Urna eletrônica
Urna eletrônica
Don João arrepende-se demais desse voto. “Nossa, se eu tivesse sabido… retirava meu voto agora. Ele é agressivo demais, pensava que era coisa só de campanha, mas ele é violento contra as mulheres, contra tudo, e outra, essas reformas aí são contra o trabalhador. Eu sou contra a reforma da Previdência e essa coisa de trabalhar aos domingos. A gente que é trabalhador está na pior e ela vai piorar ainda mais.”

Jair Bolsonaro (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
Don João trabalha de zelador num hospital. Conta que o serviço foi terceirizado e durante esse tempo não fez mais do que perder direitos. Ultimamente, a empresa está na fase de demitir pessoal. Don João diz que vai trabalhar todo dia com medo, pois não sabe quando será dispensado. “Ah, professora, é muita tristeza, é muita angústia você não saber quando vai ser seu último dia no serviço. E, se me mandarem embora, o que faço? Eu estou com 45 anos, minha mulher está desempregada e a gente tem as coisas para pagar.” Eu, que não sei que o significa diariamente ir trabalhar com medo, não sei o que responder.
“A gente se sente muito mal, como sem valor, sabe?” A frase de Don João talvez seja a que melhor resume a lógica neoliberal, muito melhor do que livros, enciclopédias ou tratados. O produto mais sinistro do neoliberalismo, os sem-valor, os descartáveis, os derrotados, os humilhados, os inúteis para alimentar a roda monstruosa da produção e do lucro. Não acho que nenhuma alternativa de esquerda possa ser chamada realmente de esquerda se não entender que este é o coração do problema, da dor social, da angústia coletiva atual. Nenhuma esquerda pode ser chamada de esquerda se não entender que a sua obrigação principal é dar resposta a essa angústia.
Nossa conversa dura quase três horas. Num determinado momento, pergunto a Don João pelo PT. Ele é muito duro, mas não pensa duas vezes: “O PT não é o Partido dos Trabalhadores? Então o que está fazendo agora para defender o trabalhador? A gente sabe que o PSDB e o PMDB não vão defender o pobre, mas o PT deveria, não deveria? E então?” Conversa vai, conversa vem, pergunto pelo Lula. Don João diz que Lula sabia de muita coisa, aliás “sabia de tudo”, mas que a prisão dele foi injusta e ele iria ganhar as eleições. “Eu não digo que seja inocente, acho que o PT se corrompeu mesmo, mas olha aí outros políticos que ficaram ricos e estão soltos.”
Don João não entende muito bem o conteúdo da Vaza Jato, não sabe explicar o que é o site Intercept ou qual deveria ser a relação entre juízes e procuradores, mas leu bastante coisa, porque ele gosta de se manter informado, e sentencia: “A gente sabe agora que esse Moro fez coisa errada”.
Don João, e se Lula fosse solto? A reação dele me pega de surpresa, não esperava por essa. Don João emociona-se e me diz: “Ah, a gente sabe que o PT fez muita coisa errada, mas eu com Lula estava melhor, comprei essa casinha, a gente que é pobre melhorou de vida e, neste País, poucas vezes a gente pobre melhora de vida. Este é um país para os ricos. Pela primeira vez, ele nos deu uma chance”.
Voltei a falar com Don João pouco tempo atrás. Ele ainda vai todo dia com medo para o trabalho.
Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.
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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).