Um minuto para os nossos comerciais

'Vou ser sincero, o lugar onde mais clico no Youtube ultimamente é no tal do pular anúncio'

Foto: Reprodução

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Opinião

As camisas dos times de futebol não tinham nenhuma publicidade. Era apenas o distintivo do clube e o número nas costas. Nem mesmo o nome do jogador tinham. Eram bem bacanas.

A primeira que eu me lembro de ter publicidade foi a do Flamengo. De repente apareceu um Lubrax entre o vermelho e o preto. Aquilo assustou muita gente. Alguns chegaram a pensar que o Mengão tinha mudado de nome. Mas não, era apenas um anúncio do óleo para motor da Petrobras.

Macacão de piloto de Fórmula 1 tinha publicidade, e muita: a lua oval da Esso, a concha da Shell, o cavalo alado da Texaco. Naquele carro preto que me fez torcer muito, tinha uma publicidade da JPS, dos cigarros John Player Special, lembro-me bem.

Aos poucos, os anúncios começaram a aparecer em outras camisas de futebol. Nunca me esqueço da Kalunga na camisa do Corinthians, da Kia na camisa do Palmeiras, da Data Control na camisa do São Paulo, do BMG nas camisas do Cruzeiro e do Atlético.

As camisas dos times de futebol, de repente, pareciam macacões de pilotos de Fórmula 1. Além da publicidade no peito, elas começaram a aparecer nas mangas, nas golas, nos calções, nas meias.

Os jogadores viraram verdadeiros garotos-propagandas correndo no campo e não eram
só os jogadores. De repente, os juízes também ganharam publicidade nas suas camisas amarelas.

Nos primórdios da televisão, eram as garotas propagandas que bombavam na telinha, mostrando ao vivo como funcionava um liquidificador Walita, uma televisor GE, uma vitrola da Philco.

Depois apareceu o merchandising. Um produto surgia aqui e ali numa novela, assim de uma maneira despretensiosa, bem sutil. Uma mãe preparava um Toddy pro filho e se o noveleiro não prestasse bem atenção, nem percebia que era Toddy.

Hoje tudo mudou. A propaganda está solta e agressiva. O Cleber Machado aparece ao lado do Casagrande no Show do Intervalo carregando uma sacola do iFood, a Patrícia Poeta apresenta o É de Casa tomando café Melitta e afirmando, com toda animação, trata-se de um delicioso café Melitta. O Esporte Espetacular faz uma matéria de enduro falando mil vezes que o Jeep é o Renegade. E por aí vai.

Nas revistas e nos jornais, matérias são apresentadas como se fossem matérias, até que você percebe que se trata de conteúdo da Tim, da Claro, da Vivo.

A gente não sabe mais o que é ficção e o que é realidade, se bem que muitas propagandas mais parecem ficção. Aquele paninho passando uma vez só por cima do fogão engordurado e deixando tudo brilhando, sei não!

Eu gosto de publicidade, até já escrevi um livro sobre o assunto, o Alma do Negócio. Mas vou ser sincero, o lugar onde mais clico no Youtube ultimamente é no tal do pular anúncio.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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