos sem diagnóstico de uma dermatite atópica”.

Não era culpa de um médico em particular, mas de uma ciência que não aprendeu a conviver com todos os tipos de corpos. Infelizmente, essa realidade segue a se fazer presente.

O relato ajuda a compreender por que preocupa o projeto que pretende proibir cotas nas seleções de residência médica. Seu argumento central é aparentemente simples: médicos beneficiados por ações afirmativas na graduação já teriam superado as desigualdades de origem e estariam aptos a disputar em igualdade de condições as vagas de residência. O problema é que essa igualdade simplesmente não existe.

A Demografia Médica no Brasil 2025, produzida pela USP em parceria com a Associação Médica Brasileira, mostra que apenas 9% dos estudantes de medicina ingressaram por alguma ­modalidade de reserva de vagas. As cotas étnico-raciais alcançavam 13.072 alunos, menos de 5% do total. Nas escolas privadas, onde estudam 77% dos futuros médicos, 1% das vagas é reservado para cotistas.

A desigualdade, portanto, não desaparece com o diploma de graduação e não apa­ga pon­tos de par­tida profundamente distintos.

Tomemos o Exame Nacional de Residência, o Enare, coordenado pela HU Brasil, que oferece vagas por cotas seguindo as diretrizes legais. Há uma única prova nacional, utilizando a nota do Enamed, com ponto de corte e exigência de suficiência técnica e cognitiva.

O candidato optante por cota disputa também pela ampla concorrência e, caso seja classificado por ela, libera a vaga reservada para outro candidato. Há ainda avaliação biopsicossocial, heteroidentificação e comprovação documental quando cabíveis. Se não cumprir os requisitos, está fora.

No caso da residência médica, nem metade das vagas disponibilizadas para pessoas com deficiência, pretas e pardas, indígenas e quilombolas é preenchida. Então, qual é o temor?

Cotas não são concessão de diplomas, flexibilização da formação médica ou autorização para o exercício profissional sem competência. São instrumentos para enfrentar desigualdades que persistem mesmo depois da universidade.

Quem teve familiares com suficiência financeira, pôde estudar sem trabalhar para sobreviver, teve acesso a melhores escolas, cursos, idiomas, congressos e, eventualmente, por parentesco, acesso a redes profissionais. Não percorreu o mesmo caminho de quem precisou superar sucessivamente barreiras sociais, econômicas, raciais, territoriais ou relacionadas à deficiência. É precisamente aí que o Estado deve atuar, indicando que medicina – e que SUS – queremos construir.

O Brasil já reconheceu a legitimidade das ações afirmativas no ensino superior e no serviço público. O próprio mundo corporativo busca diversidade. Na saúde, isso é ainda mais importante: diversidade qualifica o cuidado, a ciência e a própria medicina.

Talvez seja necessário reconhecer uma verdade incômoda: a medicina brasileira sempre conviveu com cotas. Durante décadas, porém, foram cotas silenciosas, determinadas por renda, sobrenome, relações familiares e pela possibilidade de pagar mensalidades inacessíveis à imensa maioria da população.

Precisamos avançar na construção de uma práxis antirracista, anticapacitista e comprometida com a equidade educacional. A política de ações afirmativas amplia o acesso de grupos historicamente sub-representados.

As cotas não negam o mérito nem diminuem as histórias individuais de superação. Reconhecem, simplesmente, que talento e capacidade estão distribuídos por toda a sociedade, enquanto oportunidades continuam profundamente desiguais.

Uma medicina mais diversa será também mais preparada para compreender os corpos, os territórios, as culturas e as necessidades do povo brasileiro.

A medicina precisa reencontrar-se com o Brasil, com a Constituição de 1988 e com o projeto civilizatório que ela consagrou. E isso significa colocá-la, cada vez mais, a serviço do SUS e da extraordinária diversidade do nosso povo. •


*Com a colaboração de Jérzey Timóteo, médico coloproctologista e secretário-adjunto da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação em Saúde do Ministério da Saúde.

Publicado na edição n° 1428 de CartaCapital, em 02 de setembro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Uma medicina mais diversa’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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