Uma indígena com indumentária não é um convite ao fetiche sexual

Lutamos contra o machismo, contra o patriarcado e buscamos romper barreiras

(Foto: Pablo Albarenga)

(Foto: Pablo Albarenga)

Opinião

Meu nome é Leilane Domitilla Sousa Vasconcelos, tenho 32 anos e sou filha da Vila de Alter do Chão, região balneária do município de Santarém, no Oeste do Pará.

Faço parte do povo Borari, nome indígena dado aos nativos aqui da Vila que hoje, na maioria, vivem uma vida que poderíamos chamar de urbana, ainda que muito mais conectada com a natureza do que um sudestino poderia sonhar.

De 2000 a 2016, usei o nome Leilane Domitilla. Nessa época, ocupei um posto muito importante aqui em Alter do Chão: o de Rainha do Çairé do Boto Cor de Rosa.

Çairé ou Sairé é uma festa profano-religiosa. A parte laica, para quem nunca ouviu falar, pode ser explicada fazendo um paralelo com o Carnaval do Rio, de São Paulo, ou com o Boi de Parintins. No “Çairódromo” construído no coração da vila, acontece anualmente, em setembro, uma disputa de alegorias, danças e performances apresentadas por dois botos, o Cor de Rosa e o Tucuxi.

Traduzindo em números: em 2018, o Çairé tinha público estimado de 12 mil pessoas numa vila que hoje tem 6 mil habitantes e, portanto, é uma importante fonte de renda para os moradores da vila.

Durante 16 anos no posto de Rainha do Çairé, aproveitei a visibilidade para desenvolver um papel social para a Rainha, que foi de educação ambiental a palestras sobre a cultura local. Hoje, a Rainha do Çairé não tem somente o compromisso de estar ensaiada, linda e ornamentada no dia da grande festa, a Disputa dos Botos. Ela também é exemplo e inspiração para outras mulheres de Alter do Chão.

Como Rainha, obviamente, minha imagem ganhou exposição. As pessoas notaram meu corpo. Um corpo de mulher índia. Um recado importante para você que me lê e acaba vendo fotos minhas e de minhas companheiras: jamais entenda o fato de valorizarmos nossa beleza física e nossos traços, que para os não-indígenas podem parecer exóticos, usando ornamentos e pinturas corporais, como um convite a uma apreciação sexual.

Esse entendimento, muito comum, está vinculado a abusos e violências que estão no cerne da nossa luta. Trabalhamos nossa autoestima. Muito. Estética ou intelectualmente. Mas uma mulher indígena lindamente retratada ou dançando, livre, não está a serviço de fetiches étnicos ou de qualquer tipo.

O foco maior é o da luta pelas mulheres indígenas. Infelizmente, quase não há registros sobre violência contra a mulher indígena no Brasil. Algo que deixa invisível uma questão real e grave.

(Foto: Daniel Gutierrez Govino)

Um dos caminhos de resistência é o Coletivo de Mulheres Indígenas Suraras do Tapajós. Surara é um grito de Guerra em Nheengatu. O grupo nasceu em 2016 com a missão de combater a violência contra a mulher indígena e o racismo, promovendo o acolhimento e fortalecimento da autoestima e contribuindo para o empoderamento econômico e politico, em defesa se seus territórios. Hoje, o Coletivo é composto por 30 mulheres guerreiras. Para o sustento financeiro, há uma loja de artesanato indígena de mesmo nome na orla de Alter do Chão.

Lutamos contra o machismo, contra o patriarcado e buscamos romper barreiras, até algumas que para os não-indígenas podem soar incompreensíveis: o direito de tocar o tambor numa roda de Carimbó por exemplo.

Não assino mais Leilane Vasconcelos, do registro em cartório e herança dos portugueses colonizadores da minha região.

Nem Leilane Domitilla, a rainha do Çairé.

Sou Leila Borari, nome que carrega minha ancestralidade, etnia e resistência.

Surara!

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É turismóloga e militante pelo coletivo de mulheres indígenas Suraras do Tapajós

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