Um cristão ou um nazista?

Bolsonaro tenta construir uma pátria onde comprar feijão se torna coisa de otário e comprar fuzil vira coisa de cristão

A drag queen Rita Von Hunty (Foto: Reprodução/Redes sociais)

A drag queen Rita Von Hunty (Foto: Reprodução/Redes sociais)

Opinião

Em A Ideologia como Linguagem, Theodor W. Adorno demonstrou o modo obsessivo pelo qual o tema da morte atravessa a obra de Martin Heidegger, filósofo do nazismo. Não é apenas coincidência que, ao atravessarmos um governo marcadamente nazifascista, enfrentemos, além de uma política nefasta de morte, uma fixação no termo e no tema. A morte tem sido enunciada por Bolsonaro como uma das alternativas para o encerramento de seu desastroso governo.

Raymond Williams conclui o célebre texto Cultura e Sociedade: de Coleridge a Orwell (1958), com uma bela metáfora sobre o papel dos que empreendem lutas nos campos do ensino e da educação e sobre a interpretação dos conjuntos de significados e valores. Williams fala da importância de se reconhecer, tornar comum e nomear ideias que contêm em si sementes de vida e, também, daquelas que, mascaradas, carregam sementes de morte.

Retomar esses dois trabalhos e seus autores fundamentais para o século XX talvez nos ajude a denunciar e combater o que há de mais podre neste momento que vivemos como sociedade. À medida que o governo Bolsonaro se encaminha para seu encerramento, seja cronológico, seja devido ao desgaste de suas bases apoiadoras, vamos vendo cada vez mais claramente delineadas as táticas de um projeto que parece seguir à risca a cartilha de Hitler.

Mein Kampf (Minha Luta), a infame obra do ditador, continha mais de 164 mil erros de gramática e sintaxe, como apontou Lion Feuchtwagner. A eles, se somam contradições – aquilo que é dito e depois desdito, conforme a conveniência – e fraudes ostensivas, pontuadas no brilhante texto Dialética do Marxismo Cultural, de Iná Camargo Costa.

Apesar de vergonhoso e hediondo do ponto de vista do comprometimento com a verdade ou com a humanidade, o texto tem guiado o governo Bolsonaro. ­Tanto­ é assim que chegamos a ver Roberto ­Alvim, ex-secretário da Cultura, reencenando um pronunciamento de Goebbels, ministro da propaganda nazista.

A filiação à obra de Hitler evidencia-se também em uma série mais ou menos extensa de episódios protagonizados pelo próprio Bolsonaro. Basta nos lembrarmos de que ele definiu a maior pandemia de nosso tempo como uma “gripezinha” e, depois, encenou discursos nos quais afirmava nunca ter dito isso, reforçando que tinha dado importância à crise sanitária.

Ou ainda de que ele se referia pejorativamente ao “Centrão” para, posteriormente, dizer que sempre fez parte desse grupo. Isso sem falar na guerra de morte declarada ao marxismo (primeira tarefa do regime nazista) e tão bem alardeada por ignóbeis figuras como Ernesto Araújo, Abraham Weintraub e Olavo de Carvalho.

Acredito, no entanto, que, em meio a tudo isso, a denúncia mais urgente a ser feita é aquela contida no último reduto de fidelidade bolsonarista: a criação de uma fé política cega. Mentir e falsear a realidade tem sido regra na comunicação presidencial. Só em 2020, Bolsonaro deu 1.682 declarações falsas ou imprecisas – justo ele que tão fervorosamente recorre a João 8:32, autor do versículo “Conhecereis a verdade, e ela vos libertará”.

Não por acaso, é creditada a Goebbels a fórmula de que “com suficiente repetição e conhecimento de psicologia popular é possível provar que um quadrado é, na verdade, um círculo”. Essa máxima, em versão bolsonarista, se traduz, entre outras coisas, na fraude das urnas eletrônicas e na ditadura do STF.

A construção de tal fé política aparece reiteradas vezes na cartilha de Hitler. A convicção do líder nazista era a de que o povo alemão tinha uma missão atribuída pelo Criador – algo que também encontra eco no discurso de Bolsonaro. Sabemos, hoje, que a aderência ao nazifascismo dependeu integralmente do fanatismo e da intolerância de um povo massacrado e sem ferramentas críticas para resistir.

É, portanto, imprescindível pontuar que os repetitivos ataques bolsonaristas à ciência e à educação fazem parte de um projeto de desarmamento crítico de um povo. O atual governo levou os níveis de investimento nesses setores a regredir aos patamares de duas décadas atrás.

Jesus Cristo, durante sua passagem como proponente de outra ordem social, sempre procurou combater o fanatismo e a intolerância. É, por isso, uma contradição usar a palavra “fé” quando nos referimos a qualquer coisa relativa ao bolsonarismo. Enfraquecido e isolado, o presidente reforça uma prática que não tem nada de nova: mobilizar, através do falseamento e da manipulação, a crença em um Deus armado e violento.

Com isso, ele vai tentando construir uma pátria onde comprar feijão é coisa de otário e comprar fuzil é coisa de cristão. Tenho a esperança de que consigamos ensinar e aprender que um cristão com fuzil é apenas um nazista disfarçado.

Publicado na edição nº 1174 de CartaCapital, em 9 de setembro de 2021.

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Drag queen intepretada pelo professor Guilherme Terreri

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