Um ano que terminou

Estamos em mil novecentos e setenta e um. Nós éramos sonhadores e não éramos os únicos quando cantamos Imagine na noite de Natal

John Lennon em 1971. Foto: AFP

John Lennon em 1971. Foto: AFP

Opinião

Estamos em mil novecentos e setenta e um, o ano que terminou. Aparentemente, este ano não daria um livro, como deu o futurista 1984 de George Orwell e aquele que não terminou, o 1968 de Zuenir Ventura.

 

 

Todo ano, faça chuva ou faça sol, tem retrospectiva, com boas e más notícias. Nascimentos e mortes, tragédias e surpresas, progresso da ciência, passos para trás. Mil novecentos e setenta e um não foi diferente.

Foi em 1971 que o guerrilheiro Carlos Lamarca morreu no sertão da Bahia, magro e subnutrido, com o corpo crivado de balas. Foi capa da Veja, com uma manchete curta e grossa: Está morto.

Foi em 1971 que o Concorde, o sinônimo de futuro, fez o primeiro voo para a América Latina. Saiu de Paris rumo a Caracas a uma velocidade de 1.230 quilômetros por hora. Um assombro.

Um ano depois da conquista do tricampeonato no México, Pelé começou a tirar o time de campo, a dependurar as chuteiras. Chorou várias vezes no gramado ao final de cada jogo.

A minissaia abafava em 1971. Os brotos resolveram colocar as pernas de fora e elas eram saias cada vez mais curtas e justas. Foram parar nas capas da revista Manchete, da Life, da Look e da Stern.

Em 1971, todos perguntavam se era possível comparar Florinda Bulcão com Sophia Loren, Claudia Cardinale, Mia Farrow, Katherine Hepburn ou Faya Dunaway. Era. A garota do interior do Ceará, de 30 anos, ficou conhecida em todo o mundo com o Anônimo Veneziano.

A Cidade Maravilhosa vivia mais uma tragédia em 1971, quando o elevado Paulo de Frontin desabou sobre a cidade soterrando 48 pessoas e esmagando dezenas de automóveis. O Pasquim chegou às bancas com uma manchete em letras garrafais: Rio, sai de baixo!

Foi em 1971 que chegou ao Brasil, o primeiro cartão de crédito, o Credicard, resultado da associação dos bancos First National City, União de Bancos Brasileiros e Itaú América.

O Prêmio Nobel da Paz foi para o chanceler alemão Willy Brandt, que afirmou: “Quem não foi comunista antes dos vinte anos, nunca será um bom socialdemocrata”. O Nobel de Literatura foi para o poeta chileno Pablo Neruda, comunista antes dos vinte anos e até então, aos 67.

Numa cerimônia rápida, no dia 16 de dezembro, nasceu uma nova nação: Bangladesh, que o Brasil chamava de Bengala. Pobre e desconhecida, não fosse George Harrison organizar um concerto para salvar vidas.

O ano de mil novecentos e setenta e um terminou com todo mundo cantando Imagine, de Buenos Aires a Daca, na República Democrática de Bangladesh, de Cabul a Oklahoma, de Katmandu a Santa Rita do Sapucaí.

Nós éramos sonhadores e não éramos os únicos quando cantamos Imagine na noite de Natal:

Imagine que não existe paraíso/É fácil se você tentar/Nenhum inferno sob nós/Acima de nós apenas o céu/Imagine todas as pessoas/Vivendo para o presente. Imagine que não há países/Não é difícil/

Nada para matar ou razão para morrer/E nenhuma religião também/Imagine todas as pessoas/Vivendo a vida em paz.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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