Uma grande viagem de trem

Será que tem Ferrorama usado pra vender no Mercado Livre?

O prazer era ir assistindo à passagem de um vagão, depois outro, e mais outro, até o último que ia sumindo e desaparecia na curva dos trilhos (Foto: iStock)

O prazer era ir assistindo à passagem de um vagão, depois outro, e mais outro, até o último que ia sumindo e desaparecia na curva dos trilhos (Foto: iStock)

Opinião

Apaixonou-se por trens ainda menino, quando ganhou um Ferrorama de Papai Noel naquele Natal de mil novecentos e sessenta e pouco. Instalado no escritório do pai, o objeto do desejo era cuidado com muito capricho e esmero. Os vagões, a estação, o maquinista, os trilhos. Aos sábados, costumava passar um paninho com álcool para tirar o pó de tudo e, com um cotonete, ia limpando os cantinhos impossíveis do paninho atingir. 

Seu primeiro contato com trens de verdade foi com os da Leopoldina, em Cataguases, nas férias de janeiro. De tempos em tempos eles passavam vagarosamente em frente à chácara da sua madrinha. Aquele barulho, o apito, nunca saíram dos seus ouvidos. Muitas vezes estava dormindo ainda quando ouvia o barulho e um leve tremer do chão do quarto. Pulava da cama de pijama e tudo e corria para vê-lo passar.

Aqueles trens levavam minério de um lugar para outro. Pareciam pesados e eram marrons de minério. O prazer era ir assistindo à passagem de um vagão, depois outro, e mais outro, até o último que ia sumindo e desaparecia na curva dos trilhos. 

Na juventude, viajou no Vera Cruz, que o levou juntamente com um colega do Colégio Arnaldo, até a Cidade Maravilhosa. Uma viagem histórica. Os dois foram de trem para levar uma biografia até a Casa de Rui Barbosa, livro que ganhou um prêmio robusto que o ajudou a pagar as contas no exílio parisiense. 

Foi em Paris que ouviu pela primeira vez Milton Nascimento cantando Ponta de Areia: Ponta de areia ponto final/Da Bahia-Minas estrada natural/Que ligava Minas ao porto, ao mar/Caminho de ferro mandaram arrancar/Velho maquinista com seu boné/Lembra do povo alegre que vinha cortejar/Maria fumaça não canta mais/Para moças flores janelas e quintais.

Longe dos trens da Leopoldina, bateu uma saudade danada daquela locomotiva, apesar de viajar sempre pelos trens Europa afora. Eram diferentes, mais modernos, mas guardavam aquele mistério de ir andando vagão por vagão até chegar ao vagão restaurante, sua paixão. 

No dia em que atravessou o túnel do Canal da Mancha pela primeira vez, chegou a chorar. Não acreditava viver para passar aqueles vinte minutos no escuro, debaixo do mar, dentro de um trem. 

No trem-bala no Japão, chegou a imaginar estar num avião, só que mais seguro por estar no chão. De longe, da janela, fotografou o Monte Fuji, postou e escreveu: O Monte Fuji, visto de um trem-bala japonês. Foram 1.326 curtidas e 36 comentários. 

Hoje, pensando bem, tem muito tempo que não vê ou entra dentro de um trem. Hoje veio uma ideia na sua cabeça: Será que tem Ferrorama usado pra vender no Mercado Livre? Assim, retomaria a viagem. 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

Responda nossa pesquisa e nos ajude a entender o que nossos leitores esperam de CartaCapital

Um minuto, por favor...

Obrigado por ter chegado até aqui. Combater a desinformação, as mentiras e os ataques às instituições custa tempo e dinheiro. Nós, da CartaCapital, temos o compromisso diário de levar até os leitores um jornalismo crítico, alicerçado em dados e fontes confiáveis. Acreditamos que este seja o melhor antídoto contra as fake news e o extremismo que ameaçam a liberdade e a democracia.

Se você acredita no nosso trabalho, junte-se a nós. Apoie, da maneira que puder. Ou assine e tenha acesso ao conteúdo integral de CartaCapital!

Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Compartilhar postagem