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Uma escrita dedicada às mulheres de todas as idades

Cresce o número de mulheres que não aceitam ser manipuladas pelo medo de envelhecer. Uma mulher mais velha sente desejos, celebra e festeja!

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Quando completei 50 anos, além das homenagens, comecei a receber também mensagens mostrando que a sociedade estava me enxergando de maneira diferente. O lugar desejado para que eu ocupasse e o comportamento esperado passavam por mudanças. Comecei a viver na pele o quanto mulheres estão mergulhadas em uma cultura que diz a elas como a juventude e a beleza são inseparáveis e que experiências vividas têm pouco valor.

Manter a saúde mental e o auto amor é um dos maiores desafios para mulheres em um país machista e racista como o Brasil e com o passar dos anos, começamos a enfrentar o aumento de situações violentas, que deixam de ser ocasionais e passam a ser constantes. Trago algumas vivenciadas por mim, tais como:

1) Ouvir comentários preconceituosos em transportes públicos “Ela deveria estar em casa, já que o horário é de pico”. 

2) Ou ainda, uma muito comum é quando no transito tenho de ouvir frases imperativas mencionando trabalhos domésticos: Vá lavar roupa, a louça ou cozinhar, finalizadas com Dona Maria. Sim, juntamente com a menopausa, mulheres são batizadas com o nome de Maria, talvez na tentativa de homogeneizar.

3) Convites para reuniões em bares, eventos e festas quase que desapareceram, sinais de preterimento dos espaços, principalmente os de prazer e diversão. Juntamente com a senha preferencial que recebia sem pedir nos estabelecimentos, gestos que vieram de muitas mãos conhecidas.

Ser uma mulher que envelheceu no Brasil é enfrentar gestos para que fiquemos em um local de descarte e se for uma negra, juntamente com o racismo, uma outra clivagem se apresentará: o etarismo, que é o preconceito que as pessoas sofrem em decorrência da idade.

A discriminação impacta ainda mais se for uma mulher que não aprecia encontros sexistas como chás de bebes, cozinha ou que escolhe não participar de eventos frequentados, em geral, por mais pessoas velhas como bingos, excursões de aposentadas, bailes com músicas antigas e demais espaços onde a pluralidade de idade não está presente.

Manter hábitos simples como ir à praia de biquíni, usar roupas coloridas, vestidos e saias curtas, preferir maquiagens em tons não terrosos, dançar publicamente ao som das bandas que estão no topo das plataformas, estar atualizada e não reproduzir a traiçoeira frase: “no meu tempo era assim”, como se tivéssemos um prazo de validade, será possível se enfrentar os olhares e não adoecer emocionalmente.

Apesar da violência etária, muitas mulheres estão desafiando as posições emboloradas e ultrapassadas de quem por medo e ignorância insiste em acreditar que ser uma mulher mais velha é viver em um corpo que não sente desejos, não celebra, não festeja, recusa a novidade e que não existe belezas nas marcas que o tempo deixa no rosto, mãos, cabelos, olhar e na trajetória de todo ser vivente que tiver a sorte de envelhecer.

A boa notícia é cresce o número de mulheres que não aceitam ser manipuladas para sentir medo, ao invés de gratidão por poder de envelhecer, mesmo que seja em um país que as despreza. Há olhares sensíveis e atentos para as belezas que existem em um corpo que não é mais jovem e há evidencias que não haverá mais espaços para quem ainda não conseguiu perceber que a convivência com as pessoas mais velhas, além de ser uma honra, é inevitável, pois se considerarmos que a expectativa de vida no Brasil é de 73 anos para homens e para mulheres, podemos adicionar nesse número uns 7 anos, segundo IBGE.

Ou seja, atura ou surta!

Nesse sentido, compartilho que juntamente com cuidado e amor pelo meu corpo que a cada dia envelhece, tenho adentrado portais que imaginava trancados que para mim. Convites para escrita em livros, nessa Coluna que agora você lê, trabalhos em eventos e propagandas, e outras oportunidades me surgiram através dos espaços que me permiti: “As redes sociais“.

Através do movimento de publicar nas redes é que veio ao meu encontro, por exemplo, o Booker Eduardo Borba com seu olhar sensível e atento às belezas plurais existentes no Brasil, que, apesar das mazelas preconceituosas, é sobretudo colorido e precisamos reconhecer que a mudança de paradigma é uma das condições necessárias para a continuidade da nossa existência.

Eduardo é daquelas pessoas raras, que sabe estimular positivamente alguém e me convidou para fazer testes visando participar da campanha da Avon Brasil BBB 22. Ele submeteu o material cuidadosamente preparado, que foi analisado pela lente competente Juh Almeida e equipe. Ela é uma mulher negra, que, assim como eu, hoje ocupa uma posição de destaque graças à nossa ancestralidade que através da luta, preparou a terra para que pudéssemos agora caminhar sabendo ser chegada a nossa vez de arar o solo para quem virá.

Após saber da minha aprovação, compareci na data marcada no local onde seriam realizadas as filmagens. Juh Almeida era a Diretora e me recebeu como uma irmã mais velha e eu a ela como a filha que eu sonhei gerar, mas não tive. Nossa conexão foi ancestral e imediata. Ela me abraçou e disse: “Fui eu que te escolhi!” De minha parte, estou certa da importância de mulheres como Juh, estarem em lugares de decisão para poder dizer: Fui eu que decidi por quem tem a face do Brasil.

O local preparado para filmagem me tocou. Era uma releitura de uma sala de TV comum para muitas famílias nos anos 80. Tudo tão cuidadosamente arrumado, que senti a presença de minha mãe, tias, avós e irmãs naquele cômodo. A sala tinha cheiro de infância. Embalada pela direção de Juh, eu dei o melhor de mim, acompanhada de outras mulheres que nos espaços de maquiagem, camarim, cabelereira, dentre outros, me contavam da importância daquele trabalho, pois contribuiria com o pão que levam para casa.

Pensava a todo tempo o quanto o trabalho de mulheres alimenta outras pessoas. O quanto é necessário pensar em políticas públicas e iniciativas privadas que se comprometam com a inserção de mulheres no trabalho. São elas que sustentam a maioria dos lares neste país. Éramos, negras, brancas, trans e plurais como a vida. No final das filmagens precisei abraçar Juh Almeida, pois queria que ela sentisse minha emoção através do contato com o meu corpo. Hoje escrevo na esperança que essa mesma energia alcance quem me lê, e que esse artigo possa chegar como um abraço às mulheres de todas as idades.

Silvia Maria

Silvia Maria
Pedagoga com 30 anos de experiência na área da Educação no município de São Paulo. Foi Coordenadora Pedagógica, Supervisora Escolar 10 anos. Supervisora Técnica por 4 anos. Diretora da Divisão de Normatização Técnica da Secretaria Municipal de Educação.

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