Justiça

Uma homenagem a Thiago Fabres de Carvalho

O carnaval se foi e, juntamente com a folia, você partiu mais cedo e de uma maneira repentina. Ainda atordoado ao seu passamento, recebi a mensagem do Brenno Tardelli perguntando-me se escreveria um texto em homenagem a Thiago Fabres de Carvalho. Sem sombra de dúvida, […]

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O carnaval se foi e, juntamente com a folia, você partiu mais cedo e de uma maneira repentina. Ainda atordoado ao seu passamento, recebi a mensagem do Brenno Tardelli perguntando-me se escreveria um texto em homenagem a Thiago Fabres de Carvalho. Sem sombra de dúvida, não seria eu o mais qualificado para essa missão. Além disso, eu sempre considerei o fato de que escrever não é algo simples e fácil. Porém, ainda assim decidi me entregar a esse tributo materializado nestas linhas.

Thiago Fabres de Carvalho faleceu nessa semana, levado de nós vítima de um enfarte. Professor de Direito na Universidade Federal do Espírito Santo, obteve mestrado e doutorado pela Universidade do Vale do Sinos – UNISINOS, além de Pós Doutorado pela Universidade de Hamburgo, na Alemanha. Estudou com os maiores juristas do país, contando com a amizade de muitos que reconheciam nele um imenso talento nos estudos do abolicionismo penal e da criminologia do país.

Cabe-me, nessas linhas, prestar as homenagens a quem tão cedo nos deixou. Lembro-me de Leonardo Boff, quando destaca a importância dos sonhos:

O sonho é a fala do inconsciente pessoal e coletivo, particularmente os grandes sonhos que têm a ver com nossa própria identidade mais radical e com o nosso destino da vida.”[i]

Ora, os sonhos de Thiago eram de uma sociedade mais democrática e alegre, e do estabelecimento de um modelo de persecução penal que, enfim, respeitasse os direitos e garantias fundamentais. Para que esses sonhos posam se efetivar, se embrenhou pelos caminhos da militância da advocacia e da produção acadêmica. Aliás, em um país com elevados índices de analfabetismo – real ou funcional – compartilhou esses sonhos com a leveza de um professor apaixonado pela sala de aula e que sempre se mostra capaz de acreditar potencial do seu aluno, amigo e interlocutor. É claro que tinha seus defeitos. Afinal, todos nós temos. Mas, as suas qualidades permitiam que focássemos naquilo que você possuía de bom.

Dois eventos me permitem cravar que seus sonhos não passavam de devaneios. Longe disso, havia a prática a demonstrar que, de fato, Thiago acreditava neles e por eles que as suas lutas eram movidas.

Em outubro passado, no que poderia ter sido uma grande furada, ele transformou em algo que até hoje não consegui repetir na Defensoria Pública sediada dentro de uma unidade prisional. Não sei a razão de o Jefferson Gomes, advogado criminalista carioca, tê-lo levado para a Cadeia Pública José Frederico Marques, só sei que em determinado momento estávamos frente a frente. Ele me acompanhou em algumas audiências de custódia, brincou com o placar empatado entre o Estado-acusação e o Estado-defesa e me puxou no canto para falar que determinado ator usava ainda do conceito de periculosidade como razão de ser dos aprisionamentos processuais. Mas, não foi ali que compartilhou dos seus sonhos. Mesmo sabendo que daria aula à noite – e nossos alunos se encontram desolados – naquele estilo provocativo de sempre, perguntei se não toparia apresentar o tema do teu livro mais recente. Sem pensar duas vezes, você perguntou que horas poderia começar a conversa.

Nesse período todo que me encontro designado para atuar na Central de Audiência de Custódia, jamais vi alguém da academia se propor a conversar in loco com defensores, servidores e estagiários.

Algumas pessoas me perguntavam quem era aquela pessoa  –  poucos chegaram mesmo a usar o termo louco para qualificar alguém que se dispõe a conversar em uma unidade prisional sobre assuntos acadêmicos – que criou uma roda para conversar com todos nós, eu simplesmente respondia é o Fabres, um verdadeiro artista que procurou onde estava seu público.

Thiago Fabres de Carvalho (esq.) visita a Defensoria Pública do RJ na Central de Audiências de Custódia.

O segundo evento já se relaciona com nossa derradeira conversa e mal sabia eu que ali nos despedíamos. Thiago gostava de ouvir os causos. Apesar de simples, o caso era difícil, pois envolvia o descumprimento de medida protetiva. O custodiado teria enviado, via whatsapp, uma música do Amado Batista para sua ex-companheira. Ele não poderia ter mais qualquer contato com ela. Mas, ainda assim não se conteve. Divaguei sobre o luto, a perda daquele senhor e de que aquela música certamente não o ajudaria. Você deu boas gargalhadas com a tese Amado Batista, ainda mais quando te contei que o preso agradeceu o esforço, mas ressalvou que não era aquela música.

E esse segundo caso demonstra bem quem Thiago é – ainda não aceitei a usar o passado: alegre, mesmo diante de todas as dificuldades da vida. E para traduzi-lo nada melhor que a música que todos nós – falo por eles porque sentimos sua falta: Alberto, Jeffeson, Djeff, Santoro, Lênio, Reinaldo, Alexandre, Minagé, entre tantos outros – , os seus amigos, guardamos como lembrança:

“Deixe de lado esse baixo astral,

Erga a cabeça enfrente o mal,

Que agindo assim será vital

Para o seu coração.

É que em cada experiência

Se aprende uma lição.”[ii]

Assista ao TEDx de Thiago Fabres de Carvalho:


[i] BOFF, Leonardo. Reflexões de um velho teólogo e pensador. Petrópolis: Vozes, 2018. pp. 17-18

[ii] BISPO, Adilson & ROBERTO, Zé. Conselho.

O carnaval se foi e, juntamente com a folia, você partiu mais cedo e de uma maneira repentina. Ainda atordoado ao seu passamento, recebi a mensagem do Brenno Tardelli perguntando-me se escreveria um texto em homenagem a Thiago Fabres de Carvalho. Sem sombra de dúvida, não seria eu o mais qualificado para essa missão. Além disso, eu sempre considerei o fato de que escrever não é algo simples e fácil. Porém, ainda assim decidi me entregar a esse tributo materializado nestas linhas.

Thiago Fabres de Carvalho faleceu nessa semana, levado de nós vítima de um enfarte. Professor de Direito na Universidade Federal do Espírito Santo, obteve mestrado e doutorado pela Universidade do Vale do Sinos – UNISINOS, além de Pós Doutorado pela Universidade de Hamburgo, na Alemanha. Estudou com os maiores juristas do país, contando com a amizade de muitos que reconheciam nele um imenso talento nos estudos do abolicionismo penal e da criminologia do país.

Cabe-me, nessas linhas, prestar as homenagens a quem tão cedo nos deixou. Lembro-me de Leonardo Boff, quando destaca a importância dos sonhos:

O sonho é a fala do inconsciente pessoal e coletivo, particularmente os grandes sonhos que têm a ver com nossa própria identidade mais radical e com o nosso destino da vida.”[i]

Ora, os sonhos de Thiago eram de uma sociedade mais democrática e alegre, e do estabelecimento de um modelo de persecução penal que, enfim, respeitasse os direitos e garantias fundamentais. Para que esses sonhos posam se efetivar, se embrenhou pelos caminhos da militância da advocacia e da produção acadêmica. Aliás, em um país com elevados índices de analfabetismo – real ou funcional – compartilhou esses sonhos com a leveza de um professor apaixonado pela sala de aula e que sempre se mostra capaz de acreditar potencial do seu aluno, amigo e interlocutor. É claro que tinha seus defeitos. Afinal, todos nós temos. Mas, as suas qualidades permitiam que focássemos naquilo que você possuía de bom.

Dois eventos me permitem cravar que seus sonhos não passavam de devaneios. Longe disso, havia a prática a demonstrar que, de fato, Thiago acreditava neles e por eles que as suas lutas eram movidas.

Em outubro passado, no que poderia ter sido uma grande furada, ele transformou em algo que até hoje não consegui repetir na Defensoria Pública sediada dentro de uma unidade prisional. Não sei a razão de o Jefferson Gomes, advogado criminalista carioca, tê-lo levado para a Cadeia Pública José Frederico Marques, só sei que em determinado momento estávamos frente a frente. Ele me acompanhou em algumas audiências de custódia, brincou com o placar empatado entre o Estado-acusação e o Estado-defesa e me puxou no canto para falar que determinado ator usava ainda do conceito de periculosidade como razão de ser dos aprisionamentos processuais. Mas, não foi ali que compartilhou dos seus sonhos. Mesmo sabendo que daria aula à noite – e nossos alunos se encontram desolados – naquele estilo provocativo de sempre, perguntei se não toparia apresentar o tema do teu livro mais recente. Sem pensar duas vezes, você perguntou que horas poderia começar a conversa.

Nesse período todo que me encontro designado para atuar na Central de Audiência de Custódia, jamais vi alguém da academia se propor a conversar in loco com defensores, servidores e estagiários.

Algumas pessoas me perguntavam quem era aquela pessoa  –  poucos chegaram mesmo a usar o termo louco para qualificar alguém que se dispõe a conversar em uma unidade prisional sobre assuntos acadêmicos – que criou uma roda para conversar com todos nós, eu simplesmente respondia é o Fabres, um verdadeiro artista que procurou onde estava seu público.

Thiago Fabres de Carvalho (esq.) visita a Defensoria Pública do RJ na Central de Audiências de Custódia.

O segundo evento já se relaciona com nossa derradeira conversa e mal sabia eu que ali nos despedíamos. Thiago gostava de ouvir os causos. Apesar de simples, o caso era difícil, pois envolvia o descumprimento de medida protetiva. O custodiado teria enviado, via whatsapp, uma música do Amado Batista para sua ex-companheira. Ele não poderia ter mais qualquer contato com ela. Mas, ainda assim não se conteve. Divaguei sobre o luto, a perda daquele senhor e de que aquela música certamente não o ajudaria. Você deu boas gargalhadas com a tese Amado Batista, ainda mais quando te contei que o preso agradeceu o esforço, mas ressalvou que não era aquela música.

E esse segundo caso demonstra bem quem Thiago é – ainda não aceitei a usar o passado: alegre, mesmo diante de todas as dificuldades da vida. E para traduzi-lo nada melhor que a música que todos nós – falo por eles porque sentimos sua falta: Alberto, Jeffeson, Djeff, Santoro, Lênio, Reinaldo, Alexandre, Minagé, entre tantos outros – , os seus amigos, guardamos como lembrança:

“Deixe de lado esse baixo astral,

Erga a cabeça enfrente o mal,

Que agindo assim será vital

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[i] BOFF, Leonardo. Reflexões de um velho teólogo e pensador. Petrópolis: Vozes, 2018. pp. 17-18

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