Um estrangeiro perdido na selva de pedra

'Apesar de todo defeito, te carrego no meu peito', escreve Alberto Villas

Foto: iStock

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Opinião

Eu não sou daqui, minha gente, eu sei disso. Sinto logo ao amanhecer quando abro os olhos e não vejo as montanhas. Sou do ouro, sou Minas Gerais. Vivemos na melhor cidade da América do Sul e foi num primeiro de abril que aqui cheguei e nada entendi.

Aquele colorido dos vitrais da estação rodoviária era uma das coisas mais feias que já tinha visto na vida. O reflexo do sol coloria minha mala depositada no chão, psicodélica que ficava. Uma mala com meia dúzia de roupas, porque não vim pra ficar, mas fiquei.

Quarenta anos que moro aqui e ainda confundo Heitor Penteado com Teodoro Sampaio. Não sei se moro na zona norte, sul, leste ou oeste. Não conheço o mapa dessa cidade, onde fica a ponte do Piqueri, a Jacu Pêssego, o MBoi Mirim.

São Paulo é a quarta cidade que moro. Sou capaz de ir sem Waze no Parque da Água Branca, no viaduto João Goulart, no Instituto Moreira Sales, na Japan House, no Incor.

Belo Horizonte, a primeira, onde nasci, você pode falar qualquer bairro que sei onde fica: Carmo, Sion, Floresta, Santa Teresa, Anchieta, Nova Suíça, Barreiro, Lurdes. Brasília, a mesma coisa. Tenho na cabeça onde fica a 405 Sul, a 206 Norte, o Eixo Monumental, a W3, o setor dos hotéis, dos bancos, do poder. Paris, nem se fala. Sei que a Rue de Turenne fica no Marais, o Boulevard Voltaire no 11ème, a Rue Souflot no Quartier Latin. Sei onde fica o Jardin du Luxembourg, o Jardin des Plantes, o Parc Floral, o Buttes Chaumont.

Quando aqui cheguei, fui logo comprando um daqueles guias de rua enormes. Tentava me localizar, procurando cada rua naqueles quadradinhos: B2, C4, F5. Eram milhares de ruas que eu até me embaraçava.

Hoje, apenas dois bairros conheço na palma da mão: Higienópolis e Lapa. Em Higienópolis, onde morei dez anos, me localizo bem: Praça Villaboim, Avenida Angélica, Parque Buenos Aires. Me perco um pouco ainda nas ruas Pernambuco, Alagoas, Piauí, Minas Gerais e Mato Grosso. Nunca sei qual é qual.

A Lapa, onde moro há mais de duas décadas, conheço bem. O Mercado, o Sesc Fábrica, o Senac Moda, a padaria Merci, a Lanchonete Souza, a banca do Severino, o shopping.

Alameda Santos, Alameda Itu, Jau, Franca, Lorena, para mim é tudo a mesma coisa. Muito me impressiona entrar num Uber (eu não dirijo) e o motorista saber onde fica cada canto dessa cidade. Um disse pra mim outro dia que usa o Waze de preguiça. Gil tem razão: Waze é um nome feio, mas é o melhor meio de se chegar.

Tem horas que eu penso, eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui. Vamos fugir pra outro lugar? Amanhã se der o carneiro, vou-me embora pro Rio de Janeiro. Que nada! Apesar de todo defeito, te carrego no meu peito.

Músicas citadas
Irene
Pra Lennon e McCartney
Baby
Frevo Número 2 para o Recife
Vamos fugir
Sampa
Pela Internet 2
Carneiro
São São Paulo

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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