Uma carta para Paulo Freire

'Meu Mestre querido, as coisas não estão fáceis. À nossa volta, muito horror e destruição. Ainda assim, mantenho a esperança'

Educadores homenageiam Luiza Erundina e Paulo Freire no sábado 26, em São Paulo. (Foto: MST)

Educadores homenageiam Luiza Erundina e Paulo Freire no sábado 26, em São Paulo. (Foto: MST)

Opinião

Belo Horizonte, 14 de agosto de 2020

Querido Mestre Paulo Freire,

Sinto uma alegria imensa em poder lhe escrever. Vinte e três anos se passaram desde que o senhor nos deixou. Durante o tempo em que frequentei um centro espírita kardecista, aprendi que, ao deixar o plano terreno, cada um de nós vai para um lugar diferente. Caso isso seja verdade, imagino que o senhor tenha como vizinha a Carolina Maria de Jesus.

Digo isso pois, assim como o senhor, ela sempre defendeu os mais pobres. Além disso, no livro Quarto de despejo, Carolina deu contribuições significativas para pensarmos na urgência de uma educação emancipatória. Antes mesmo de o senhor publicar A importância do ato de ler, ela, que pôde frequentar a escola por apenas dois anos, escreveu: “Não sei dormir sem ler. Gosto de manusear um livro. O livro é a melhor invenção do homem.”

Pensando nisso, no ano passado, propus um trabalho em que meus alunos e alunas do curso de Pedagogia tiveram que estabelecer um diálogo entre o seu livro e o diário da Carolina. Tenho certeza de que o senhor ficaria muito feliz ao ler os artigos que eles produziram.

Como deve saber, vivemos tempos muito difíceis. Estamos cansados. Não conseguimos respirar. Como bem disse um sertanejo de Quixeramobim, município do Ceará: “a peste chegou”. Diariamente, vemos ofensas a sua pessoa e ao seu legado. O que não é nenhuma novidade, uma vez que as perseguições ocorridas logo após o golpe de 1964 o obrigaram a partir para o exílio. Uma coisa é certa: os que o agridem jamais leram um só livro do senhor.

Há alguns dias, reli Pedagogia do oprimido. Confesso que foi uma leitura muito angustiante. Embora tenhamos avançado nas duas últimas décadas, a verdade é que as bases que sedimentam o nosso país continuam as mesmas. Assim como nos idos de 1960, os que detêm o poder falam em “ameaça comunista”, dizem defender os “valores da família”. A todo momento, apropriam-se do nome de Deus. Dessa forma, criam artifícios para atender aos interesses das “elites dominadoras”, ao passo que cresce o número de “esfarrapados do mundo”: sem emprego, sem direitos e sem perspectivas de futuro. São estes as maiores vítimas da Covid-19, que já matou mais de 100 mil pessoas.

Durante a leitura, senti raiva dos “opressores falsamente generosos”, que diante dos “demitidos da vida” se arvoram a fazer “caridade” somente para alimentar o próprio ego. Estes, em momento algum, refletem que os famintos, os que estão desabrigados são resultado de uma ordem injusta, que desumaniza, entorpece e cria abismos. Recusam-se a entender que a massa de miseráveis somente deixará de existir com educação de qualidade, criação de políticas públicas de inclusão sociorracial e distribuição de renda.

Bom seria se pudessem aprender com o senhor: “A grande generosidade está em lutar para que, cada vez mais, estas mãos, sejam de homens ou de povos, se estendam menos, em gestos de súplica. Súplicas de humildes a poderosos. E se vão fazendo, cada vez mais, mãos humanas, que trabalhem e transformem o mundo”.

Mas a leitura não me trouxe apenas raiva e angústia. Terminei Pedagogia do Oprimido com a certeza de que por meio da educação podemos ampliar o direito à cidadania aos que ainda não podem exercê-la. Senti vontade de ir correndo para a sala de aula ensinar, partilhar tudo que aprendi. Como é bom tê-lo como mestre. O livro me fez rever a minha caminhada como professora da Educação Básica em bairros pobres da região metropolitana de Belo Horizonte. Bairros que lembram muito a periferia do seu Recife.

Sempre busquei fazer com que os meninos e meninas com quem convivi diariamente compreendessem que as condições precárias de existência, vivenciadas por eles e por seus familiares, são resultantes das injustiças e dos desmandos que marcam o Brasil desde o nascedouro. Nossas aulas de História eram permeadas pelo o que o senhor chamou de dialogicidade. Nunca vi os estudantes como “vasilhas” nas quais eu devia depositar conteúdos. Muito pelo contrário: por meio do diálogo, ensinava o que sei e aprendia com as experiências, com as visões de mundo que meus alunos e alunas carregavam. É bem verdade que por vezes falhei, mas garanto ao senhor que busquei implementar a pedagogia do oprimido. Uma “pedagogia humanista e libertadora”.

Além de exercer a docência, tenho tido a oportunidade de viajar pelo país e conversar com professores dos ensinos Fundamental e Médio. Nessas andanças, levo o seu pensamento e tento fazer com que meus colegas de jornada percebam a função social da educação. Tento mostrar que a escola pode e deve ser o lugar do encanto, o lugar em que professores e estudantes se sintam realizados.

Insisto em dizer que precisamos assumir a condição de pensadores da Educação, como um dos caminhos para ressignificar a nossa profissão e exigir o respeito que ela merece. Insisto ainda em afirmar que não podemos aceitar o lugar do silêncio. Não podemos aceitar que nos seja imposto o papel de meros transmissores dos conteúdos presentes nos livros didáticos. No meu entendimento, ao agirmos assim, construímos alternativas para enfrentar as omissões em relação à educação e ao fazer docente.

Também nessas andanças, tenho presenciado iniciativas que reforçam minha certeza de que outra educação é possível. Em dezembro do ano passado, participei do I Seminário de Docência de Natal, evento promovido pela Secretaria Municipal de Educação potiguar. Foi a primeira vez que estive em um encontro protagonizado por professores e professoras da Educação Básica. Foi uma das coisas mais bonitas que vi na vida. Mais bonito ainda foi ter o senhor como o grande homenageado. Quando a professora Ednice Peixoto, organizadora do evento, mencionou o seu nome no microfone, o auditório quase veio abaixo. O senhor foi aplaudido por longos minutos. Ainda que uns e outros desejem o contrário, o senhor é e sempre será o nosso Patrono da Educação.

Meu Mestre querido, as coisas não estão fáceis. À nossa volta, muito horror e destruição. Ainda assim, mantenho a esperança. Esperança do verbo esperançar. Conforme o senhor afirmou: “Minha esperança é necessária, mas não suficiente. Ela, só, não ganha a luta, mas sem ela, a luta fraqueja. Precisamos da esperança crítica, como o peixe precisa da água despoluída.”

Um abraço grato e terno.

Luana Tolentino

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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